Prefácio à tradução das Enéadas

Ennéades

Três grandes monumentos da filosofia grega são apresentados como legados fundamentais, cada qual com sua contribuição específica para o pensamento idealista, positivo e eclético.

A importância dos três monumentos para a filosofia e sua história é quase igual, sendo indispensável explorá-los para uma compreensão justa e completa da filosofia antiga e de suas transformações.

A dificuldade de acesso aos textos originais, agravada pela obscuridade da expressão dos filósofos, torna necessária a tradução para a língua vulgar como único meio de torná-los acessíveis à maioria dos leitores.

Victor Cousin e Barthélemy Saint-Hilaire são reconhecidos por terem se dedicado à tarefa de traduzir Platão e Aristóteles, tornando-os familiares ao público francês com o auxílio de introduções e comentários esclarecedores.

Plotino, diferentemente de Platão e Aristóteles, não havia encontrado intérprete até então, possivelmente devido à incompreensão de seu papel, à obscuridade proverbial de seu estilo ou à falta de público para suas publicações.

A falta de estudos sobre a Escola de Alexandria é considerada lamentável, pois ela apresenta todos os caracteres de uma grande filosofia, merecendo um lugar distinto ao lado do Platonismo e do Peripatetismo, sendo Plotino seu pai e expositor mais completo.

Conhecer Plotino é necessário não apenas para preencher uma lacuna, mas também para esclarecer o estudo e completar a compreensão dos filósofos anteriores, especialmente Platão, sendo Plotino seu continuador natural.

Um desejo antigo de ver a lacuna preenchida sobre Plotino era alimentado pela crença no Ecletismo e na necessidade do estudo comparado dos sistemas, considerando o levantamento de tudo o que foi feito anteriormente como indispensável para constituir uma filosofia sólida.

A esperança de que M. Vacherot traduzisse os filósofos da Escola de Alexandria foi frustrada, mas a convicção de que a melhor análise não substitui uma tradução textual levou o autor a empreender a tarefa por si mesmo, apesar das dificuldades.

A decisão de fazer uma tradução completa, em vez de uma seleção de trechos, foi tomada do ponto de vista do interesse da ciência, pois uma escolha sempre seria suspeita de arbitrariedade, insuficiência e parcialidade.

A tradução completa era especialmente necessária para Plotino, autor pouco conhecido, difícil de compreender e cujas doutrinas eram objeto de controvérsia, sendo exaltadas por uns e depreciadas por outros.

Diversas dificuldades específicas se apresentam na tradução de Plotino: a natureza abstrusa das questões de ontologia, cosmogonia e psicologia; a necessidade de conhecer todas as escolas anteriores; e a maneira de compor do autor, com pensamento disseminado em peças independentes.

Acrescentam-se as dificuldades do estilo de Plotino: expressão frequentemente incorreta, frase de extrema concisão e mal acabada, o que levava Longino a queixar-se e a atribuir a dificuldade de compreensão a erros de copistas.

Apesar dos esforços de Porphyre e das edições subsequentes, os copistas e tipógrafos introduziram erros e variantes, e a reputação de ininteligível de Plotino afastou possíveis tradutores.

Para o estabelecimento do texto grego de Plotino, as edições de Fréd. Creuzer e Moser (Oxford, 1835) e a de A.-F. Didot (Paris, 1855), com a ajuda de Fr. Dübner, representaram avanços, mas ainda apresentavam imperfeições de texto, pontuação e correções.

A edição de A. Kirchhoff (Leipzig, 1856) é vista como popular, mas sua reforma limita-se a mudar a ordem dos livros para a cronológica, o que é considerado pouco útil e que dificulta pesquisas e remissões.

Para a interpretação do texto, a tradução latina de Marsile Ficin serviu como base excelente, sendo uma paráfrase inteligente que acrescenta palavras para tornar o pensamento inteligível, embora a versão latina exija substituições para atender às exigências da ciência moderna e da clareza da língua francesa.

A tradução parcial de Th. Taylor e outras traduções parciais em francês e alemão foram consultadas, mas os comentadores mostraram-se insuficientes: Ficin preocupou-se mais em discutir opiniões, e as notas de Creuzer, embora úteis, são mais filológicas e críticas do que exegéticas e filosóficas.

As dificuldades da tarefa e a insuficiência dos recursos são destacadas para explicar e pedir desculpas antecipadas pelas imperfeições da tradução, esperando a indulgência do leitor.

