Divisão da Realidade

HLADKÝ, Vojtěch. The philosophy of Gemistos Plethon: Platonism in late Byzantium, between Hellenism and orthodoxy. Farnham: Ashgate, 2014.

No sistema metafísico de Plethon, a realidade divide-se em três graus ordenados em escala hierárquica — conclusão que ele desenvolve a partir de sua leitura filosófica do “mito dos Magos” encontrado no Ísis e Osíris de Plutarco, onde identifica a mesma estrutura tripartite nos Oráculos Zoroastrianos, nos Oráculos Mágicos e em Platão, concluindo que os três textos representam expressões diferentes de uma única e onipresente philosophia perennis.

A estrutura da realidade nos diferentes textos-fonte de Plethon pode ser sintetizada comparativamente em uma tabela (Tabela 1): a coluna I corresponde à Segunda Carta de Platão, a II aos Magos de Zoroastro, a III aos Oráculos [Caldaicos] e a IV ao mito zoroastriano em Plutarco, sendo o equivalente nas Leis de Plethon a coluna V — onde o primeiro nível é Zeus, o segundo os deuses de segunda ordem (supracelestiais) e o terceiro os deuses de terceira ordem (dentro do cosmos); o primeiro nível cria as Formas eternas (2), o segundo as entidades dentro do cosmos sensível que são no tempo mas eternas (3), e o terceiro os seres e coisas temporais e mortais.

No capítulo 5 do livro I das Leis, os graus análogos de divindade (theiotés) são distinguidos: o lugar supremo pertence a Zeus, primeiro e último princípio de tudo o mais, sem causa superior; seguem os deuses de segunda e terceira ordem — “os filhos e criações e os filhos dos filhos e as criações das criações de Zeus” —, por meio dos quais o Deus supremo ordena e governa (katakosmei) tudo, “e especialmente os assuntos humanos”.

No capítulo 15 do livro III das Leis, acrescentam-se características adicionais ao mundo tripartite criado pelo primeiro princípio: a parte mais elevada da realidade, o reino das Formas, é inteiramente eterna (aionion) e imóvel (akineton), sem passado nem futuro — tudo está sempre presente simultaneamente (to sympan enestekos aei); a segunda parte, o reino dos deuses dentro do cosmos, existe já no tempo (enkhronon) e no movimento, mas é eterna (aïdion), sem começo nem fim no tempo; a terceira e mais baixa parte existe no tempo (enkhronon) e é mortal (thnetons), porque o começo e o fim da vida são ali determinados pelo tempo.

O texto do capítulo 5 do livro I das Leis oferece ainda outra perspectiva sobre a divisão da realidade, com paralelos estreitos em duas passagens das seções IV e X do tratado Sobre as Diferenças: no primeiro princípio — Zeus nas Leis, ou “o Uno super-essencial (hyperousios)” dos platônicos nas Diferenças —, “supremamente uno (akros hen)”, não é possível distinguir essência (ousia), atividade ou atualidade (praxis/energeia) e potencialidade (dynamis); nos intelectos (noes) ou Formas (eide), a essência já se distingue da atividade-atualidade, mas é permanentemente ativa e sem distinção entre potencialidade e atualidade; na alma (psyche), essência, atividade-atualidade e potencialidade se distinguem porque a alma nem sempre está ativa; no corpo (soma), a essência se divide ainda em forma (eidos) e matéria (hyle) — não apenas movível, mas dissolúvel e divisível ao infinito.

Na seção X das Diferenças, acrescentam-se reflexões sobre unidade, multiplicidade e infinitude: porque o Deus super-essencial (ho hyperousios theos) é supremamente uno, não há multiplicidade em seu interior; a multiplicidade aparece apenas no nível da ordem inteligível, sendo finita e de modo algum infinita; no mundo sensível, a infinitude aparece pela presença da matéria, “à qual o infinito é primariamente atribuído” — embora a matéria tenha sua causa nas Formas, “a causa lá, sendo uma das entidades ideais, não é ela mesma infinita”: “De diff. X 337.7—13.”

Cada Forma tem sua essência a partir do próprio Zeus, “o indivisível a partir do indivisível”, e em si mesma, de modo antecipado, toda a pluralidade de que cada Forma é causa nas coisas inferiores a ela — e as Formas ordenam entre si os atributos umas das outras, pois “o rei e Pai estabeleceu uma comunidade mútua dos bens de seus filhos entre si, sendo isso o maior bem que fez para eles, após a comunidade com ele mesmo”: “Leg. 46—8 [I,5].”

No mundo sensível, aparece uma distinção adicional entre potencialidade e atividade-atualidade, com o conceito aristotélico de potencialidade (dynamis) sendo duplo: potencialidade ativa de agir (caso da alma) ou potencialidade passiva de ser atuado (caso da matéria) — e na seção IV das Diferenças, Plethon distingue ainda vários tipos diferentes de almas: “Na alma, distinguem-se essência (ousia), potencialidade (dynamis) e atividade-atualidade (energeia), porque a alma passa de um pensamento a outro, e a alma humana do pensar ao não-pensar e do não-pensar ao pensar, de modo que não possui sempre o conhecimento das coisas, nem o possui inteiramente em atualidade (energeia) mas antes potencialmente (dynamei)”: “De diff. IV 326.37—327.4.”