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Corpo
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A alma, embora seja imortal e tenha uma natureza superior, possui uma origem, e esse fato de ter uma origem pode explicar as imperfeições das quais ela sofre.
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Nesta vida, pelo menos, a alma está unida a uma segunda espécie de alma (ἄλλο εἶδος ψυχῆς), uma alma inferior e sem razão, chamada de hábito passivo (ἕξις παθητική), que constitui a natureza do ser vivo (φύσις τοῦ ζώου).
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Essa alma inferior é o sujeito dos estados passivos do ser (τὸ τὰ πάθη ταῦτα).
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Existe também um corpo, cuja presença e influência são atestadas pela consciência, que revela duas forças: uma que comanda e quer governar, e outra que obedece, mas às vezes resiste; é essa última que se chama corpo.
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A oposição e o antagonismo dessas duas forças revelam sua diferença.
Há uma parte da alma na qual está o corpo e que o faz viver por sua presença: é a potência ou força natural e geradora (φύσις).-
Há outra parte, a potência superior e principal (τὸ ἡγεμονοῦν), na qual não há nenhum corpo.
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De maneira geral, as potências da alma não estão presentes no corpo; apenas aquelas de que o corpo necessita lhe estão presentes, sem terem seu fundamento (ἐνηδρευμένα) nem nos órgãos particulares nem no todo do corpo.
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Para a sensação, a potência psíquica de sentir está, como é necessário, inteiramente presente no órgão que sente por inteiro, isto é, no cérebro.
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A corporalidade (σωματότης) não é, como dizem os peripatéticos, o composto de todas as qualidades reunidas à matéria.
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A corporalidade é uma razão (λόγος), uma espécie de forma (εἶδος), existindo na matéria, sendo como a vida e a perfeição dela.
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Não se deve entender por razão simplesmente uma noção lógica destinada a exprimir a essência da coisa, mas uma noção ativa, uma ideia-força que, envolvendo e possuindo todas as qualidades, cria o corpo ao se aproximar da matéria.
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Essa razão não contém matéria, mas se aplica à matéria (περὶ ὕλην εἶναι).
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Como razão, ela decorre necessariamente da Razão (ὁ Νοῦς), pois a Razão sempre transborda de sua plenitude exuberante, e tudo o que emana dela é razão, até que a razão tenha penetrado em todos os seres.
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Essa razão, sendo uma forma, é considerada estranha, por sua essência, à matéria, ainda que de fato seja inseparável dela.
O corpo é, na realidade, uma forma, mas não uma forma pura; para esses tipos de formas é preciso um lugar, um receptáculo.-
A noção de corpo envolve a noção de matéria, pois o corpo se apresenta à observação sensível como uma extensão, uma massa (ὄγκος) e, por conseguinte, uma grandeza.
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A quantidade, assim como a qualidade, é ela mesma uma forma, pois é uma medida e um número.
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Para a constituição do corpo, além da grandeza e das propriedades da grandeza, é preciso uma massa ou extensão; as formas dos corpos estão em extensões, mas não na extensão mesma (que também é uma forma), e sim no sujeito que recebeu a extensão.
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Toda forma supõe um sujeito, um substrato (ὑποκείμενον), que a recebe e que só recebe sua determinação por uma diferença de forma; esse substrato é o que se chama matéria, que por definição é indeterminada por essência, incapaz de permanecer em si, mas apta e inclinada a receber todas as formas.
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A matéria é suscetível de receber a extensão (propriedade pela qual as partes de uma coisa são localmente distintas umas das outras), mas não pode recebê-la de si mesma; indiferente e estranha a toda determinação, ela só pode receber a determinação da extensão de um outro.
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Com a extensão, a matéria recebe todas as propriedades da extensão, tornando-se sua imagem, de modo que se confunde frequentemente com a própria extensão.
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A matéria em si só recebe a forma da extensão de um outro, e esse outro só pode ser o princípio de todas as formas, ou seja, a alma.
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Em si, a matéria não existe (μὴ εἶναι); ela é incorpórea e impassível (ἀπαθής); não é alma, nem razão, nem vida, nem forma, nem limite, nem força, nem corpo; é a indeterminação pura, a indiferença pura, a indefinição pura (ἀπείρως, ἀόριστως).
A matéria pode ser concebida por um estado mental correspondente ao seu objeto, isto é, por uma indeterminação do sujeito pensante análoga à do objeto pensado, pois o semelhante é conhecido pelo semelhante.-
O pensamento que busca apreender a matéria é, portanto, um pensamento bastardo, vago, indeterminado; não é um pensamento propriamente dito (νόησις), é quase a ausência de pensamento (ἄνοια).
