Serge Margel – Túmulo do Deus Artesão

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

Introdução (resumo)

As interpretações do Timeu são incontáveis, de Aristóteles a Fílon, de Plotino a Proclo, até Leibniz e Schelling, e ainda assim o texto de Platão parece permanecer virgem, como se nada tivesse sido dito.

As figuras paradoxais do Demiurgo articulam-se em torno de um mesmo eixo: sua autoridade divina, sua força produtiva e seu poder mimético.

O Demiurgo não criou do nada os elementos primitivos de que se apossa, e o mundo repousa sobre uma força de consumação que o corrói internamente em direção a uma morte lenta e certa.

A representação do mundo pelo Demiurgo é simultaneamente perfeita e imperfeita, e o poder demiúrgico é limitado à instância pontual de sua própria operação.

O ato produtor do Demiurgo é ao mesmo tempo o ato de mais alta perfeição e o estado insuperável de uma impotência.

Ao conter o paradoxo mimético do Demiurgo, o mundo não pode mais se reduzir a uma simples cópia fiel das Ideias, tornando-se ao mesmo tempo imagem sensível (eikon) dos deuses e objeto de culto (agalma) oferecido à memória de sua imortalidade.

Três gestos determinam o estado desocupado dessa sobrevivência e recortam sucessivamente o texto do Timeu: uma produção material, uma representação e uma promessa.

A promessa constitui ao mesmo tempo um ato salutar e o desocupado mais radical do Demiurgo, gerando um novo paradoxo.

Ao formar conceitos perfeitos, o filósofo platônico confunde o poder epistêmico de sua alma com a idealidade de seu objeto, libertando-a dos laços orgânicos que a prendem ao corpo.

O mundo é dotado de um duplo modelo: o de um corpo na iminência de sua morte (princípio interno e necessário da consumação) e o da elaboração filosófica do conceito (princípio externo e contingente da idealização).