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FRAGMENTO 3

EUDORO DE SOUSA

3. «pois o que existe para pensar e ser, é o Mesmo».

GREDOS XII

«Pues lo mismo puede ser y pensarse».

BARBARA CASSIN

Um mesmo é com efeito ao mesmo tempo pensar e ser.

PETER KINGSLEY

Pois o que existe para pensar, e ser, são um e o mesmo.


Comentários

Brun

Resume-se a poucas palavras to gar auto noein estin te kai einai, mas qualquer tradução é já uma interpretação. Uma tradução muito corrente é a que consiste em ler: «É a mesma coisa pensar e ser.» F.-M. Cleve vai mesmo ao ponto de ver nesta fórmula like an ancient cogito ergo sum. Mas Burnet protesta contra uma tradução que, em seu entender, é um arcaísmo filosófico e traduz: «Uma só e mesma coisa pode ser concebida e pode ser.» Jean Beaufret traduz por seu lado: «O mesmo, esse, é ao mesmo tempo pensar e ser.» Esta última tradução apoia-se numa interpretação de Heidegger em que vale a pena determo-nos.

Para Heidegger, o cristianismo teria deformado o sentido deste pensamento de Parmênides. Seria contrassenso crer que o ser não é mais que o ato do pensamento. Conviria então perguntar o que significam to auto e te … kai, depois o que quer dizer noein e, por fim, que sentido convém atribuir a einai. Seguiremos a análise que Jean Wahl faz desta exegese de Parmênides por Heidegger. O noein seria a physis, isto é, o reino que se abre e desenvolve na luz, o ser que é aparecer e manifestação. Quanto ao noein, que se traduz por conhecer, é preciso não ver nele qualquer pensamento lógico. Conviria traduzi-lo por entender, no seu significado de acolher, deixar vir a si (daí o derivado entender-se e o substantivo entendimento), e ainda por atender, no sentido de ouvir uma testemunha a quem se concede a palavra. Assim o noein seria o entendimento daquele que concorda com qualquer outro e o atendimento daquele que escuta e toma uma posição de vénia para receber o adversário e levá-lo a deter-se imediatamente. Por isso, para Heidegger, o noein seria o ato de trazer o que aparece ao ser e o de o deter.

Quanto ao to auto, designaria a unidade, não a da pura uniformidade e identidade como indiferença, mas como pertença recíproca do contrastante. Ou seja, segundo uma ideia cara a Heidegger, Parmênides convergiria aqui com Heráclito falando da unidade dos contrários. Portanto, o verso de Parmênides significaria que, entre o ser e o entendimento do ser, há uma espécie de contradição unitária, isto é, é preciso que ao mesmo tempo ambas as coisas saiam uma da outra e sejam unidas uma à outra.

«É preciso reconhecer que na aurora do pensamento, muito tempo antes que se viesse a formular um princípio de identidade, a própria identidade falara, numa sentença que afirmava: o pensamento e o ser têm lugar no mesmo e amparam-se mutuamente a partir deste mesmo.»

Seria um erro acreditar que podemos ir do Dasein ao Sein. O homem não possui o entendimento do ser, apenas porque o ser a ele se abre; é, pois, o Sein que explica a luz que pode haver no Dasein. Heidegger apoia ainda esta interpretação no fragmento VIII, 34: tauton d'esti noein te kai ouneken esti noema, que traduz por: «O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa.» Por isso noein seria tomar uma saída privilegiada, que sieria a via do Ser. Mas Heidegger pretende ir mais longe e mostrar que o noein equivale finalmente à phisis, ou ao Logos heraclitiano. Para tal, apoia-se no fragmento VI, I.

Kingsley

A tradução do fragmento 3 como “pois pensar e ser são um e o mesmo”, apresenta dificuldades. A começar por Parmênides, mais adiante no próprio poema, negar que pensar e ser sejam o mesmo. Ele explica em detalhe como um está relacionado com o outro — mas idênticos definitivamente não são.

Se tomarmos em consideração a expressão “existem para pensar” utilizada pela deusa no parágrafo II, nos defrontamos com algo surpreendente no original grego. Literalmente traduzido, a escolha particular de Parmênides por palavras significaria que estes são os únicos dois caminhos que “estão para o pensar”. E estas mesmas palavras ocorrem aqui no fragmento III, assim como continuarão aparecendo em outros pontos chaves do poema. Tomando a indicação do próprio Parmênides, podemos dizer que mantendo o significado da primeira ocorrência, aqui no parágrafo III teríamos então: “Pois o que existe para pensar, e ser, são um e o mesmo”.

