Princípios

TZAMALIKOS, Panayiotis

A doxografia posterior tratou as homeomerias de Anaxágoras como partículas materiais, seguindo Aristóteles que as interpretou como os menores fragmentos de substâncias homogêneas.

Galeno adotou a noção aristotélica — não a anaxagórica — e definiu os princípios como as primeiras e mais simples partículas sensíveis do corpo humano.

Aristóteles identificou uma suposta falha lógica na filosofia de Anaxágoras ao afirmar que corpos compostos são divisíveis em partes homeoméricas, o que tornaria impossível que as homeomerias fossem elementos.

Autores subsequentes foram induzidos ao erro por Aristóteles e trataram as homeomerias como elementos ou partículas materiais, com consequências duradouras para a história da filosofia natural.

Alexandre de Afrodísias, apesar de sua admiração por Aristóteles, compreendeu que Anaxágoras não considerava água, fogo, terra e ar como elementos, mas como compostos que constituem os corpos.

Simplício acrescentou que ossos, carne e semelhantes são homeoméreos no sentido aristotélico, mas ainda assim compostos, e que Aristóteles presumiu como composto aquilo que Anaxágoras considerava simples.

Aristóteles manteve até o fim a impressão simplista de que as homeomerias seriam substâncias cujas partes são idênticas ao todo, confundindo o conceito anaxagórico com a noção comum de substância homogênea.

Simplício merece atenção especial por ser o único autor que conheceu a obra de Anaxágoras em primeira mão, e por haver implicitamente corrigido Aristóteles ao estilizar as homeomerias como princípios.

Os princípios de Anaxágoras não são elementos e são imateriais, e essa posição se sustenta não apenas pela autoridade de Simplício, mas pela coerência interna do sistema anaxagórico com o pensamento de seus predecessores.

Siriano foi mais tolerante com o pitagorismo e argumentou que os números pitagóricos não se identificam simplesmente com os que coexistem com corpos sensíveis, aproximando-os das Ideias platônicas.

Em alguns momentos do livro, levanta-se a dúvida sobre se Aristóteles realmente mal compreendeu Anaxágoras ou se deliberadamente deturpou seu pensamento.

Porfírio percebeu a implausibilidade de identificar números com os princípios anaxagóricos e demonstrou a consistência da filosofia de Anaxágoras por meio do conceito de logoi, recorrendo a fontes árabes.

Os princípios anaxagóricos não são os números pitagóricos, distinção que talvez explique por que Anatólio de Laodiceia, mestre de Jâmblico, afirmou que os pitagóricos chamavam a Mônada de Nous e a identificavam com o Deus supremo.

O espírito de Amônio de Alexandria e de seu discípulo Simplício era demonstrar harmonia entre as principais correntes da filosofia grega, sem que isso implicasse identidade total entre elas.

Para Simplício, os pitagóricos chamavam as causas das coisas de números ou logoi inerentes às coisas, mas “logos” nesse contexto significa analogia entre números.

Além dos logoi incorpóreos existentes nas coisas perceptíveis, há também outros logoi que existem sempre e são sempre distintos entre si, dos quais derivam a variedade e as diferenças entre todas as coisas, segundo Simplício.

Essa exposição marca a mudança de espírito do século III para o século VI: Porfírio apontou a diferença entre os logoi pitagóricos e os logoi propriamente ditos que ele expôs como filosofia de Anaxágoras; Simplício, consciente dos escritos de Porfírio, preferiu enfatizar afinidades em vez de diferenças.

Anaxágoras compreendeu que os princípios que dão origem ao universo perceptível não são aparentes, mas ocultos e apreensíveis apenas intelectualmente, o que se insere na abordagem pré-socrática geral de “salvar os fenômenos”.

Diógenes Laércio chamou as homeomerias de princípios, mas o contexto revela que as entendia apenas como pequenas partículas que compõem o universo, abordagem seguida por vários outros autores.

Há apenas uma ocorrência da descrição dos princípios fundamentais como corpos ou partículas apreensíveis apenas intelectualmente e ao mesmo tempo postulados como incorpóreos, e ela vem de Sexto Empírico ao descrever os princípios pitagóricos.

É precisamente nesse ponto que Aristóteles transformou Anaxágoras em efeito um atomista, pois para ele não faz diferença se as partículas elementares se chamam átomos ou partículas menores que os constituem.

Aristóteles empenhou-se em apresentar toda a filosofia anterior a ele como absolutamente ingênua e primitiva, tendo em mente também Anaxágoras e os pitagóricos além de Empédocles.