Matéria
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Neoplatonismo y vedânta: la doctrina de la materia en Plotino y Shánkara. Buenos Aires: Depalma, 1982.
O termo utilizado em espanhol, “materia”, deriva da palavra latina materia/materies, que assume nessa língua-mãe o duplo significado de a) princípio dos seres e b) aquilo de que algo é feito. Às vezes, a palavra é usada com a denotação de madeira de construção e com um sentido figurado, assim como em espanhol, com o significado do tema sobre o qual trata um discurso, uma dissertação, o argumento de uma peça de teatro, etc. Nessa orientação, a palavra latina traduz algumas acepções do termo grego hyle, que possui uma interessante história semântica. Primeiramente, ela aparece no grego clássico, tanto para denotar o sentido de floresta, quanto para significar o material adequado para a construção que dela se extrai, a madeira. Mais tarde, entre os retóricos e logógrafos, o termo passa a ter a ver com o sentido figurado atual que ainda hoje lhe atribuímos, o assunto que o discurso deve desenvolver, mas que entre eles conserva um valor direto. Interpreta-se, nesse momento, a hyle como a hyle retoriké que o retórico deve preparar para extrair dela os temas oratórios prontos para serem utilizados. A hyle retoriké é a matéria-prima determinada sobre a qual o retórico trabalha. Com os médicos da escola de Alcmeão, numa época contemporânea a Platão, amplia-se a denotação anterior, passando o termo a designar aquelas substâncias, também específicas, cuja combinação constituirá um corpo vivo. O termo, consequentemente, generalizou-se, até abranger em seu universo significativo todos os materiais, inclusive os não sensíveis.
Quando Aristóteles elabora filosoficamente seu significado mais geral da hyle, ele se inspira nessa tradição linguística que está por trás dele, levando em conta o caráter amplo do termo grego, e considera a hyle abstratamente como o hypokeimenon ou substrato que subjaz a qualquer forma de devir ou mudança; e somente onde não há absolutamente nenhuma mudança a hyle estará ausente, no ato puro e simples, como acontece com o motor imóvel do livro XII, 6 da Metafísica. Os elementos descritos são precisamente aqueles que permitem ao Estagirita falar, juntamente com um significado geral da matéria, de uma série de matérias secundárias ou materiais, que são formadas em diversos domínios: de uma hyle noeté, matéria bruta da inteligência; de uma hyle topiké, matéria espacial; de uma hyle ton arithmón, matéria dos números; de uma hyle ton megethon, ton ideón, etc.
Mas a palavra latina que melhor registra essa riqueza de significados, apesar da parcimônia obrigatória do Gaffiot, não é o termo matéria, mas sim silva, que, derivando provavelmente de uma raiz syl, presente nos termos gregos xylon/sylon (madeira) e nas antigas línguas germânicas e lituanas, com o significado de bastão, pilar e similares, conservaria seus valores denotativos mais arcaicos. Os esforços realizados por Curtius e outros linguistas, e parcialmente aceitos por Rivaud, tendentes a relacionar o termo hyle com a raiz indo-europeia SYLW, ligada às ideias de fecundidade e geração, de onde proviriam o sânscrito prasuna (flor) e o grego hylwa, origem de silva, resultaram infrutíferos diante dos avanços dos estudos atuais das ciências etimológicas da Antiguidade. No entanto, permanece a sugestão da ligação que, na consciência religiosa, árvores, florestas e cultos silvestres mantêm com o fenômeno da geração.
A explicação anterior foi apresentada com a única intenção de destacar que, quando se utiliza cotidianamente a palavra “matéria”, embora se recorra a diversos recursos das teorias físicas contemporâneas para refinar sua noção, nunca se vai além de um certo âmbito de significado preconceituoso, que enfoca nosso objeto de exame como um certo quid equivalente a uma substância extensa, impenetrável e dinâmica, que subjaz a todos os seres físicos. No entanto, neste caso, não se reflete mais do que um preconceito profundamente enraizado, que é corporalista e intrínseco ao termo latino materia, de origem estoica e restritivo do sentido generoso do termo em sua diacronia semântica helênica, anterior e posterior a Aristóteles. A acepção estoica do termo transmitida por Cícero, Sêneca e Plínio criou raízes profundas em nossa cultura ocidental e é acompanhada por um modo de hermenêutica propenso às inclinações pragmáticas da ciência física, à qual o estoicismo prestou serviços tão inestimáveis quanto às altas intuições filosóficas, embora seja certo que nem sempre a especulação filosófica, no que diz respeito ao nosso tema, tenha sido fiel à sua vocação de universalidade e que, em muitas ocasiões, tenha se detido nos níveis mais próximos dos puros fatos empíricos, como atesta a própria história da filosofia.
