Plotino e seu tempo

The Philosophy of Plotinus

Plotino é apresentado como o único grande gênio em uma época singularmente estéril, o século III, que foi um período sombrio e monótono, evitado por historiadores devido à pobreza de material e falta de interesse.

Tanto a literatura pagã quanto a cristã da época são pessimistas, lamentando a decadência progressiva do mundo, que para Juliano, no século IV, parecia estar “em seu último suspiro”.

O autor argumenta que é injusto culpar o Cristianismo e o Neoplatonismo por encorajar esse pessimismo, pois a verdade é que a misteriosa desolação da época atacou a nova religião e a infectou.

Para compreender a filosofia de Plotino, é necessário considerar as condições sob as quais as Enéadas foram escritas e pesar sua aparente negligência dos problemas sociais, lembrando que evitar referências a problemas contemporâneos era uma convenção literária da época.

As características marcantes do período são elencadas: fusão de cultos religiosos, invasões do orientalismo, crescimento da superstição, deferência reverencial à antiguidade, modificação da ética pagã e individualismo intenso da vida contemplativa, tudo explicado pelo desenraizamento das nacionalidades.

O governo imperial é descrito como caótico, com uma sucessão de imperadores assassinados, anarquia e guerras civis, período durante o qual Plotino chegou a Roma (em 244).

As grandes raças da antiguidade (helênica e itálica) não eram mais vigorosas, sofrendo de exaustão racial devido a guerras, massacres e queda nas taxas de natalidade, sendo substituídas por populações de origem alienígena (semitas e alemães).

A decadência da cultura no século III é considerada ainda mais deplorável, com a literatura, arte e ciência morrendo junto com os gregos, e o latim clássico terminando com Aulo Gélio, enquanto a poesia latina tem seu canto do cisne na “Pervigilium Veneris”.

A lista de escritores gregos é mais longa e respeitável, com um revival helênico no século II, mas que tinha todos os traços de um revival: artificialidade, imitação e curta duração.

O revival do sentimento religioso é descrito como uma maré rapidamente crescente, com causas obscuras, entre as quais a consciência de doença espiritual e alienação de Deus.

O sincretismo religioso do império tardio diferenciava-se do politeísmo antigo, pois deuses como Sarapis, a Grande Mãe e Mitra reivindicavam ser a divindade suprema, mas, ao contrário do que seria esperado, não houve perseguições violentas.

A condição religiosa de uma grande cidade no século III é comparada a um sonho de confusão de todas as raças do mundo, com mulás árabes, estudiosos chineses, bonzos japoneses, lamas tibetanos e pânditas hindus pregando suas doutrinas.

Plutarco é apresentado como o principal porta-voz da teoria de que todas as religiões são fundamentalmente uma só, sob diferentes nomes e práticas, onde “os deuses” são representações simbólicas dos atributos de uma Divindade incognoscível.

Entre todas as superstições, a astrologia era a mais importante, chamada de “rainha das ciências”, quase universalmente acreditada, favorecendo o fatalismo e paralisando a energia.

As crenças sobre a vida futura eram vagas e contraditórias, com três tipos de escatologia formulada (lugar, tempo e substância), sendo impossível determinar a proporção da população que realmente acreditava na imortalidade.

A crença na imortalidade era menos geral no século I do que se tornou duzentos anos depois, e a fé filosófica e religiosa nela subsistia independentemente da superstição espiritualista.

As principais doutrinas do Orfismo, ensinadas pelos neopitagóricos e neoplatônicos, eram a provação da alma, a necessidade de purificação e iniciação sacramental, e o renascimento das almas em formas superiores ou inferiores (karma).

As religiões orientais (Ísis, Sarapis, Mitra) assemelhavam-se ao Cristianismo ao incorporar mistérios simbólicos de um Deus morrendo e ressuscitando, cuja vitória sobre a morte continha uma promessa de libertação humana.

A vida de Apolônio de Tiana, por Filóstrato, é um documento importante para a história da religião, onde o herói é quase divinizado, apresentando ideais pagãos de santidade, com ênfase na “ciência” da oração e do sacrifício.

O judaísmo no século III, após as represálias à revolta de Adriano, recuou para o exclusivismo, enquanto o cristianismo se desenvolvia rapidamente como uma religião europeia sincrética, oferecendo tudo o que os rivais ofereciam e mais.

O silêncio de Plotino sobre o cristianismo é deliberado, pois ele certamente o conhecia (em Alexandria e Roma), mas ataca longamente os gnósticos hereges como maus filósofos, enquanto a religião, apartada da filosofia, não está no escopo das Enéadas.

A verdadeira disputa entre o neoplatonismo e o cristianismo no século III residia em suas diferentes atitudes em relação à antiga cultura, com os cristãos herdando o horror judaico à idolatria e à arte sacra a ela associada.

Porfírio fez um protesto digno contra a acusação de que os pagãos adoravam madeira e pedra, explicando que imagens e templos foram feitos para servir como lembretes, levando os homens a pensar em Deus.

A reforma ética sob o império foi notável, com a aceitação geral da convicção de que o homem é pecador e precisa de disciplina e reforma moral, e o crescimento do ascetismo, especialmente na forma do Cinismo revivido.

A influência moral do cristianismo entre os adeptos de outras religiões foi provavelmente considerável, tornando o intercâmbio social mais simpático, mais alegre e mais democrático, ao contrário da civilização pagã que negligenciava mulheres, escravos e trabalhadores manuais.

Em conclusão, o autor afirma que, do ponto de vista da arte, literatura e ciência, a decadência no século III é inquestionável, mas não do ponto de vista da religião ou da psicologia, onde houve progresso, com o estabelecimento das bases do pensamento religioso e o surgimento de uma filosofia de influência duradoura.