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A noção de matéria não é dada pela consciência como as da alma e do corpo; ela é descoberta pela razão (νοῦς εὑρίσκει).
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É uma lei da razão procurar sempre o simples, chegar ao que não pode mais se decompor; a razão analisa todas as noções que adquire e só para essa decomposição quando desceu ao último fundo das coisas, ao seu elemento último.
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Encontrando os corpos sempre duplos e compostos (com uma forma e uma outra coisa), a razão põe, após uma análise levada tão longe quanto possível, esse outro elemento onde parou, esse fundo, essa profundeza (βάθος), e o chama matéria, entendendo por isso o que resta quando, pelo pensamento, se suprime nas coisas a razão e a forma.
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Pode-se pensar a forma e a razão das coisas à parte, abstraindo-as mentalmente da matéria, porque o espírito encontra aí um elemento idêntico a si mesmo, que é como a luz das coisas.
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Quando se quer pensar o outro elemento (a matéria), concebe-se que ele existe (pois está indissoluvelmente unido ao primeiro), mas ele só aparece como algo tenebroso (σκοτεινόν), diferente da luz e como seu contrário; o olho, que é de certa forma luz, busca e vê a luz e as cores, mas percebe o resto (o que as cores recobrem e escondem) apenas como obscuridade e trevas.
A transformação dos elementos uns nos outros demonstra à razão que deve haver alguma outra coisa além desses elementos, que permanece e na qual pode se realizar esse movimento de transformação; do contrário, ele resultaria em um aniquilamento absoluto (φθορά).-
O que devém não passa do não-ser ao ser; todo devir, toda mudança é apenas a passagem de uma forma a outra; é preciso, portanto, que haja algo que permaneça (μένει) e possa receber uma forma nova perdendo a outra.
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A destruição nunca atinge senão o composto; ela apenas separa uma forma de uma matéria.
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A indução (ἐπαγωγή) prova que o que foi destruído enquanto decomponível era um composto, e que o corpo, portanto, além de sua forma, contém uma matéria.
O método de análise conduz ao mesmo resultado: a taça de ouro fundida dá uma matéria (o ouro); o ouro fundido dá outra (a água), mas a análise não para aí.-
O princípio de analogia (τὸ ἀνάλογον) exige que a água, desaparecida por um procedimento qualquer, deixe um resíduo qualquer, isto é, uma matéria, e assim sucessivamente até se chegar à matéria primeira (πρώτη ὕλη).
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Toda multiplicidade sai da unidade; a diversidade das matérias corporais deve, portanto, sair de uma matéria primeira comum a todos os corpos.
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As últimas matérias às quais a análise reduz os corpos são os elementos; mas os elementos ou são forma (o que é impossível, pois não se concebe uma massa ou grandeza sem matéria), ou são a matéria primeira (o que não é menos inconcebível, pois os elementos se transformam uns nos outros e assim se destroem, φθείρει γάρ).
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Os elementos são, portanto, compostos de uma forma (que para eles é a qualidade e a figura) e de um substrato indeterminado que, não sendo forma, é necessariamente o que se chama matéria; nenhum elemento é, portanto, primeiro.
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O Primeiro, na ordem do devir, é o que é absolutamente indeterminável, perfeitamente simples, sempre pronto, nos corpos e nas coisas do devir, a passar de uma forma a outra, mas que só pode passar e se tornar matéria em ato pela intervenção de um ato, e do ato absoluto.
A noção ou representação da matéria, que se pode chamar inteligível (νοητή) porque não é fornecida pelos sentidos, é como um pensamento negativo (ἄνοια), um estado psicológico que não se deve confundir com a cessação completa do pensamento.-
Quando a alma não pensa, ela não afirma nada e mesmo não experimenta nada (λέγει μηδέν, μᾶλλον δὲ πάσχει); quando a alma concebe a matéria, ela experimenta algo (πάσχει); essa impressão é, por assim dizer, a impressão do informe (οἷον τύπον ἀμόρφων).
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Nessa representação tenebrosa, há um lado positivo como um lado negativo.
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Quando a alma representa os objetos que têm forma e grandeza, ela os concebe como compostos e pensa neles os dois elementos unidos e o todo inteiro que os reúne; a representação (e, se os objetos estão presentes, a sensação) é clara e viva.
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A noção do substrato informe é obscura porque ele não é forma; a alma o pensa sem pensá-lo (νοεῖ οὐ νοοῦσα).
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Esse estado é penoso para a alma porque, por sua essência, ela tem horror ao indeterminado, ao vazio; teme sair da ordem dos seres, mergulhar no não-ser.