O que existe para pensar é o que quer que se seja capaz de pensar sobre. Assim, em outras palavras, Parmênides está dizendo que algo que se possa pensar sobre, tem que existir para se pensar sobre. E graças à estranha lógica só encontrada nos domínios do sem-sentido, isto imediatamente faz perfeito sentido quando posto em paralelo com o que a deusa já tinha dito no parágrafo II.

Afirmar que pensar e ser são mesmo seria dizer algo sobre a existência do pensador. Mas levantar a questão do que existe para pensar é bem diferente: é dizer algo ao invés sobre a existência do que pode ser pensado, do que pode ser ponderado ou reconhecido ou considerado. E, como já sabemos, esta é a preocupação fundamental da deusa. Pois assim que introduz os dois caminhos de inquirição ela descarta o segundo imediatamente porque: “não há nenhum caminho que possas reconhecer que não é — não há nenhum viajar nesse caminho — ou dizer algo sobre ele”.

Não-existência é irreconhecível, não mencionável, impensável. O que quer que se pense sobre, deve existir simplesmente porque existe para se pensar sobre. E certamente isto é totalmente absurdo. Significa que unicórnios teriam que existir só porque se pode pensar sobre eles ou imaginar um. Mas se queremos compreender Parmênides então a pior coisa que podemos fazer é descartar o absurdo. Ao contrário, devemos guardá-lo tanto quanto possível.

Construímos um muro entre pensamento e realidade. Toda nossa vida medimos nossos pensamentos contra o que parece ser a realidade do mundo externo. Decidimos chamá-los inefetivos, sem propósito, imaginativos, não realísticos; ou apropriados, frutíferos, construtivos, realizáveis. Com Parmênides estas distinções são derrubadas.

Para ele qualquer pensamento é sobre algo que existe: é tão real, tão perfeito como parte da realidade, como qualquer outro. Seu critério de justeza jaz não em sua relação a algum mundo externo, objetivo, concreto, sólido — mas em si mesmo.

Todo pensamento é sua própria validação. Não necessita confirmação fora dele. O que quer que sejamos capazes de pensar é verdadeiro. O que deixa os “escolásticos” em pânico, buscando qualificar que tipos de pensamentos se enquadram na afirmação de Parmênides. Mas ele não está fazendo restrições a certos pensamentos naquilo que afirma: ele está se referindo a cada um e todos os pensamentos que acontecem se ter. Na fala da deusa não há distinção entre bons e maus pensamentos.

Aceitando a existência de todo e qualquer pensamento somos levados além do pensamento, a sua não importância, a indicação de que para deusa não há uma preocupação com os pensamentos. É um apontamento para que nos recolhamos sob o pensar e vejamos o que realmente são. É como se olhássemos centenas de cores, cada uma tentando te persuadir que acontece ser a mais importante — então com uma passo atrás as vemos formando um único arco-íris. Pensamentos em si levam sempre à divisão e à separação. Mas todos os pensamentos, juntos, são um único todo.

Somos nosso próprio inimigo. Tudo é um. E não há necessidade de se esforçar por nada porque o que quer que pensemos já existe: nada a completar, nada a temer. O pensar é o domínio de tudo que conhecemos, ou pensamos conhecer. E este fim à discriminação é o fim de toda sabedoria, o fim da filosofia — assim como seu início. É onde tudo que fazemos o tentamos fazer por nós mesmos se torna inútil.

É preciso lembrar em toda esta reflexão que o termo que Parmênides usa quando traz à atenção a questão do pensar, é a palavra grega noein, que tem uma miríade de nuances. Certamente o sentido de pensar, mas muito mais, referindo-se tanto ao ato de perceber como ao ato de pensar: à percepção intuitiva e direta assim como à percepção através de nossos sentidos. E além disso, descrevendo exatamente o que em nossos dias nos referiríamos como consciência ou presença. Assim o caminho que ele nos guia é o da aceitação: o que quer que se está consciente, “é”; o que quer que se percebe ou se nota, “é”; o que quer que se pense, “é”.

Mas tão importante quanto este endosso, esta total aceitação, é o fato que Parmênides está também dizendo algo mais quando formalmente identifica existência com o que existe para perceber e pensar. Não há nada que exista exceto o que pode ser pensado ou percebido. Em outras palavras, o mundo não é em absoluto o que pensamos que é; ou melhor é exatamente o que pensamos que é mas somente porque o pensamos. E o que quer que pensemos que não é, isso é o que ele é também.

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