Proclus – Alma Humana

Chaignet: LIVRO

A natureza humana apresenta uma hierarquia tríplice que inclui um princípio divino de unidade, uma razão identificada com o ser e uma alma também divina, porém subordinada à razão.

No seio da alma indivisível e imparticipável, encontram-se as almas já individualizadas em virtude de uma inclinação que é simultaneamente livre e fatal.

A alma separável do corpo, que descendeu do mundo inteligível, é diferente da alma existente nos corpos, como a dos vegetais, que é inseparável de seu substrato.

A alma procede de maneira mediata, tendo três causas distintas em uma ordem hierárquica: primeiramente do demiurgo, em segundo lugar da alma universal e, imediatamente, da razão particular.

A alma é eminentemente vida, sendo responsável por acender nos seres os laços animados e indissolúveis que geram a vida e os princípios da atividade criadora.

A incorporação da alma a afastou das coisas divinas, que a haviam preenchido com pensamento, poder e pureza, ligando-a ao mundo fenomenal.

A partir da queda, passam a existir na alma um elemento irracional, uma potência de livre escolha e um elemento pelo qual se conhece e que necessita da reminiscência das ideias.

A vida da alma é apresentada como tríplice em outra análise, compreendendo a atividade que se mantém nos princípios, a que perde a visão perfeita das ideias e a que se eleva novamente por meio do raciocínio.

A alma é por essência uma força automotriz, mas desde que se associou ao corpo, ela sofre um movimento cuja causa lhe é exterior.

A alma não é perfeita, não possui sempre a ciência e necessita da reminiscência para ser constituída, ocupando um posto intermediário.

O ser humano não é definido como o composto de alma e corpo, nem como um corpo animado, pois o corpo não completa a essência e não é uma parte do homem.

Aqueles que pensam de outra forma, como os epicuristas e os estoicos, acabam por separar o útil do justo, enquanto o justo e o útil são uma única e mesma coisa.

Uma prova de que a alma é uma essência separada do corpo é extraída da natureza da ciência, que, sendo indivisível, preenche muitos indivíduos sem se diminuir.

A alma é indivisível e simples, sendo o ponto de encontro onde o bem, o belo e o justo se reúnem e se unem como em seu centro.

Na alma, o ser é vida e razão, a vida é razão e ser, e a razão é ser e vida, formando uma substância una.

O homem é essencialmente uma alma, como prova o fato de que ele se serve do corpo como de um instrumento, e o todo do homem está naquilo que usa os órgãos, não nos próprios órgãos.

Nosso ser real consiste em ideias e razões, e a alma é eminentemente um mundo de vida, sendo essa vida eterna e, portanto, a alma incorpórea é incorruptível e imortal.

Existe, contudo, outra alma que é inseparável do corpo: a alma sensitiva e concupiscível, que é movida pelo corpo e experimenta estados que lhe são comunicados por ele.

Essa duplicidade, que se pode levar a uma triplicidade, não afeta a substância e a essência da alma, mas apenas suas funções ou potências.

A pluralidade na alma é ramificada em uma primeira triade composta de essência, potência e atividade, cuja essência compreende a existência determinada, a harmonia e a forma.

A alma pensante (logiké) possui o desejo e o conhecimento, cujo objeto pode ser ora o ser, ora o devir, levando a alma a elevar-se a Deus ou a abaixar-se para as coisas fenomênicas.

A vida moral da alma é tripla, compreendendo a disciplina do elemento irracional, o retorno da alma sobre si mesma e a remontada da alma às suas causas.

A união da alma a Deus ou ao bem é um conhecimento, e o conhecimento de Deus é uma assimilação à sua essência.

O número se introduz na alma não apenas pelos elementos constituintes de sua natureza, mas também por suas funções e potências vitais e intelectuais.

A finalidade da alma é a assimilação à razão, e a finalidade da razão é a visão de Deus, um ato pelo qual a alma conhece Deus unindo-se a ele.

Existe uma dupla ignorância: ignorar simplesmente e acreditar saber sem saber, o que constitui o erro.

