Função de cada furor na escada ascensional:
-
Primeiro furor: modera o que é dissonante e desacordado.
-
Segundo furor: converte coisas moderadas de suas partes em um todo.
-
Terceiro furor: unifica o todo acima das partes.
-
Quarto furor: conduz ao Uno, que está acima da essência e de tudo.
Retorno em vida: visão íntima de Deus não ocorre apenas após morte, mas em vida, através de exercício de introspecção.
Agentes ativos da liberação: filósofos, visionários, poetas e homens de religião contribuem ativamente para sua própria salvação.
Primazia do furor religioso sobre os demais na hierarquia ficiniana.
-
Não é o furor poético (como destacou Chastel) nem o amatório (como poderia deduzir-se de seus comentários), mas o religioso que ocupa posição suprema.
-
Evidência textual: na Teologia Platônica, homem que medita sobre divino e se imbui dos mistérios perfeitos é único que se torna perfeito, estando sempre atado à vontade divina.
-
Perfil do eleito: homem religioso e poeta, afastado dos problemas cotidianos, submisso às influências do planeta Saturno, portanto, um melancólico.
Síntese entre medicina, astrologia, hermetismo e platonismo na explicação do furor.
-
Base antiga: furor divino era modalidade nobre de uma doença psíquica vulgar, a “mania” ou epilepsia, atribuída a má constituição humoral.
-
Descoberta de
Aristóteles: homens excepcionais em filosofia, poesia ou artes eram manifestamente melancólicos; sua excitação era devido ao acalentar do humor negro que afetava intelecto.
-
Associação medieval: poetas furiosos foram considerados seres com excesso de bile negra, submetidos a Saturno, assim como criminosos.
-
Inversão ficiniana:
Ficino retoma associação, mas lhe dá volta positiva. A influência saturnina e a constituição melancólica não são maldição, mas predisposição física para receber influência divina.
-
Perfil do porta-voz divino: não são ignorantes tomados ao acaso, mas pessoas fisicamente predispostas, os religiosos-poetas, laicos naturalmente facultados para receber a Deus.
Contribuição decisiva de Ficino para psicologia da criação artística.
-
Síntese de fatores: grandeza da obra de arte não se deve apenas à composição inata da alma, à peculiar composição humoral do corpo ou à graça de Deus.
-
Elemento novo: intervém vontade ativa do poeta com talento, que toma parte em sua própria “salvação”, ajudando alma e Deus.
-
Princípio da cooperação: Deus quer que homem queira ser arrebatado. Amor divino inflama homem, e este, amando, ascende ao fervor de amar.
Papel da poesia no processo de salvação da alma.
-
Elevação do status das artes: contribuição de
Ficino é inegável para elevação das artes plásticas e poéticas de artes manuais a artes liberais.
-
Paradoxo moderno: contudo,
Ficino ainda dedica paradoxalmente pouca atenção às artes em si.
-
Fim último do furor: finalidade dos furores não é, em princípio, a poesia, mas a salvação individual da alma, da qual a criação poética é acompanhamento.
-
Poesia como causa e efeito: para Chastel, poesia não é apenas efeito residual, mas também causa e mesmo autêntico fim do processo.
-
Variação do conteúdo poético: conforme furor predominante, conteúdo do poema varia. Sob furor amatório, canta-se à beleza terrestre reflexo da divina; sob furor profético, eleva-se a profecia; sob furor religioso, compõem-se hinos divinos ou cessa a palavra em admiração.
Poesia como excitante anímico e imitação da harmonia celeste.
-
Função catártica e propulsora: cantar ajuda alma a penetrar mais profundamente no reino de Deus.
-
Despertar pela música celeste: alma pode excitar-se ao escutar a música silenciosa das esferas, que evoca memória do reino divino.
-
Resposta criativa: homem deseja recriar na terra parcelas do céu, pondo-se a cantar poemas musicados.
-
Tripla beleza do poema musicado: beleza do conteúdo verdadeiro, da forma poética (ritmo e disposição) e da melodia.
-
Poema como encantamento: à maneira de Orfeu, “cânticos” são poderosos encantamentos.
-
Superioridade do poeta-músico: poeta que compõe versos e música é superior ao músico puro, pois une verdade do texto à harmonia celeste, sendo o ouvido interno a província da Verdade filosófica.