O sentimento plotiniano não é isolado; é partilhado e reforçado pelo meio religioso de seu tempo.
As religiões de mistério (Isis, Mithra, Hermetismo) partem do mesmo pressuposto: a alma está impura e precisa ser salva, renascida, libertada de elementos inferiores.
Para a mentalidade helênica realista, uma transformação interior deve se traduzir em um deslocamento espacial real.
Exemplo em
Platão (
Fédon,
República,
Fedro): mitos descrevem
viagens da alma através de lugares cósmicos associados a graus de perfeição.
Diferença crucial: em Platão, o mito tem um vínculo frouxo com a ciência; nos séculos posteriores, o mito absorve a cosmologia. O universo torna-se exclusivamente o teatro da destinação humana.
Exemplos da cosmologia a serviço do mito:
Numênio: interpretação alegórica e fixação topográfica do mito da República (julgamento no centro do mundo, esfera das fixas, etc.).
Mithraísmo: ascensão da alma através das sete esferas planetárias, onde se despoja de paixões recebidas na descida, para atingir o oitavo céu de beatitude.
Culto como realização simbólica: os ritos de iniciação (vestir/despir roupas, fórmulas) encenam materialmente os estágios da purificação e da jornada da alma.