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Jâmblico

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JÂMBLICO

Preferência pela metafísica teológica e pela racionalização dos mitos

Jâmblico é considerado um filósofo que priorizou a demonstração do conteúdo racional e filosófico presente nos mitos gregos e nas lendas religiosas de diversos povos, deixando de lado questões como teurgia, magia e adivinhação por não serem essenciais à filosofia e à psicologia.

Perfil biográfico e estilo intelectual

Originário de Cálcis, na Cela-Síria, Jâmblico foi discípulo de Anatólio e teve sua formação completada por Porfírio, vindo a falecer por volta do ano 330, sendo reconhecido por sua inteligência superior, imaginação fértil e erudição vasta.

A questão da teurgia e sua avaliação como filósofo

Embora se atribuísse a Jâmblico uma faculdade divinatória extraordinária e a prática de artes teúrgicas, não se deve julgá-lo apenas por esses relatos, pois sua vasta obra filosófica demonstra que ele foi um verdadeiro filósofo.

Jâmblico como comentador de Platão e Aristóteles

Jâmblico comentou os diálogos de Platão, como o Timeu, o Parmênides e talvez o Alcibíades, bem como obras do Organon de Aristóteles, demonstrando ser um filósofo engajado em questões teóricas fundamentais.

Diferenças com Plotino sobre a pureza da alma

Jâmblico discorda de Plotino e Teodoro de Asine, que fizeram da alma uma essência absolutamente pura e divina, argumentando que eles não levaram suficientemente em conta os fatos da consciência e da experiência.

Definição da alma como intermediária

A alma é definida como uma essência intermediária entre as essências divisíveis e as essências incorpóreas e indivisíveis, possuindo a plenitude ou sendo o sistema vivente e completo das ideias universais.

Eternidade da alma e metensomatose

A alma é eterna, e a morte é apenas a passagem de um corpo a outro, sendo que a metensomatose para o homem só pode ocorrer de um corpo humano para outro corpo humano, não para o corpo de um bruto.

A natureza da alma como causa inextensionada

A alma não é uma figura, nem o limite da extensão, nem a própria extensão, nem a ideia do que é extenso; ela é a causa da extensão e da figura, e a força inextensionada que as une.

Faculdades vitais e irracionais da alma

Jâmblico propõe a ideia de que as faculdades vitais, como a nutritiva e a generativa, que Plotino considerava mortais, são imortais no seio do Todo, onde guardam sua individualidade.

Movimentos próprios da alma

A alma possui movimentos que lhe são próprios, os quais, libertos do composto, realizam as formas de vida essenciais, como as inspirações divinas e os pensamentos imateriais.

Diferenças entre as funções das almas

Jâmblico emite uma opinião intermediária sobre as funções das almas: as funções diversas correspondem às espécies e gêneros diversos de almas, rejeitando tanto a uniformidade dos estoicos e Plotino quanto a grande diferença proposta por Porfírio.

A descida das almas e seus motivos

As almas, em sua primeira hipóstase, são semeadas pelo demiurgo nos corpos mais perfeitos, de onde descem e se tornam diferentes entre si segundo as diferentes moradas recebidas ou segundo a vontade ou a necessidade.

Comunicação da alma ao corpo e os envoltórios

Jâmblico propõe uma opinião inédita sobre o momento em que a alma se comunica ao corpo: ela o faz sucessivamente, comunicando suas múltiplas essências e potências à medida que o corpo se torna apto a recebê-las.

A teoria do conhecimento e a sensação

A teoria das faculdades de conhecimento em Jâmblico está conforme à de Plotino: a sensação é uma impressão, mas também e sobretudo um ato em que a alma se torna semelhante ao objeto sensível.

Sensação da sensação, imaginação e opinião

Além da sensação, há a sensação da sensação, que é própria da alma e um caráter da natureza humana, pois sentir que se sente é o privilégio da natureza racional.

Razão em ato e em potência

Jâmblico distingue, como Aristóteles, uma razão em ato e uma razão em potência, que não diferem pela essência, mas pelo grau de desenvolvimento, sendo a parte superior da alma que determina sua verdadeira essência.

O ternário sagrado e a doutrina das triades

Jâmblico considera o número três como sagrado, esforçando-se para encontrá-lo em tudo, especialmente no mundo inteligível, onde ele introduz a noção de uma unidade imparticipável acima de cada classe de seres.

A triade suprema e o mundo inteligível

Abaixo do uno absolutamente imparticipável e acima do inteligível, Jâmblico coloca um segundo uno, do qual procede o inteligível, formando a primeira triade suprema e inefável.

O mundo intelectual e o demiurgo

Abaixo da tríade inteligível, Jâmblico coloca o mundo intelectual, que contém os gêneros do ser de forma particular e dividida, e onde o demiurgo ocupa o terceiro lugar na hebdomada intelectual.

O mundo psíquico e as almas

Abaixo do mundo intelectual, encontra-se o mundo psíquico, organizado em tríade: a alma separada, hipercósmica e imparticipável ocupa o primeiro lugar, seguida por outras duas almas, a alma do todo e a que contém as almas dos outros seres animados.

Classificações dos deuses e seres demoníacos

As almas dos deuses são distinguidas e organizadas em tríades, multiplicando-se em números como 12, 36, 72 e 360, além de outras classificações como os diretores, os deuses genesiurgos e a classificação de Porfírio em deuses sacerdotes, pastores, caçadores, geórgicos e batalhadores.

Natureza, destino e liberdade da alma humana

Abaixo das tríades da alma encontra-se o mundo da natureza, onde reina o destino e as forças superiores estão ligadas aos corpos materiais; o destino se confunde com a natureza como o conjunto das leis imutáveis do mundo corporal.

Ação da providência e ausência do acaso

O princípio da ação humana está em harmonia com a fatalidade e a providência, sendo anterior e superior à natureza; o acaso e a fortuna não suprimem nem perturbam esta ordem, pois nada no universo é desordenado ou episódico.

TEODORO DE ASINE

Associação com Jâmblico e originalidade

Teodoro de Asine é associado por Proclo ao nome de Jâmblico, tendo sido seu discípulo, e é considerado o mais considerável dos neoplatônicos sucessores de Jâmblico, exceto Proclo, sendo o único que trouxe algumas modificações ao sistema das tríades.

A triade suprema e a triade inteligível

Teodoro postula, como todos os neoplatônicos, o Primeiro, princípio inefável e fonte de tudo, causa da bondade (perfeição intrínseca de todas as coisas), de onde tudo parte e para onde tudo aspira a retornar.

Triade intelectual e triade demiúrgica

Uma nova tríade segue a tríade inteligível, determinando e limitando a profundidade intelectual, compreendendo o ser anterior ao ente, o pensar anterior à razão e o viver anterior à vida.

Divisão das tríades e a questão do autozôon

Teodoro divide a tríade demiúrgica, distinguindo em cada uma de suas unidades (o ente, a razão e a fonte das almas) um primeiro termo, um médio e um extremo, obtendo assim três tríades demiúrgicas.

A triade psíquica e a composição da alma

Da tríade demiúrgica procede uma última tríade, a tríade psíquica, composta pela alma em si, pela alma universal e pela alma do todo, que é uma vida em potência e idêntica à fatalidade.

A parte superior da alma e a relativização

Ao contrário de Jâmblico, Teodoro sustentava que há em nós, na parte mais elevada da alma, algo que escapa à ação das paixões e pensa sempre (ato constante), estando a razão isenta da relatividade.