A extensão, seja considerada como dada à matéria simultaneamente à qualidade ou posteriormente, é uma forma, uma ideia, uma razão (λόγος).-
As formas e as razões são e só podem ser em uma alma; elas estão na alma como as Idéias estão na Razão (ὁ Νοῦς), isto é, como essências e potências (δύναμις), pois não há essências sem potência, nem forças sem essência.
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Na Razão, a potência é substância e essência; na alma, as razões emanadas da Razão são igualmente potências, forças, mas menos enérgicas, menos ativas (ἀνωδίαλ δυνάμεως), razões enfraquecidas.
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Essas razões, ditas compostas porque são ao mesmo tempo essências e forças, constituem o sistema de razões que, por seu ato, produz um outro composto: a Natureza (φύσις), que, em consequência de sua origem, age e aspira à forma.
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A Natureza é o princípio ativo que tende a realizar a essência na matéria; quando realiza essa essência em corpos inorgânicos, ela toma o nome de hábito (ἕξις), estado de posse habitual e constante.
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A matéria é o receptáculo do hábito (ὑποδοχὴ ἕξεως); a ἕξις é a potência que produz por si mesma aquilo de que é potência, ou seja, que produz espontaneamente seu ato.
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Ela dá à matéria o limite (τὸ πέρας), que conduz e impele todas as coisas da natureza ao seu ato e à sua perfeição; elas são sem raciocínio, mas seu estado é aquele que lhes teria dado um princípio agindo com raciocínio.
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Coordenando as diversas partes da extensão que essa potência produziu, ela faz algo de uno como ela mesma e, portanto, algo de bom; é por ela que os corpos inorgânicos participam da forma.
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Essa ordem (διάταξις) é conforme à razão, sem ser efeito de um raciocínio, e é tão perfeita quanto poderia ser se fosse produzida por uma razão consciente de seus atos.
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Esse princípio ativo da Natureza é uma alma que, pelas razões que contém e que irradia (como um flambeau irradia seus raios), forma o corpo iluminando a matéria, onde se reflete como em um espelho.
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O ser inorgânico participa, portanto, do bem, porque participa da Razão (ὁ Νοῦς) e porque está suspenso à alma, que está ela mesma suspensa à Razão.
A corporalidade não é ainda a vitalidade, embora seja sua condição de existência.-
O corpo vivo é algo mais do que uma matéria extensa, limitada, cujas partes são coordenadas e reduzidas à unidade.
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A matéria determinada pela forma e suscetível de aumento e diminuição não possui ainda por isso mesmo a vida tal como se vê no corpo humano, mas possui um traço e como um começo dela.
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Já na transformação da matéria em extensão limitada e medida, percebem-se efeitos que só podem ser atribuídos a uma força racional que tem o instinto da ordem e do bem e que os deposita em seu produto como um traço de si mesma.
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Essas razões não são concepções mortas, sem vida e sem movimento (ἄψυχοι); são, ao contrário, razões agissantes, geradoras, produtoras, forças internas, como os germes dos vegetais e os espermas dos animais, que não são movidos de fora (como por alavancas ou outros aparelhos mecânicos); elas produzem por si mesmas aquilo de que têm a potência, e conformemente à razão.
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Pela analogia do que se passa em nós, atribuem-se todos esses atos a uma alma considerada como o sistema vivo dessas razões criadoras.
É preciso, portanto, reconhecer uma alma no mineral, e até na terra, na água, no fogo, no ar.-
Pelo trabalho oculto, pela atividade interna dessa força psíquica, ao mesmo tempo vida e razão (ζωὴ καὶ λόγος), onde a vida e a razão não fazem senão um (ἓν καὶ ταὐτὸν ἄμφω), explica-se a formação das montanhas e das pedras contidas na terra, que vivem e crescem enquanto estão em seu seio.
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Toda matéria que recebeu uma forma é, de certa forma, já um ser vivo (ζῶον); todos os corpos, mesmo aqueles chamados sem alma (οὐκ ἔμψυχα), têm uma alma, pois têm uma vida.
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Não se consideram todos os corpos como seres animados porque a alma não se manifesta neles completamente e sensivelmente, porque a substância desses corpos, fluida ou dividida, não oferece uma massa permanente e não descobre a potência que está neles.
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A carne parece animada, mas o sangue (às custas do qual ela se forma) parece privado da presença da alma, porque não manifesta sensibilidade, não oferece consistência e se separa facilmente da alma que o vivifica; o mesmo ocorre com os elementos, a terra (astro central do mundo) e todos os corpos que ela contém, gera, nutre e acresce.