O sistema de tradução adotado prioriza a rigorosa exatidão do pensamento do autor sobre a elegância e o agrado, sacrificando este último, e sempre que necessário, palavras são acrescentadas para completar frases, sinalizando as adições, e termos técnicos são acompanhados do grego para liberdade de interpretação.

Além de traduzir a letra, o trabalho busca facilitar a inteligência da doutrina por meio de notas, comentários históricos e filosóficos ao final do volume, servindo como introdução especial para cada livro.

Exemplos de comentários incluem: exposição dos dogmas fundamentais do Neoplatonismo para o primeiro livro; analogia da doutrina do mal com Platão, Santo Agostinho, Bossuet e Leibnitz; exposição dos princípios da astrologia judiciária para o tratado da influência dos astros; e exposição da doutrina gnóstica para o livro Contra os Gnósticos.

Nas citações, optou-se por reproduzir os trechos in extenso, em vez de indicações vagas, para permitir a verificação dos textos e o julgamento das conclusões, utilizando o próprio Plotino como seu melhor comentador por meio de múltiplas citações e aproximações.

Para o trabalho de interpretação, foram utilizadas obras como o Essai sur la Métaphysique d'Aristote de M. Ravaisson, os estudos de M. H. Martin sobre o Timeu, o livro de M. Franck sobre a Cabala, a tese de M. Chauvet e a obra de M. J. Denis.

Para facilitar a compreensão das Enéadas, foram adicionados sumários no início da obra, que apresentam em resumo o conteúdo de cada livro, servindo como fio condutor.

Dois documentos de Porfírio são incluídos como valiosos para a história e inteligência do Neoplatonismo: a Vida do mestre e os Princípios da teoria dos inteligíveis.

Uma notícia completa de todos os trabalhos sobre Plotino (edições, traduções, comentários) é fornecida, e a escolha e disposição dos materiais seguem o mesmo plano da edição das Obras filosóficas de Bacon.

O papel assumido é o de relator imparcial, colocando Plotino tal como é diante dos amigos da filosofia, fornecendo meios para estudá-lo, mas deixando a liberdade de julgamento, defesa ou combate.

Um primeiro resultado do estudo é a demonstração, pelos fatos, de que a Escola de Alexandria é eclética e que Plotino mesclou doutrinas de estoicos, peripatéticos, platônicos e orientais, como comprovado pelas citações e aproximações com Filon e a Cabala.

Um segundo resultado é que a leitura das Enéadas dissipa a prevenção contra a filosofia alexandrina, revelando sua originalidade e elevação, e que, apesar das dificuldades de redação, os escritos de Plotino não são mais obscuros que os de seus predecessores e podem até esclarecê-los.

Quanto ao estilo de Plotino, reconhece-se que ele não é sem mérito, pois varia conforme o assunto: didático e severo como Aristóteles ao explicar o Timeu ou discutir a Metafísica; vivo e elegante ao comentar Platão; e magnífico e entusiasta ao descrever a gênese dos seres inspirado pela sabedoria oriental.

Reconhece-se também o papel importante que a filosofia de Plotino desempenhou em seu tempo, despertando o entusiasmo de contemporâneos como Longino, que o considerava superior a Numênio, Cronio, Moderato e Trasilo, e de escritores posteriores que o chamavam de grande Plotino, vendo nele um Platão redivivo.

Ao contrário do que se poderia pensar, Plotino não deve ser considerado inimigo do cristianismo, pois não há em seus escritos uma linha contra os cristãos, e os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, citam-no com estima, vendo nele um outro Platão e reconhecendo a afinidade do Platonismo com o Cristianismo.

Os escritos de Plotino lançam luz sobre o estudo dos filósofos precedentes (Platão e Aristóteles) e são ainda mais necessários para a perfeita inteligência dos escritores posteriores, tanto pagãos (como Macrobe) quanto cristãos (como os Padres da Igreja, Eusébio, São Cirilo, os escolásticos Alberto Magno e Tomás de Aquino, e até Dante).

A influência do neoplatonismo se estendeu até os tempos modernos, manifestando-se em Bossuet, Fénelon, Malebranche e Leibnitz, muitas vezes indiretamente, por meio da leitura dos Padres da Igreja e da teologia escolástica.

Agradecimentos são feitos a um jovem professor, M. Eugène Lévêque, cujo zelo e constância foram essenciais para que a obra, muitas vezes adiada, pudesse finalmente ver a luz do dia, auxiliando a levantar dúvidas e poupando pesquisas.

A publicação desta obra de gênero severo não espera o mesmo acolhimento que os trabalhos usuais para instrução da juventude, mas o autor se sentirá recompensado se a justiça for feita aos seus esforços pelos juízes competentes.