Princípios e Elementos

TZAMALIKOS, Panayiotis

A distinção entre princípios e elementos em Anaxágoras permanece obscura na doxografia, embora seus próprios textos indiquem que as homeoimerias eram princípios.

Galeno observou que autores antigos confundiam sistematicamente os termos “princípio” e “elemento”, tratando-os como sinônimos ao discutir matéria incriada e qualidades primárias.

Um doxógrafo anônimo que escreveu sob o nome de Plutarco defendeu que Platão, ao contrário dos filósofos jônicos, reconhecia a diferença entre princípios e elementos, pois nada admitia como anterior a um princípio.

Simplício atribuiu a Platão o mérito de ter sido o primeiro a classificar os princípios elementares dos pré-socráticos e a denominá-los elementos, sugerindo que os “elementos” pré-socráticos eram, para Platão, princípios.

Os comentadores de Platão o tratavam como autoridade infalível e divinamente inspirada, ao passo que os de Aristóteles sentiam-se livres para criticar e emendar sua terminologia, inclusive quanto ao uso de “princípios” e “elementos”.

Plotino, cuja filosofia é implicitamente repleta de doutrinas peripatéticas e estoicas, ignorou o uso inconsistente de Aristóteles e concluiu seu extenso primeiro tratado da sexta Enéada referindo-se indiferenciadamente a seres ou princípios dos seres.

Sexto Empírico observou que as opiniões sobre os elementos são numerosas e quase infinitas, resumindo que os elementos, qualquer que seja a perspectiva adotada, devem ser considerados corpóreos ou incorpóreos.

Siriano, chamado de “o grande Siriano” por muitos filósofos da Antiguidade Tardia, apontou explicitamente a inconsistência de Aristóteles ao misturar “elementos” e “princípios” na Metafísica.

Alexandre de Afrodísia irritou-se com o uso inconsistente de Aristóteles ao aplicar “elemento” a Empédocles e “princípio” a Anaxágoras no mesmo contexto, corrigindo o texto ao afirmar que Empédocles considerava o Amor um Bem e um princípio.

Os comentadores de Aristóteles nunca adotaram o uso impróprio dos termos “elementos” e “princípios” ao tratar de Anaxágoras, referindo-se invariavelmente a “princípios”, assim como fizeram todos os demais autores que não escreveram como comentadores de Aristóteles.

Teofrasto, sucessor de Aristóteles, não tinha clara compreensão do significado de “princípio”, tendo chegado a afirmar que Anaxágoras pensava de modo semelhante a Anaximandro ao postular dois princípios — a natureza do infinito e a Mente.

A confusão entre os dois termos torna-se flagrante quando Aristóteles considera as visões de seus predecessores sobre a alma, ora dizendo que ela é feita dos princípios, ora que é feita dos elementos, e afirmando que as coisas são feitas dos princípios.

Simplício registrou que Aristóteles, ao falar de Platão, atribuiu-lhe dois elementos — matéria e forma —, mas em outro ponto do mesmo comentário, citando Alexandre de Afrodísia, indicou que Platão parecia ter postulado dois princípios — o substrato e Deus, identificado como Mente e Bem e causa motriz.

Aristóteles acusou Anaxágoras de não distinguir mente e alma, e de não ser preciso no trato do assunto, pois pareceu a Aristóteles que Anaxágoras identificava a alma com a mente.

Aristóteles afirmou que a “díade indeterminada”, expressa como “o grande e o pequeno”, implica causação de bem e mal, atribuindo a Platão a teoria de que o bem se associa à Causa Formal e o mal à Causa Material, e estendendo essa interpretação a Anaxágoras.

Alexandre de Afrodísia foi o único comentador a tratar dessa passagem, mas errou ao interpretar que Anaxágoras teria feito da Mente a fonte tanto do bem quanto do mal, o que contradiz a tese grega quase universal de que Deus não é o autor do mal.

Aristóteles, na Metafísica, identificou “princípios e causas” e em seguida falou de “princípios, elementos e causas” da matemática, repetindo essa tríade ao investigar as causas, princípios e elementos das substâncias e ao examinar o que os “antigos” buscavam.

Diógenes Laércio incluiu em extenso catálogo das obras de Aristóteles um tratado intitulado Sobre os Elementos, em três livros, informação corroborada pelo historiador Pseudo-Hesíquio de Mileto.

O título Sobre os Primeiros Princípios foi amplamente usado por filósofos gregos, incluindo Longino, discípulo de Orígenes, Albino — para quem esse título era designação alternativa de “teologia” —, Clemente de Alexandria e Jâmblico.

Simplício registrou que Teofrasto escreveu que “Anaxágoras foi o primeiro que modificou as teorias sobre os primeiros princípios e introduziu uma causa [criadora]”, sendo essa também a perspectiva do próprio Simplício sobre a exposição de Anaxágoras.

