No mundo latino medieval, o conhecimento do grego era raro e o acesso aos diálogos de Platão limitava-se, em grande parte, ao Timeu na versão de Calcídio.
Nicolau de Cusa conhecia mal os diálogos originais, citando-os raramente e de forma aproximada, como ocorre com o Mênon no De venatione sapientiae.
Ele dependia fortemente de versões latinas, como as de Moerbecke para as obras de Proclo e as de Traversari para o Pseudo-Dionísio.
Proclo e o Pseudo-Dionísio foram suas fontes essenciais para o conjunto de doutrinas que ele atribuía aos platonici.
O conhecimento de Aristóteles tornou-se mais direto após 1450, ao utilizar a versão de Bessarion, embora suas citações permanecessem imprecisas ou conciliadoras.
Cosmologia, Física e Rompimento com a Escolástica
Nicolau rompeu com princípios da física aristotélica, como a divisão radical entre a mecânica celeste e a sublunar e a imobilidade da Terra.
Propôs uma visão da machina mundi onde o centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum.
Em sua cosmologia, utilizou a figura P (figura paradigmatica) para representar a influência cruzada da luz (Unidade/Deus) e da sombra (Alteridade/Nada) sobre as criaturas.
Recorreu ao atomismo de Epicuro para criticar a ideia de que os astros teriam uma função reitora absoluta sobre o mundo terrestre.
Suas análises geométricas ajudaram a sugerir a “coincidência dos opostos”, identificando a identidade entre o máximo e o mínimo no infinito.
A Conciliação entre as Escolas e o Espírito Universal
Nicolau buscou conciliar as oposições entre Platão e Aristóteles, vendo em cada filosofia uma aproximação positiva da verdade única.
No diálogo De mente, sugeriu que a “alma do mundo” de Platão e a “natureza” de Aristóteles referem-se ao mesmo spiritus universorum divino.
Criticou ambas as escolas por ignorarem que, na onipotência divina, o querer coincide com a execução, sem necessidade de intermediários.
Embora elogiasse Aristóteles como agudo, acusou a “seita aristotélica” de se prender excessivamente ao princípio da não-contradição, dificultando o acesso à teologia mística.
Ontologia e os Limites do Conhecimento
Nicolau utilizou a teoria dos signos para mostrar que o infinito escapa a qualquer captura por conceitos sensíveis.
Viu em Aristóteles o mérito de descrever a quiddidade (essência) das coisas como algo “sempre buscado, nunca encontrado”.
No De non aliud, reinterpretou o Primeiro Motor de Aristóteles como possuindo uma virtus infinita participada por todo o universo.
Para Nicolau, a sabedoria é a pastagem do intelecto, e os signos humanos permanecem inerentemente conjecturais e inaptos para dizer o indizível.
Atividade Política e o Conceito de Concordância
No De concordantia catholica, Nicolau apresentou uma visão federativa do Império e da Igreja, sem privilégios absolutos para Roma.
Sua teoria do pacto social e do consenso aproximava-o da ideia de que a autoridade deve ser exercida segundo o acordo dos fiéis.
Enfatizou a harmonia entre as partes e o todo através da imanência global do “espírito” no corpo social.
Atuou como mediador e legado pontifício, buscando a união entre as igrejas do Ocidente e do Oriente.