Uno Negativo

THE ARCHITECTURE OF THE INTELLIGIBLE UNIVERSE IN THE PHILOSOPHY OF PLOTINUS (1967)

O aspecto do Uno como unidade inpredica­vel está profundamente entrelaçado com sua face de Primeiro Princípio ativo, e ambos percorrem juntos toda a extensão das Enéadas.

Ambos os aspectos já coexistiam em Albino, firmemente assentados na tradição platônica herdada por Plotino, cujo ponto de contato é a busca por uma simplicidade absoluta na natureza divina.

A via “negativa” de conceber o Uno pode ser entendida como um desdobramento especificamente pitagórico do platonismo enquanto filosofia dos números, que torna o Uno radicalmente remoto e sujeito a condicionamentos matemático-lógicos arcaicos.

Rastrear as origens históricas dessa concepção revela que os aspectos positivo e negativo são essencialmente modos distintos de pensar o Primeiro Princípio, e que a tradição “negativa” conduziu Plotino a formular negações sobre o Uno que a concepção de transcendência positiva não exigia.

Na concepção negativa do Uno, este é designado como “nada”, “sem forma”, “anterior a qualquer forma”, “nem aquilo nem isto” — terminologia que remonta, como Dodds demonstra conclusivamente, a uma interpretação do Parmênides de Platão.

O significado real da segunda parte do Parmênides é irrelevante para essa discussão, sendo provável que o diálogo visasse preparar o argumento sobre a interpenetração dos megista gene no Sofista — e não antecipar especulações neoplatônicas sobre o Uno.

Os estágios intermediários pelos quais o Parmênides foi transformado em fonte de doutrina neoplatônica são de grande interesse, e Dodds reconstrói essa tradição a partir de dois trechos de Simplício.

Em Moderato encontra-se uma interpretação das três primeiras hipóteses do Parmênides com três Unos, estrutura que corresponde à exegese neoplatônica do diálogo dada por Proclus e que também aparece em Plotino (V.1.8).

A ideia de uma unidade pura anterior a toda dualidade, fonte dos elementos do número e de toda realidade, remonta pelo menos a antes de Eudoro, e Dodds a rastreia até Espeusipo.

Espeusipo distingue-se radicalmente do restante da tradição platônica por inverter a ordem da perfeição: para ele, o mais perfeito provém do menos perfeito, e a perfeição situa-se no fim do processo, não no início.

A inovação de Espeusipo representa uma ruptura curiosa na tradição platônica e pode ter sido uma das razões pelas quais Aristóteles deixou a Academia, mas não exerceu influência direta relevante sobre a tradição platônico-pitagórica posterior.

A origem da doutrina peculiar de Espeusipo sobre o Uno provavelmente se conecta ao ensinamento pitagórico sobre a Tétractis, para o qual a perfeição residia na totalidade dos números, não na Mônada original.

É duvidoso que as poucas passagens em que a Mônada pitagórica é identificada a Deus ou ao Bem representem ensinamento pitagórico pré-platônico genuíno.

Não há nos diálogos nenhuma sugestão de doutrina de um Uno Primordial no período tardio “pitagorizante” de Platão, e as tentativas de extraí-la do Filebo (23C-27C) ou de outras passagens enfrentam objeções insuperáveis.

A segunda passagem aristotélica relevante (Met. N, 1091b.13) é mais surpreendente, ao afirmar que para certos platonistas — presumivelmente Xenócrates e o próprio Platão — o próprio Uno era o próprio Bem, mas trata-se de uma doutrina diferente de qualquer coisa em Plotino.

Se a interpretação de Cornford do desenvolvimento tardio do pensamento de Platão evidenciado no Sofista e da relação do Parmênides com esse desenvolvimento estiver correta, é impossível que Platão tivesse qualquer ideia semelhante ao Uno negativo.

Mostra-se impossível encontrar na “teologia negativa” — a transcendência extrema e a unidade absoluta do Uno plotiniano — uma fonte em Platão ou Xenócrates.

É preferível supor uma modificação de Espeusipo sob influência do pensamento tardio de Platão, de Xenócrates, e sobretudo de uma interpretação de República VI, 509B semelhante à atribuída por Siriano (In Met. 925b. 27 ss.) ao pseudo-Brotino neopitagórico.

A descoberta da concepção negativa do Uno, como unidade absoluta e inpredicável, já presente na tradição anterior a Plotino, torna consideravelmente menos provável a teoria de Heinemann sobre um período inicial do desenvolvimento de Plotino.

As principais objeções à tese de Heinemann são a fragilidade de seus fundamentos cronológicos e a presença de uma doutrina do Uno transcendente na tradição anterior a Plotino.

Não se deve cometer o erro de tentar explicar o sistema de Plotino inteiramente a partir de seus antecedentes históricos: Plotino foi um gênio original de primeira grandeza, e é preciso investigar seu pensamento pessoal e sua vida espiritual para compreender por que reteve concepções tão incompatíveis de seu Primeiro Princípio e fez tentativas tão heroicas de reconciliá-las.

Embora as concepções “positiva” e “negativa” do Uno tenham sido separadas nitidamente para fins de investigação de suas origens históricas, elas não estão de fato tão separadas — há muitos elos de ligação e estágios intermediários entre elas.

Dado o conceito neopitagórico do Uno Matemático como fonte do número, do princípio de medida, limite e forma no universo, a concepção positiva pode deslizar facilmente para a negativa — a do Uno como unidade inpredicável — desde que a fonte do número seja identificada com o fundamento do ser.

Plotino era plenamente consciente da inadequação do termo “Uno” para expressar tudo o que pretendia transmitir com sua descrição do Primeiro Princípio, negando apaixonadamente qualquer intenção de limitá-lo ou fazer sobre ele qualquer afirmação positiva.