Matéria espiritual nos Tratados

GARCÍA BAZÁN, Francisco. Neoplatonismo y vedânta: la doctrina de la materia en Plotino y Shánkara. Buenos Aires: Depalma, 1982.

Em pelo menos uma oportunidade anterior ao curso de 260/261, Plotino menciona explicitamente a matéria espiritual em Enn. V,1 (10) 9, ao traçar um histórico das três hipóstases na filosofia grega e criticar Aristóteles por atribuir o pensamento ao Primeiro Princípio, embora reconheça que os motores inteligíveis aristotélicos correspondem, em nível de realidade, aos seres espirituais de sua própria doutrina.

No curso de 256/257, em Enn. V,9, a noção de matéria espiritual já está pressuposta ao tratar da unidade e multiplicidade das ideias no Intelecto: cada ideia mantém sua individualidade sem se separar das demais nem se confundir com nenhuma, não porque ocupe um lugar (topos), mas porque constitui uma unidade distinta.

Em Enn. V,4 (7) 2, Plotino responde por que o Intelecto não é o Simples e primeiro gerador: o Intelecto em ato é intuição (noesis) e toda intuição, como a visão humana, é algo indefinido que necessita de seu objeto para se definir, implicando portanto composição e não simplicidade.

Dois anos depois, Plotino aprofunda o mesmo tema distinguindo a série dos números ideais dos princípios componentes do Intelecto — a Unidade e a dualidade indefinida — e afirmando expressamente que esta última é substrato.

Paralelamente, Plotino ensina a mesma teoria sob outra perspectiva, descrevendo o surgimento do Intelecto a partir de sua audácia de se afastar do Uno, noção que reaparece em dois momentos do curso seguinte.

Entre as causas da origem do mal para as almas em Enn. V,1,1, a “alteridade primeira” (he prote heterotes) aparece ao lado da audácia, da geração e da vontade particularizadora, conceito que já havia surgido em outros momentos dos primeiros anos da produção filosófica escrita de Plotino.

Em Enn. V,1 (10) 4, 31-43, Plotino apresenta a síntese mais técnica e completa sobre a composição do Intelecto, mostrando que o conhecimento implica dualidade e que dessa dualidade emergem os grandes gêneros do ser.

Com esses dois conjuntos de evidências — referentes a dois tipos distintos de substratos receptores de formas, o sensível e o espiritual — há elementos suficientes para abordar com perspectivas de êxito interpretativo o curso que Plotino dedicou inteiramente ao tema da matéria.