Adrastro de Afrodísia, peripatético do século II d.C., informou que alguns estudantes de Aristóteles deram o título Sobre os Primeiros Princípios ao tratado conhecido como Física, composto de oito livros.

O título Sobre os Primeiros Princípios fez parte da tradição peripatética, sendo adotado por Aristóxeno de Tarento, discípulo de Aristóteles, citado por Porfírio; por Estratão de Lâmpsaco, terceiro escolarca do Liceu; e por Porfírio, em dois livros.

Proclo foi o único filósofo que não aceitou a designação “sobre os princípios” para filosofia ou teologia, por considerar que “princípios” no plural não condiz com o verdadeiro objeto do discurso filosófico, que seria sobre Um único princípio — o Uno.

O escritor anônimo que publicou sob o nome de Plutarco dedicou uma seção específica à diferença entre princípio e elementos, afirmando que, para os seguidores de Platão e Aristóteles, princípio difere dos elementos, embora Tales os tenha considerado a mesma coisa.

Diógenes Laércio atribuiu aos estoicos Zenão, Cleantes, Crisipo, Arquedemo de Tarso e Posidônio a distinção entre princípios e elementos: os princípios são sem geração e incorruptíveis, enquanto os elementos perecem na conflagração universal; os princípios são incorpóreos e sem forma, enquanto os elementos possuem forma.

João Filopono estava ciente de que princípios e elementos são noções distintas, mas isso se depreende apenas de sua afirmação de que nas coisas há não apenas princípios e elementos, mas também muitos e infinitos outros fatores, diferentes dos princípios e entre si.

Aristóteles argumentou extensa e apaixonadamente contra Anaxágoras, mas pouco se preocupou em fornecer as próprias palavras de Anaxágoras, provavelmente evitando fazê-lo deliberadamente, com base em um axioma de sua filosofia: os princípios das coisas sensíveis devem ser sensíveis, os dos eternos devem ser eternos, e os dos perecíveis devem ser perecíveis — em geral, um princípio é do mesmo gênero que aquilo a que está sujeito.

Simplício comentou que Aristóteles se contradisse nesse ponto, pois, ao mesmo tempo que exigia que os princípios fossem homogêneos com suas produções, acrescentou a palavra “talvez”, reconhecendo que os princípios das coisas sensíveis não são necessariamente sensíveis.

João Filopono não viu contradição nesse ponto, acreditando que Aristóteles tinha em mente a matéria própria, pois em outro lugar Aristóteles disse que os princípios da geração são iguais em número e idênticos em espécie aos das coisas eternas.

Aristóteles sabia o que seus predecessores sustentavam — Demócrito com os átomos, outros com terra, água e ar, Empédocles com seus princípios abstratos —, mas Anaxágoras era o verdadeiro escândalo: cada material do mundo supostamente teria uma partícula infinitamente pequena, e Aristóteles não conseguia decidir se deveria chamar cada uma delas de “princípio” ou “elemento”.

Assumiu-se que os princípios de Anaxágoras eram infinitos tanto em forma quanto em número, o que provocou a crítica de Aristóteles, que os presumiu como elementos materiais.

Simplício foi a exceção: não aceitou tais afirmações e, em certos pontos, seus comentários constituem respostas brilhantes às alegações de Aristóteles, elogiando Eudemo de Rodes por ter dito que “é necessário para quem estuda a natureza examinar os princípios primeiro”.

Aristóteles ora chamou a Mente de Anaxágoras de princípio, ora chamou as “homeoimerias” de princípios, e usou o termo em sentido geral mencionando Anaxágoras junto com todos os outros pré-socráticos, mas em outros pontos usou o termo elementos para as homeoimerias, numa acepção que era na verdade sua própria — a causa incorpórea é princípio, e o substrato material é elemento.

Aristóteles postulou um critério para determinar a natureza de um princípio fundamental: para Demócrito, um princípio é algo que “ou é ou ocorre sempre”, constituindo a explicação última do que acontece na natureza; Aristóteles argumentou que pensar assim não está correto em todos os casos e que Demócrito não buscou princípio mais profundo por trás do que sempre foi assim.

O ponto que Aristóteles estabeleceu na Física recebeu pouca atenção dos comentadores, talvez porque o próprio Aristóteles não se preocupou com a consistência ao usar o termo princípio para discutir as várias teorias de seus predecessores.

Uma vez que o próprio Aristóteles não foi consistente com sua própria definição ao usar a terminologia pertinente, não surpreende que filósofos posteriores tenham usado o termo de modo frouxo e às vezes contraditório.

O termo princípios era aplicado a qualquer filosofia, independentemente de cumprir ou não a definição aristotélica de “princípio”, enquanto o termo “elementos” tinha conotações variadas conforme o contexto.