Se todos esses corpos têm uma alma e só são corpos porque têm uma alma, pergunta-se que espécie de alma eles podem ter.-
Se se considera apenas suas produções, é sem dúvida uma alma ou potência vegetativa (ἡ γεννητική), sobre a qual repousa todo o reino vegetal.
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Essa potência não parece constituir uma força individual, separada, própria a cada corpo produzido; a generalidade de sua atividade, no que concerne aos corpos celestes como aos corpos terrestres, autoriza a ligá-la a uma potência geral, a uma alma universal vegetativa (πᾶν φυτικόν).
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O corpo do homem mesmo não é obra de sua alma própria e individual; a causa geradora dos corpos age de uma maneira universal e deve ser uma alma universal, ou a Alma do Universo e do Todo (ψυχὴ τοῦ παντός).
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Essa alma universal só comunica a vida às coisas que não vivem por si mesmas, e a vida que lhes comunica é semelhante à sua, ou seja, é uma imagem da Razão.
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A Natureza é propriamente uma parte da Alma universal (sua irmã, para dizer melhor), o último grau da razão e da alma, na qual se encontra a potência geradora, a potência dos germes e das sementes.
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Pode-se estabelecer uma distinção: a Natureza, enquanto possui uma sombra da razão, dá a própria vida; a Alma universal só dá a forma extensa e visível, uma razão morta, incapaz de dar ao ser a força de gerar, de criar um outro ser.
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A Natureza, ou a razão dotada de vida, cria em seu produto, além da forma visível, a mesma potência que ela possui, isto é, a potência de criar um ser vivo como ela.
A vida acompanha e segue a alma como a luz acompanha e segue o flambeau.-
A Alma universal só produz os corpos inorgânicos; a Natureza cria corpos organizados.
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Apesar dessa diferença, ambas têm caracteres comuns: são simples em sua essência (como formas), produzem segundo as formas que recebem e só podem receber da Razão, sua atividade é sem vontade, sem consciência nem reflexão, sem movimento que modifique sua essência.
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A Natureza mesma permanece inteiramente e sempre o que é (μένουσα αὐτήν).
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Último grau da alma, embora tenha em si uma razão que a ilumina, ela não sabe, não conhece; seu ato se limita a produzir, sem vontade nem escolha.
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Esse princípio de criação natural (τὸ ποιοῦν φυσικῶς) não é um pensamento (νόησις), nem mesmo uma sensação tal como a visão (ὄρασις).
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No entanto, a Natureza, que se diz sem representação e sem razão (ἀφάνταστον καὶ ἄλογον), possui ao menos em si mesma uma visão das coisas (θεωρία), e o que ela cria, ela cria por essa visão que, sob uma certa relação, ela não possui.
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A Natureza é uma razão que cria uma outra razão e que, dando algo de si mesma ao substrato que a recebe, permanece o que é (μένοντα αὐτόν) e fica ela mesma.
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Os seres organizados e viventes são o produto das razões depositadas na Natureza; os corpos inorgânicos são o produto das razões depositadas nessa parte da Alma universal que se chama ἕξις.
Pelo hábito (ἕξις) e pela natureza (φύσις), aspectos diferentes da Alma universal que projetou sobre a matéria uma espécie de iluminação, alguns dos corpos assim formados tornaram-se próprios a receber uma alma individual.-
Essa alma individual completará a obra imperfeita da Alma universal, seguindo as linhas, os traços luminosos já traçados por esta.
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Ela organiza definitivamente os membros (cujo desenho estava apenas vagamente esboçado), repartindo-lhes suas funções e suas partes distintas, e deposita enfim no corpo físico uma forma semelhante a si mesma: a vida.
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Assim, é a alma individual que é o verdadeiro princípio do corpo vivo, de todo vivente, do vegetal, do animal, do homem.
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A Alma universal apenas dispôs a matéria de uma maneira própria a receber tal alma determinada, e conforme a capacidade que dá ao corpo, ele se torna suscetível de receber vários graus de vitalidade.
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O corpo organizado não quer apenas ser corpo; ele quer viver de uma vida mais plena e mais rica do que aquela que lhe puderam dar, no limite de sua potência, o hábito e mesmo a natureza.
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A natureza da alma é tripla (apresenta-se sob três formas ou espécies, que são ao mesmo tempo os três graus de perfeição que ela pode percorrer), mas sob todas as suas formas e em todos os seus graus de perfeição, a vida que ela traz é ato (ἐνέργεια).
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Esse ato, mesmo quando não é acompanhado de alguma sensação, é uma espécie de movimento que, embora não sentido, inconsciente, não está no entanto entregue ao acaso.
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A vida é movimento; a alma é movimento, mas ao mesmo tempo repouso.
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