Doutrinas não-escritas
A primeira menção explícita às doutrinas não escritas de Platão vem de Aristóteles na Física, no contexto da discussão sobre o “lugar”, onde o Estagirita distingue o que Platão diz no Timeu do que consta “nas chamadas doutrinas não escritas”.
-
Aristóteles usa a expressão “as chamadas doutrinas não escritas” (en tois legomenois agraphois dogmasin), sugerindo já um caráter convencional da designação.
-
Não há, nessa passagem, maior desenvolvimento sobre o conteúdo ou a relação dessas doutrinas com os diálogos escritos.
Aristóxeno de Tarento, discípulo direto de Aristóteles, registrou nos Elementa Harmonica um relato atribuído ao próprio Aristóteles sobre a má recepção de uma lição de Platão acerca do bem — a famosa conferência peri tagathou —, em que o público esperava ouvir sobre bens comuns como saúde e riqueza e se viu diante de matemática, geometria e astronomia.
-
A importância desse relato deriva não de seu conteúdo imediato, mas de sua trajetória posterior nos comentários aristotélicos, especialmente em Simplício.
-
Simplício não apenas esclarece o conteúdo dessa conferência, mas amplia a referência de uma única lição para um conjunto de discursos sobre o bem.
Toda a tradição peripatética e neoplatônica foi acumulando referências às doutrinas não escritas, tornando a questão uma vexata quaestio da erudição platônica que o século XIX retomou e que se impôs no início do século XX como encruzilhada central da interpretação de Platão.
-
A controvérsia não se justifica apenas pelos testemunhos externos sobre um suposto ensino oral, mas pelo próprio texto platônico, que contém reiteradas críticas à palavra escrita.
-
A opção de Platão pela forma dialógica está diretamente vinculada a essas reservas em relação à escrita.
Três pontos podem ser extraídos dessa revisão preliminar: a origem textual das doutrinas não escritas está em Aristóteles, sem confirmação expressa no corpus platônico; sua importância como tal é em grande parte construção da tradição posterior; e essa mesma tradição constitui o único testemunho explícito sobre sua natureza e conteúdo.
-
O problema central decorre do terceiro ponto: sem vinculação expressa por parte de Aristóteles das agraphà dogmata a temas específicos, o conhecimento de seu conteúdo depende inteiramente dos relatos posteriores.
-
Esses relatos, por transmissão peripatética ou por inadequação entre a descrição aristotélica e os diálogos, identificam unanimemente as doutrinas não escritas com as referências de Aristóteles ao pensamento platônico que não encontram correspondência nos diálogos.
Segundo os testemunhos aristotélicos disseminados ao longo de sua obra, o ensino platônico consistiria em três vetores ausentes dos diálogos: a vinculação da teoria das ideias ao Uno e à Díade Indefinida (o Grande e o Pequeno) como princípios formal e material; o reconhecimento de três tipos de números — sensíveis, ideais e intermediários matemáticos (ta mathematika); e a identificação das ideias com números.
-
Esses três tópicos formam a base das tentativas modernas de reconstrução da filosofia platônica a partir dos testemunhos externos.
A dissertação de L. Robin, La théorie platonicienne des Idées et des Nombres d'après Aristote (1908), deu o grande impulso moderno a esse projeto reconstrutivo, propondo-se a usar exclusivamente os depoimentos aristotélicos sem cotejá-los com os diálogos.
-
A investigação de Robin exerceu influência extraordinária na exegese platônica do século XX e impôs a questão das doutrinas não escritas como problema obrigatório para qualquer comentário de Platão.
Distinguem-se atualmente três tendências nítidas diante da questão das doutrinas não escritas, a primeira das quais, cujo núcleo está na obra de Cherniss — Aristotle's Criticism of Plato and the Academy e The Riddle of the Early Academy —, assume postura totalmente negativa.
-
Para Cherniss, não existe testemunho independente e fiável de um ensino oral continuado por Platão.
