Enigma

Ramnoux

A crítica de Heráclito a Hesíodo abre uma enigma filosófica que não se resolve pela simples oposição entre mito e razão, pois ela nomeia entidades pertencentes ao mesmo tempo ao vocabulário arcaico da cosmogonia e ao vocabulário novo de um discurso sobre a natureza, colocando-as numa estrutura de frase em que um enunciado serve de atributo comum a dois contrários.

A tentação de ler a boutade de Heráclito como expressão de um pensador sóbrio em guerra com sua tradição lendária ignora uma fase intermediária da vida dos signos, situada entre o poeta e o sábio, na qual a Noite não é mais a imagem materna vestida de luto nem ainda uma simples fase da revolução diurna.

A Noite funciona nesse nível intermediário como um nome — e talvez nada mais que um nome —, carregado da potência herdada da Mãe vestida de luto, mas já suscetível de ser manejado nas hierarquias de nomes próprias a essa camada de cultura.

Heráclito nomeia a Noite pelo nome da Benevolente — em grego eufrone —, mesmo no texto em que cita Hesíodo, ainda que a Teogonia lhe dê o nome sagrado de Nyx acompanhado de um cortejo de epítetos incantadores: a Negra, a Obscura, a Tenebrosa, a Temível.

CRIANÇAS DAS NOITES

O “maior número” dos homens e o “maior número” das coisas opõem-se a Um colocado no fim da frase heraclitiana, formando um par exatamente comparável ao terceiro par da tabela pitagórica dos contrários conservada por Aristóteles — e não é certamente por acaso que a mesma fórmula contém outro par correspondente ao oitavo da mesma tabela: Luz e Trevas.

Vários nomes da progenitura da Noite tornaram-se nos textos pré-socráticos os polos negativos de pares contrários, e o catálogo dos filhos da Noite não é uma simples enumeração — é uma enumeração complexa que procede por grupos, hierarquizando-os com intenções sutis.

Os nomes comuns ao catálogo hesiódico e à tabela heraclitiana dos contrários são, depois da própria Noite: a Morte, o Sono, a Guerra, a Velhice, a Fome, e provavelmente a Mentira — todos nomes de significação transparente para dizer o mal, ou ao menos o que os homens experimentam como mau.

TÁBUAS DOS CONTRÁRIOS

A Tábua Heracliteana dos contrários deve ser reconstituída a partir de peças e fragmentos, sem mesmo ter certeza de que ela jamais tenha sido reduzida ou sistematizada, pois vários fragmentos fornecem pedaços de tabela, enquanto muitos outros são engastados na armadura de uma ou duas contrariedades.

Outros pares contrários isolados nas fórmulas se encontram reunidos sob os signos do Um, do um e o mesmo, da coisa comum e do dieu: Noite e Dia (fragmento 57, transmissão: Clément), o casal divino de Hades e Dioniso (Fr. 15, transmissão: Clément), os dois casais da rota (Fr. 59, tr.: Hipólito; Fr. 60, id.), o começo e o limite (Fr. 103, tr.: Porfírio).

Se se toma o atributo sob o qual os contrários são reunidos, ou o sujeito ao qual dois contrários são atribuídos, obtêm-se alguns termos simples: o Um, a Coisa-Comum, o mesmo, o um-e-o-mesmo, e ainda o dieu — sendo que os quatro grandes grupos temáticos são: (1o) o Um e o múltiplo ou o singular e o plural; (2o) o Comum e o particular, ditos do cosmos e da phronesis; (3o) o mesmo e o outro; (4o) o dieu e o homem.

Não há sistema fechado — em presença de simples fragmentos, não se pode julgar com certeza, e os ângulos de visão poderiam se multiplicar, as oposições aflorar com a profusão e a liberdade da vida.

A Tabela Pitagórica dos contrários (Aristóteles, Metafísica A 5, 986a — D.K. “Pythagoreische schule” B 5, p. 452) não contém mais nomes de deuses; ela contém palavras do registro sévère et sobre, ao lado de símbolos expressivos da reação do homem às experiências da vida, em para e em contra.

A dicotomia — o modo pelo qual o homem distribui os objetos de sua experiência em classes afetivas — explica a estranheza que a tabela pitagórica causa ao moderno: o mistura do nocturno e do feminino, considerados negativos, com propriedades matemáticas como o par e o ímpar.

Lidas no registro do real vivido e com essa chave, as tabelas dos contrários reunidos tomariam outro significado: a reconciliação das potências, a igualização dos valores — não que tudo se tornasse igualmente indiferente, mas que as repulsões maiores do homem teriam sido domadas: a repulsão ao negro, ao vazio, à morte e ao esquecimento.

A Tabela de Parmenides não existe como documento, mas seu traço se encontra graças a um testemunho de Teofrasto e a um testemunho de Cícero.

A Tabela de Empédocle (D.K. Empédocle — fr. 122 e 123) retraduz visivelmente em nomes de divindades refabricadas uma lista de abstratos constituídos por tradição filosófica — e constitui um fenômeno não arcaico, mas arcaizante.

MUTAÇÃO DOS SIGNOS

O homem dispõe então de ao menos três registros: o dos nomes divinos, o dos nomes de coisas desmistificadas, e o registro sévère et sobre de um vocabulário todo novo — e é esta a idade das tabelas mistas, tudo pronto para que se desenvolva, paralelamente, uma física desmistificada e uma ontologia.

Heráclito se situa provavelmente antes que a separação dos registros esteja consolidada — à idade em que os nomes, desprendidos dos dieux, se colocam mal entre as coisas e a Coisa, e têm uma vida autônoma, sendo capazes de formar por si sós sentidos inauditos.

LENDA E DISCURSO

Há uma diferença entre um jogo de palavras de fonte pré-consciente e um jogo de palavras por assim dizer técnico, fabricado pela manipulação de sílabas segundo as leis de um gênero — e os dois tipos coexistem no mesmo período cultural.

A invenção verbal característica dessa camada de cultura muda o homem porque os nomes e as palavras, com suas associações autônomas, seus jogos extraordinários, acabam por lhes dizer sozinhos sentidos inauditos — até o tempo depois em que o homem começa a desconfiar das palavras.

Para ler Heráclito convenientemente, é preciso saber adotar uma disposição — sacrificando os hábitos do moderno evoluído e o vocabulário confortável das filosofias pós-platônicas — pois ele se coloca no caminho da invenção de um discurso novo, mas distintamente antes da separação dos registros.