VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979
A iniciação platônica: um Platão esotérico e cristão
1. A redescoberta de Platão seguiu uma trajetória mais secreta do que a de Mendelssohn, podendo ser chamada de tradição do Platão esotérico, no sentido preciso de interior e espiritual, reunindo autores tão diversos quanto Hamann, Hemsterhuis, Plessing, Kleuker e Stolberg, todos em busca de um ultrapassamento da razão raciocinante.
Hamann
2. Hamann está na origem da interpretação espiritual dos diálogos assim como do irracionalismo religioso dos românticos e idealistas, tendo suas obras platonizantes, embora anteriores a 1770, contribuído decisivamente para o renascimento de Platão apesar de sua originalidade indômita e dificilmente classificável.
3. A figura de Sócrates fascinou Hamann, que nele viu uma espécie de precursor de sua própria vida e filosofia errantes, recusando-se a fazer dele um precursor de Cristo ou um herói moral e propondo antes uma biografia empática e congenial que o tomasse por si mesmo.
4. Hamann retém sobretudo as máximas conhece-te a ti mesmo e só sei que nada sei, entendendo a nesciência como escuta da voz de Deus em cada homem e como grau supremo da consciência de si, ligada diretamente ao conhece-te a ti mesmo pela via de uma experiência afetiva que ultrapassa o intelecto num salto para a fé.
5. Esse socratismo hamanniano não é isento de platonismo, pois Hamann era erudito de primeira ordem, ainda que a identificação entre ele mesmo e Sócrates limite sua interpretação ao alcance de uma mensagem pessoal.
Hemsterhuis
6. Ninguém pode contestar a Hemsterhuis o título de platônico, tendo recebido os mais elogiosos testemunhos de admiradores como Herder, Jacobi, Goethe e Novalis, e formado, a partir do acesso direto aos diálogos e da escola de s Gravesande, uma síntese entre a física newtoniana e o platonismo de Cambridge de Henry More e Cudworth.
7. Em seu diálogo Sofilo, Hemsterhuis proclama que só existem duas filosofias no mundo cujas verdades se sustentam sem se degradar, a socrática e a newtoniana, rendendo a Sócrates a homenagem de uma filosofia fundada na experiência verdadeira e no dado imediato da consciência, e não numa trama conceitual importada.
8. Sócrates é para Hemsterhuis o filósofo por excelência justamente porque a filosofia em sentido técnico é por ele rejeitada, representando o filósofo anterior à perversão aristotélica que fez do saber uma técnica, e mostrando no entusiasmo a fonte fecunda da verdadeira poesia.
9. O projeto de Hemsterhuis de reencontrar Platão em estado puro não se cumpriu inteiramente, pois sua concepção de ideia é de origem malebranchista, e não platônica, ainda que sua noção de órgão moral da alma, extraída da República e do Alcibíades, aproxime-se autenticamente do platonismo ao designar a parte divina da alma que percebe a existência necessária da divindade sem intervenção da inteligência.
Jacobi
10. Embora amigo de Hemsterhuis e Stolberg e frequentemente citado por Hegel, Jacobi refere-se a Platão com admiração constante em suas obras, mas essas inúmeras referências não constituem uma verdadeira interpretação, configurando antes fulgurações ocasionais tomadas de máximas isoladas dos diálogos.
11. A admiração de Jacobi por Platão, chamado de gigante entre os pensadores, não o leva a assimilar Platão à sua própria reflexão, feita de afirmações existenciais descontínuas, de modo que a figura platônica que emerge de sua obra é a de um campeão da liberdade humana modelado à sua própria imagem.
Johann Friedrich Kleuker
12. Kleuker, amigo do círculo de Münster e discípulo de Herder e Hamann, distingue-se dos demais platônicos de sua época por dedicar-se verdadeiramente ao esoterismo da Cabala, ao Oriente do Avesta e à filosofia de Saint-Martin, embora tenha também traduzido a totalidade dos diálogos platônicos.
13. Respondendo à indagação lançada por Wieland no Deutsches Merkur sobre os malefícios do combate racionalista ao entusiasmo, Kleuker defendeu em 1777 a superioridade do platonismo como tradição viva de transmissão da verdade, retomando nisso o próprio ensinamento de Proclo.
