ZEUS E AFRODITE

PH50

Seja como for, Plotino (8, 6-11) recorrerá a outros textos de Platão relativos a Zeus, para determinar a qual entidade filosófica deve corresponder a figura de Zeus.

No Fedro (246 e 4) Platão chamou Zeus de «Grande Soberano» (das regiões celestiais, que avança o primeiro conduzindo sua carruagem alada); nas Cartas (II, 312 e 3), ele o designa como o «terceiro»; no Filebo (30 d 1-2), ele diz que «há em Zeus uma alma real e um Espírito real ».

O raciocínio de Plotino (8, 11-14) parece, portanto, ser o seguinte:

1° O Filebo fala de Zeus tanto como de um Espírito quanto como de uma alma. O que devemos concluir disso? Ele é alma ou é Espírito? O texto completo do Filébo é, aliás, o seguinte: «Há, na natureza de Zeus, uma alma real e um Espírito real, que nela existem em virtude da natureza (dynamin) própria da causa.» Parece, de fato, que Plotino compreende esse texto de acordo com um dos sentidos que Proclo lhe atribuirá, em In Theol. Plat., V, 23, p. 86, 18 Saffrey-Westerink: o Espírito e a alma estão em Zeus sob o modo da causa (kat’aitian). Plotino conclui deste texto do Filebo que, segundo Platão, Zeus é classificado entre as causas. 2° A isso se somam os outros qualificativos que Platão aplica a Zeus. Ele é “causa” segundo o Filébo, como acabamos de ver; é “real” também segundo o Filébo; e, finalmente, é “soberano” segundo o Fedro. Ora, essas denominações denotam excelência. É preciso, portanto, colocá-lo na categoria superior (8, 12). Ora, o Espírito representa a categoria superior em relação à alma. É preciso, portanto, identificar Zeus com o Espírito. Talvez tenha-se notado que um dos textos platônicos nos quais a argumentação deveria se basear, a Carta II de Platão, que atribuiria a Zeus o epíteto de “terceiro” (8, 8), parece ter sido esquecido nessa argumentação. Voltaremos a esse ponto.

Será, portanto, Afrodite que deverá ser identificada com a alma (8, 15), pois ela pertence ao Espírito, provém do Espírito e está com ele (8, 14-15). Aqui, mythos e logos se unem: a alma é, como Afrodite, esposa de Zeus (cf. 8, 17-22), filha de Zeus (cf. 2, 16) e companheira de Zeus. Esposa, porque, como veremos, toda alma está ligada a um Espírito (8, 19-20); filha, porque a alma é gerada pelo Espírito; companheira, porque a alma se volta para o Espírito para contemplá-lo. E se a alma é chamada Afrodite, é porque ela é bela (8, 16; cf. 31 (V, 8), 13, 15-16). O esplendor (8, 16), de que fala aqui Plotino, anuncia o esplendor das razões que fluem do Espírito para a alma. Quanto à inocência da alma (8, 16), ela corresponde à natureza original da alma, voltada para o bem. A graça (habron, jogo de palavras etimológico sobre Afrodite) é o resumo dessas qualidades.

Exatamente, precisa Plotino (8, 17-20), Afrodite é a alma de Zeus. Antes de tentar esclarecer o alcance dessa afirmação, precisamos, em primeiro lugar, precisar o significado dos dois argumentos, filosófico e exegético, que Plotino apresenta para sustentá-la. Em primeiro lugar, o princípio filosófico: toda alma está ligada a um Espírito (8, 19-20). Como diz Plotino em outro lugar (27 (IV, 3), 5, 9): «As almas estão ligadas a cada Espírito, imediatamente a ele: são as expressões (logoi) desses Espíritos, mais desenvolvidas (exeiligmenai) do que estes.» Independentemente da questão da existência de Formas dos indivíduos, levantada por essa passagem paralela, problema complexo que não nos cabe abordar aqui, encontramos, neste texto do tratado 27, a afirmação da existência de uma ligação privilegiada que une tal alma particular a tal Espírito particular. A razão dessa ligação nos é dada: cada alma é a expressão, o logos de um Espírito particular; ela permite, portanto, a explicitação de tal Forma particular no plano racional e prepara sua manifestação no espaço e no tempo. Essa estreita ligação entre os Espíritos e as Vidas (ou seja, as almas) está implícita em outros textos, por exemplo, 38 (VI, 7), 8, 29. Em certo sentido, pode-se dizer que o movimento de particularização das Formas no interior do Espírito (descrito no tratado 38 (VI, 7), 9, 1-38, cf. meu comentário p. 237-241) conduz lógica e dinamicamente a essa manifestação de tal Forma inteligível em tal alma que corresponde a essa Forma particularizada. A particularização leva à manifestação, que somente a alma é capaz de assegurar. Parece, de todo modo, que existe, em Plotino, a representação de um mundo inteligível, no qual a cada Espírito particularizado está ligada uma alma particular, um princípio de vida, que tem o mesmo conteúdo inteligível que esse Espírito, mas que se apresenta sob uma forma mais desenvolvida e pronta, de certa forma, para se manifestar no mundo sensível. É por isso que o mundo inteligível, o Espírito, é um “Animal total”, cheio de vida e que vive todas as vidas (tratado 38 (VI, 7), 8, 15 — 14, 23, cf. meu comentário p. 234-255).