Dois caracteres comuns a todo conhecimento são a assimilação do sujeito ao objeto e o fato de que a alma que conhece tem dentro de si o objeto que conhece.

Possuímos por essência as razões das coisas e como que respiramos os conhecimentos dessas razões, mas não os temos em ato, sendo incapazes de expressá-los.

O conhecimento da verdade existe em nós, mas somos impedidos de compreendê-la pelo assalto das paixões, como o esquecimento, a opinião, a conjectura, as representações enganosas e os desejos imoderados.

Para chegar à verdadeira finalidade da vida, que é a contemplação e visão de Deus, é necessário elevar-se à ciência e depois ultrapassá-la.

Os objetos da ciência são conhecidos pela ciência, mas os primeiros princípios e a Deus são conhecidos por uma intuição semelhante à da sensação, embora mais pura.

Antes de se elevar às causas primeiras, a alma deve primeiro tomar conhecimento de si mesma, de sua essência que se manifesta por atos e que consiste em razões e ideias.

Distinguem-se na alma duas grandes classes de faculdades determinadas por seus objetos: as faculdades racionais (logiká), que têm por objeto os inteligíveis, e as faculdades irracionais, que têm por objeto as coisas sensíveis.

As faculdades irracionais são imagens das faculdades racionais, sendo seu caráter comum não poderem contemplar o ser mesmo.

A sensação é uma certa ignorância, pois ignora completamente a causa do que conhece.

Toda impressão passiva que se produz no animal não dá uma sensação de si mesma, existindo impressões obscuras e confusas que não deixam traço.

Existe uma primeira forma de sensação chamada mortal, que é divisível, envolvida na matéria e passiva.

Existe uma outra forma de sensação, superior, que tem seu assento no primeiro veículo etéreo da alma.

A opinião é o fundamento inferior da vida racional, enquanto a imaginação é o limite superior do cume da vida irracional.

A razão, que é toda a nossa essência, possui três formas ou graus: a opinião (doxa), o entendimento discursivo (ciência) e a razão pura (nous).

Acima da razão, existe na alma uma faculdade que a ultrapassa, chamada de flor de nosso ser, que é a loucura divina, a inspiração do alto.

A opinião (doxa) é o limite inferior de toda a vida racional, ligando-se à parte superior da vida irracional.

A sensação é um intermediário entre o organismo sensorial e a opinião.

A série das faculdades capazes de conhecer começa pela faculdade do pensamento não discursivo, seguida pela razão refletida, pela opinião e, por fim, pela sensação.

A vida da alma dotada de razão não se restringe ao exercício das faculdades de conhecer, existindo também o desejo e a vontade livre.

O desejo sensível é uma vida quase corpórea, sendo a potência que reconstrói e repara constantemente o tecido do corpo.

A cólera é a terceira forma da vida afetiva, sendo uma vida que cria no corpo o que o faz sofrer e o perturba.

Assim que o corpo é criado, ele participa da sensação, pois não teria vida nem desejo se não fosse capaz de sensação.

No pneuma da alma existe uma potência que é o limite superior e a forma perfeita da vida do desejo.

As duas últimas partes da alma (desejo e cólera) têm a superioridade sobre a sensação de que às vezes escutam a razão, que a sensação nunca escuta.

O mal não é a doença, a pobreza ou algo semelhante, mas sim a malícia da alma, a intemperança de seus desejos e a covardia de seu coração.

A alma humana é livre, sendo a liberdade um dos caracteres distintivos de sua essência, ou seja, o poder de escolher.

O livre-arbítrio é a potência racional apetitiva dos bens reais e dos bens aparentes, conduzindo a alma aos dois contrários.

Somos senhores apenas de nós mesmos, dos movimentos e direções de nossas resoluções interiores e de nossos apetites.

A alma move a si mesma, e esse movimento voluntário e espontâneo é sua própria essência.

Apesar da presciência divina, que conhece eternamente todos os nossos atos, o homem é livre e a filosofia existe.

A virtude é a assimilação da alma ao belo e ao bem primeiros, isto é, a Deus ou ao uno supremo.