14. O segundo tema caro a Kleuker é o vínculo entre Platão e Zoroastro, explorado a partir da tradução do Avesta por Anquetil-Duperron, identificando no Alcibíades a noção platônica de serviço aos deuses como convergência plausível entre as duas tradições, já sustentada desde Pletão e retomada depois por Festugière.
15. No mesmo espírito de retorno à origem, Kleuker aproximou Platão de Saint-Martin quanto à trindade platônica, à criação como emanação e à natureza humana decaída que deve reencontrar penosamente a ciência esquecida, embora tais temas de tríade e emanação pertençam antes propriamente a Plotino e Proclo.
16. Kleuker não perseverou indefinidamente na via platônica, voltando-se depois para o estudo dos profetas bíblicos e da teologia simbólica, obra que seria eclipsada pelo sucesso dos Discursos sobre a religião de Schleiermacher, mas que contribuiu ao sublinhar o vínculo de Platão com os mistérios e o esoterismo.
Stolberg
17. Friedrich Leopold, conde de Stolberg, membro mais ativo do círculo de Münster do que Hemsterhuis, Jacobi e Kleuker, traduziu Platão para mostrar que o Deus cristão era também o Deus dos pagãos, apresentando-o como o tipo mesmo do pensador pré-cristão, devedor de um Sócrates mais nobre e mais simples do que ele.
18. Para Stolberg, o Iluminismo é uma atitude eterna já presente entre os adversários de Sócrates em Atenas, de modo que o socratismo é igualmente eterno, e é o platonismo espiritual e moral, prefiguração da moral cristã tal como Santo Agostinho a formulou, que sobretudo lhe interessa, em detrimento dos diálogos metafísicos que Hegel considerará o verdadeiro Platão.
19. Para Stolberg a fé cristã, embora histórica por repousar em testemunhos e numa Igreja determinada, só faz sentido iluminada interiormente por uma mística, da qual Platão ofereceu a mais bela impressão natural, ainda que vazia diante da mística cristã fundada sobre a base histórica da Revelação.
Schlosser
20. Schlosser, genro de Goethe e amigo de Stolberg, não partilhava da inspiração mística deste último, sendo sobretudo conhecido pela crítica que Kant lhe dirige, e seu senso platônico revela-se pouco agudo em sua tradução anacrônica e politicamente orientada das Cartas de Platão.
21. Dois escritos de espírito platônico merecem maior atenção, o Banquete de Schlosser, dedicado aos problemas estéticos da beleza plástica e moral, e a Continuação do diálogo platônico do Amor, que critica o amor místico uraniano ao afirmar que o amor verdadeiro é gozo passivo e harmonia global, e não o desejo insatisfeito atribuído por Sócrates.
22. Os estudos platônicos de Schlosser constituem, em suma, ensaios amáveis e discussões de salão atraentes mas superficiais, que não justificam maior detença.
Conclusão
23. O renascimento de Platão ao final do século XVIII apresenta-se como reviviscência de correntes interpretativas já conhecidas antes do eclipse dos diálogos no século XVII e na época das Luzes, exemplificadas pela permanência da interpretação hermetista em Kleuker e pela cristianização agostiniana em Stolberg, ambas insatisfatórias por sua limitação própria, pois o respeito ao mistério e o élan espiritual são componentes inexpugnáveis do platonismo eterno.
24. As duas interpretações maiores da época são a de Tennemann e a de Hemsterhuis: a primeira, esforço meritório e legítimo de sistematizar Platão apesar do risco de tratá-lo como pensador sistemático que não era, contrapõe-se ao desprezo de Brucker pela coerência platônica; a segunda, tecnicamente inferior em amplitude erudita, exerceu contudo influência muito maior sobre o idealismo alemão por unir a preocupação platônica com o Absoluto à recusa da mera divagação racional, sem fazer de Platão nem profeta nem matemático puro, herança da qual se beneficiaram Novalis, Schleiermacher, Schlegel, Schelling e Hegel.