-
Os relatos de Aristóteles não têm valor histórico, pois sua única fonte foram os próprios diálogos, que Aristóteles leu como filósofo sistemático e não como historiador, resultando em descrições eivadas de erros, omissões e incompreensões.
Nos antípodas dessa posição estão os comentadores de Tübingen, H. J. Krämer e K. Gaiser, para quem a verdadeira filosofia platônica é a descrita por Aristóteles, constituindo a vertente esotérica de um ensinamento desenvolvido “ao lado” do magistério exotérico dos diálogos — caracterizados pelo próprio Platão como mero “jogo” (paidia).
-
Krämer e Gaiser extraem das críticas platônicas à escrita o primado da oralidade e o caráter exotérico dos diálogos.
-
Dos testemunhos aristotélicos e peripatéticos extraem a substância do ensino esotérico real, no qual a “doutrina dos princípios” (Prinzipienlehre) aparece como ontologia hierárquica e processional.
Uma terceira tendência, intermediária e mais difusa, aceita o testemunho aristotélico como rigoroso para o último período do pensamento platônico, posterior à redação das Leis, ou o reinterpreta como repositório em linguagem aristotélica da filosofia dos últimos diálogos.
Diante dessas três linhas, justifica-se examinar as garantias que a própria obra platônica oferece de acesso genuíno ao pensamento de Platão, e os dados que ela fornece para avaliar qualquer projeto de reconstrução externo aos diálogos.
As críticas platônicas à escrita articulam-se em três eixos principais: a palavra escrita é “muda” por ser incapaz de se sustentar num jogo contínuo de perguntas e respostas que mobilize memória, alteridade e interioridade (Fedro 274b ss.; cf. Protágoras 328e, 347b-348b; Leis XII, 968ce); o projeto de saber exige diálogo, convívio com a “coisa mesma” e congenialidade com o objeto, além de esforço estritamente individual (Carta VII 344b, 341c, 343e-344a, 340d; Leis e Fedro, loc. cit.); e “as coisas sérias” (Carta VII 344c) são absolutamente resistentes à exposição escrita.
Não se pode excluir a priori a possibilidade de um ensino oral platônico — pelo contrário, à luz das críticas à escrita e da vida acadêmica de Platão, tal ensino seria necessariamente o mais importante, especialmente em articulação com os diálogos escritos.
-
Surgem, porém, questões imediatas: é possível acessar o conteúdo desse ensino? Se sim, de que modo? Se não, quais as consequências para o acesso à filosofia platônica?
O problema de fundo que afeta qualquer tentativa de reconstrução do pensamento platônico a partir das agraphà dogmata é estritamente análogo àquele que essa tentativa levanta contra os diálogos: as reconstruções não se baseiam em testemunhos orais, mas em testemunhos escritos e, ao contrário dos diálogos, em testemunhos de segunda mão.
-
A alegada origem oral desses testemunhos não é suficiente para contradizer os diálogos em sua pretensão de único verdadeiro testemunho do pensamento platônico.
O que caracteriza o modelo alternativo proposto nas críticas platônicas à escrita não é a oralidade em si, mas o que ela pressupõe — diálogo, convívio com a “coisa mesma”, congenialidade com o objeto e exercício individual e comunitário de funções intelectuais e de vida —, dimensões que pertencem ao domínio do fazer e não do dizer.
-
A escrita é, para Platão, metáfora de um pensamento morto, inútil e desenraizado, porque truncado do conjunto de realizações vivas que constituem a condição de sua finalidade veritativa.
-
Um suposto ensino oral platônico seria inseparável de todos esses requisitos — e essa seria precisamente a razão de ser oral.
Qualquer tentativa de retomar por escrito o conteúdo do ensino oral platônico — seja nos diálogos de primeira mão, seja nas doutrinas não escritas de segunda mão — está condenada ao fracasso, pois nenhum dos requisitos que configuram o modo de transmissão desse ensino pode ser recuperado por escrito.
