BP
BCG57
Neste breve e complexo tratado do primeiro período (Vida 4, 55), Plotino se propõe a delimitar com a máxima precisão o conceito de qualidade[1]. Ao escrevê-lo, provavelmente tinha em mente uma suposta incongruência apontada por Aristóteles contra a teoria platônica das Formas, devido à dificuldade de conciliar três teses[2]: 1) a lógica interna da teoria exige que, por um lado, existam Formas de coisas que não são substâncias, 2) mas que, por outro, todas as Formas sejam substâncias, 3) e isso, apesar de que as Formas e seus respectivos participantes deveriam possuir em comum uma mesma forma. Plotino parece aludir a esse problema na seção introdutória (1, 1-15). Mas o tratado parece dirigir-se principalmente contra o que ele considerava um uso abusivo do termo «qualidade» por parte dos peripatéticos e estoicos. Aristóteles havia distinguido dois tipos de qualidade[3]: as primárias, que são as diferenças específicas da substância, e as secundárias, que são meras afecções mutáveis da substância. Os estoicos, por sua vez, incluíam em sua segunda categoria duas classes de qualidades[4]: as comuns, meros conceitos universais que respondem a nomes comuns, e as individualizantes, propriedades somáticas pelas quais as substâncias individuais se distinguem inconfundivelmente umas das outras. Plotino adota dois critérios, um negativo e outro positivo, para definir de forma clara e restritiva seu conceito de qualidade. Critério negativo: não são qualidades aquelas características que são atos da substância ou razões formais constitutivas das substâncias individuais; segundo esse critério, não são qualidades nem as Formas inteligíveis das qualidades sensíveis, nem as diferenças específicas das substâncias, nem as propriedades individualizantes das mesmas, uma vez que mesmo estas são atos derivados de uma Forma individual correspondente[5]. Critério positivo: são qualidades, propriamente ditas, aqueles aditamentos acessórios que se acrescentam à substância individual plenamente constituída e que, com sua presença ou ausência, não lhe acrescentam nem lhe retiram nada de sua substancialidade e individualidade.
APE
Este tratado (n.º 17 na ordem cronológica de Porfírio) é uma crítica altamente técnica e, por vezes, extremamente obscura à doutrina da qualidade de Aristóteles: apresenta uma visão que, em todos os aspectos essenciais, é idêntica àquela que Plotino expõe muito mais tarde em seu grande tratado Sobre as Categorias (VI. 1-3. 42-44 na ordem cronológica). Essa visão é a de que a categoria da qualidade não pode ser usada ao se falar do mundo inteligível, onde tudo é substância; e mesmo no mundo sensível seu uso é severamente restrito; a qualidade essencial ou diferença não é, na verdade, uma qualidade, mas uma atividade do princípio formativo, e mesmo as qualidades acidentais, embora ainda possam ser chamadas de qualidades, são traços ou sombras das atividades das substâncias no mundo inteligível.
LPE
Este tratado inicial contém a primeira tentativa de Plotino de confrontar a exposição de Aristóteles sobre as categorias — e, em particular, sua distinção entre substância e qualidade, bem como entre qualidades essenciais (differentiae) e qualidades não essenciais — com os gêneros supremos de Platão no *Sofista*. O tratado é muito conciso e, por vezes, difícil de acompanhar, e parece que nem mesmo o próprio Plotino ficou totalmente satisfeito com ele, já que retoma o tema na Enéada 6.1–3, onde recebe um tratamento muito mais aprofundado. No entanto, alguns dos pontos que Plotino vem desenvolvendo aqui são encontrados novamente no tratamento posterior, por exemplo, que os gêneros supremos platônicos pertencem ao mundo inteligível e que as qualidades são atividades de princípios expressos (λόγοι).