A filosofia ensina o respeito a si mesmo, o conhecimento de si mesmo, a concordância entre ações e palavras e a justiça.

Nas relações com seus semelhantes, a filosofia ensina a ser uma espécie de providência para eles, amando-os e socorrendo-os.

A preça possui uma potência e uma perfeição que vão muito além do pedido e da esperança.

A prece perfeita consiste em conhecer as ordens da hierarquia divina, preparar a alma para se assimilar à divindade, ter o contato que liga o elemento superior da alma à essência divina e aproximar-se de Deus.

A quinta condição da prece é a unificação, que edifica o uno da alma ao uno dos deuses, fazendo com que não pertençamos mais a nós mesmos, mas aos deuses.

As causas da preça são as potências criadoras dos deuses, os bens puros das almas como causas finais, as causas supremas dos seres como exemplares, a potência da alma de se assimilar aos deuses e os símbolos como causas materiais.

Apesar da diversidade das espécies de prece e da diferença dos deuses, a piedade é uma e nos liga a todos os deuses.

Proclus emprega o método dialético, que consiste em pesquisar as consequências positivas, negativas ou duvidosas das hipóteses de que a alma existe tal como foi exposta ou de que não existe.

Se a alma existe, resulta para ela em relação a si mesma que ela se move a si mesma, vive por si mesma e é uma substância em si.

Se a alma existe, em sua relação com os corpos, conclui-se que ela é o princípio gerador da vida, a força que os move e dirige seu movimento.

Se a alma existe, isso tem consequências para os corpos em suas relações consigo mesmos, sendo a primeira consequência positiva que eles são simpáticos a si mesmos.

Se a alma existe, resulta para os corpos em suas relações com a alma que eles são movidos interiormente por ela e que sua faculdade de engendrar a vida se deve a ela.

Se a alma não existe, resulta para ela em relação a si mesma que ela é sem vida, sem essência e sem razão.

Se a alma não existe, a consequência para ela em sua relação com os corpos é que ela é impotente para gerá-los, misturar-se a eles e prover seu bem-estar.

Se a alma não existe, as consequências para os corpos em suas relações consigo mesmos são a imobilidade, a indiferença à vida e a ausência de simpatia uns pelos outros.

Se a alma não existe, a consequência para as outras coisas em relação a ela é que elas não são conservadas nem movidas por ela.

Desses argumentos das duas hipóteses contrárias resulta a prova de que a alma é a causa da vida, do movimento e da simpatia que a experiência e a consciência atestam existir nos corpos.

A providência é Deus considerado como criador do mundo e autor de sua perfeição, manifestando-se por sua bondade, vontade e providência.

A alma, na medida em que está unida a um corpo material, está submetida às leis constantes e imutáveis da natureza física chamada destino.

Negar a providência é uma coisa grave, pois equivale a dizer que seres dotados de razão não conhecem Deus ou que Ele não nos conhece.

O mal não pode ser obra de Deus, que é o bem em si, nem obra de uma causa universal outra que Deus, pois haveria dois princípios.

A injustiça aparente na distribuição dos bens e dos males é uma ilusão e um erro de julgamento.

Se se concede que o homem é uma alma usando um corpo e que certos males atingem o homem de bem, pode-se sustentar que isso é um bem.

Proclus, embora se apresente como um expositor do pensamento de Platão e um seguidor de Plotino, introduz modificações significativas em sua doutrina.

Proclus admite, acima da razão, um segundo princípio de conhecimento, a fé, uma intuição imediata e visão direta de Deus.

A obra de Proclus, embora não original, contribuiu para a manutenção do movimento filosófico e exerceu influência sobre a origem e o desenvolvimento da filosofia escolástica.

Cada diálogo de Platão deve ser considerado como um ser vivo individual, um todo, e ao mesmo tempo como um membro de um todo mais vasto formado pelo conjunto de todos os diálogos.

O espírito escolástico, presente nos neoplatônicos e nos doutores da igreja, caracteriza-se por postular a priori um princípio de autoridade (Platão ou as Escrituras).