-
A pretensão de reatar o ensinamento oral platônico por meio de testemunhos escritos é viciosa em três sentidos: alega a inadequação da escrita mas recorre a ela; ignora que, se existe ensino oral, é justamente porque não pode ser escrito; e, tendo Platão escrito tudo o que presumivelmente poderia escrever, dá-se preferência a uma escrita exterior em detrimento daquela que estabelece os próprios limites do que pode ser escrito.
As doutrinas não escritas não o são por incapacidade ou deliberação de Platão, mas porque, em sua essência, não são “escrevíveis” — e, portanto, se não podem ser encontradas na escrita platônica, tampouco podem ser encontradas em qualquer outro escrito.
-
Platão considera, numa antecipação irônica dos “reconstrucionistas”, que, se tal tratado existisse, seria melhor que viesse de seu próprio punho do que do de outrem.
-
As recriminações a Dionísio por ter ensaiado esse empreendimento deixam claro que uma exposição escrita do que seria reservado ao debate oral é de nulo valor filosófico como registro do ensinamento platônico.
Mesmo de um ponto de vista doxográfico, as críticas platônicas à escrita — sobretudo na versão da Carta VII — comprometem a fiabilidade dos testemunhos da tradição, pois vinculam a inadequação da escrita a uma deficiência mais radical da linguagem e de todos os modos de conhecimento, atingindo não apenas a palavra escrita mas também a palavra oral.
-
Os alegados testemunhos orais da tradição não exibem, por isso, maior fiabilidade do que os diálogos escritos de Platão.
As condições do ensino oral platônico convergem todas para a designação do diálogo como modo filosófico e pedagógico por excelência — e é precisamente o caráter “dogmático” do ensino exposto na tradição que denuncia sua origem não platônica e sua inadequação como relato do pensamento de Platão.
-
Se o ensino é, para Platão, necessariamente diálogo, os tópicos presumivelmente abordados em seu ensinamento oral nunca poderiam constituir “sistema”.
-
Não se nega a eventual articulação dos tópicos das doutrinas não escritas com o pensamento platônico, mas aponta-se sua não coadunação com o espírito platônico que as autenticaria na origem.
Longe de estar perdido pela impossibilidade de acesso às doutrinas não escritas, o ensinamento platônico pode ser recuperado pelo próprio reconhecimento da centralidade filosófica do diálogo — pois a escrita, em Platão, nunca é propriamente negada, mas desvalorizada diante de um modo mais direto de comunicação, e essa desvalorização comporta a aclaração do estatuto que lhe cabe.
-
A Carta VII circunscreve esse estatuto ao declarar que uma exposição escrita é absolutamente inútil exceto para aqueles “capazes de descobrir por si mesmos através de uma pequena indicação” (smikras endeixes, 341e).
-
A condição, pressuposta embora não declarada expressamente nesse contexto, é que tal indicação se apresente não como discurso, não como “poema” (Protágoras), não como sygramma (Carta VII), mas como diálogo.
Os diálogos escritos podem ser tomados em seu conjunto como “pequena indicação” que, tal como o próprio diálogo, “não fala nem esconde, mas assinala” (Heráclito, fr. 93) — e isso justifica tomá-los como único testemunho decisivo do ensinamento platônico.
-
A revalidação do corpus escrito não diminui a evidência de um ensino não escrito, mas é dele devedora: o que ficou escrito é a prescrição do que deve ser feito e a ilustração desse fazer, nunca sua efetivação.
-
A escrita pode indicar o que há a fazer, mas não pode substituir esse fazer, que escapa por essência à escrita.
A oposição decisiva em Platão não é entre dizer escrito e dizer oral, mas entre dizer e fazer — e daí o valor dos diálogos como “pequena indicação”: pequena não porque é tudo o que pode ser dito por escrito, mas porque é tudo o que pode ser dito tout court.
-
Tudo o mais tem de ser feito — e antes de tudo a própria efetivação da descoberta que o diálogo apenas ensina a descobrir.
-
Os diálogos platônicos são, portanto, não por contingência mas por essência, tudo o que resta do ensinamento de Platão.
