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Platão e a linguagem

I. A REFLEXÃO SOBRE O NOME NO CRÁTILO

Seguindo a cronologia relativa estabelecida por David Ross, García Bazán situa a redação do Crátilo por volta dos quarenta anos de vida de Platão — após os diálogos socráticos e antes do Parmênides, do Fédon, do Fedro, da República e do Banquete — e apresenta a doutrina onomástica ali formulada em seis momentos articulados.

No primeiro momento, Hermógenes informa a Sócrates a posição absolutista de Crátilo: a retidão (orthótes) dos nomes está de acordo com a natureza dos seres, existe por necessidade e universalmente, independentemente do idioma (383a-384a).

  • A posição de Hermógenes, em contraposição, é relativista: a significação correta dos nomes existe por mero acordo (homología) e convenção (xynthéke), estabelecidos pelo uso social dos falantes (384c-e).

No segundo momento, Sócrates apoia parcialmente a tese de Crátilo e refuta o relativismo de Hermógenes, demonstrando que o nome pode ser verdadeiro ou falso: os enunciados (lógos) podem ser verdadeiros ou falsos conforme se conformem ou não com os fatos (prágmata); a parte mínima de um enunciado é o nome; logo, o nome pode ser verdadeiro ou falso (384a-385d).

  • Para refutar o relativismo gnoseológico, Sócrates recusa a fórmula de Protágoras — “o homem é a medida de todos os valores (khrémata)” — por ir contra qualquer critério prático que distinga fatos que se impõem por si mesmos.
  • Os seres possuem em si uma natureza ou qualidade própria, e é essa estabilidade que permite falar do nome como verdadeiro ou falso — mostrante ou ocultante do que é pela palavra (385e-386e).
  • Sócrates estabelece as bases de um critério designativo: o nome tem relação com a expressão da essência dos seres, e essa relação é necessária por natureza, não por mero acordo.

O nome é definido como instrumento (órganon) artificialmente produzido, voltado para a ação e destinado a um fim: nomear, para ensinar (didaskaléin) e distinguir (diakrínein), fabricado pelo legislador (nomothétes) segundo o fim estabelecido pelo filósofo ou dialético (386e-390e).

  • Assim como a lançadeira é feita pelo carpinteiro segundo o modelo que o tecelão — seu usuário — conhece melhor, o nome bem constituído deve ser feito segundo a finalidade de quem o usa para ensinar e distinguir.

A longa análise etimológica demonstra que os criadores dos nomes, por maior que fosse seu engenho, partilhavam da concepção heraclítea de que tudo flui e se move ininterruptamente, interpondo essa preconcepção entre a retidão onomástica e a essência estável que o nome deveria revelar.

  • Sócrates constata: “aos mais antigos homens que atribuíram os nomes lhes acontecia o mesmo que à maioria dos sábios de hoje, que imaginam que as coisas giram e se movem todas sem exceção.”
  • “Na atribuição dos nomes às coisas interveio de modo decisivo a ideia de que elas estão em movimento, fluem e se tornam.”
  • A tese híbrida de Crátilo — naturalista, mas baseada na impermanência das coisas — não distingue com precisão a dynamis onomástica (o significante) da orthótes (o significado ontológico).

A posição própria de Platão, exposta a partir de nomes cujas raízes remetem ao que se detém ou permanece, é que o nome-órganon é uma imagem ou representação da significação — indica-a, não se identifica com ela — e conjuga necessariamente natureza e convenção.

  • “A retidão de um nome é a que indica (endeíxei) como é a realidade (prágma).”
  • A aproximação à essência é possível, mas a identificação total nunca se alcança, pois o ser humano acrescenta sempre aos nomes elementos alheios à natureza significativa em si mesma.
  • Sócrates, ao final do diálogo: “Nenhum conhecimento conhece, se o que conhece não tem estado algum… se a forma mesma do conhecimento se transforma, simultâneamente se irá convertendo em outra diversa forma, e não haverá conhecimento.”
  • A conclusão platônica é que os entes naturais, como imagens ontológicas diretas da estabilidade essencial, revelam a realidade com superior potência; os onómata, como imagens instrumentais, possuem capacidade expressiva (dynamis) inferior.

II. A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE PLATÃO

No Parmênides 130e-131a, Platão avança ao formular a tese da unidade inteligível ideia-nome e da participação do nome na ideia, tornando o mundo da semântica coextensivo ao mundo das formas.

  • “As coisas que participam da semelhança são 'semelhantes', as que participam da grandeza, 'grandes', e as que participam da beleza e justiça, 'belas' e 'justas'.” (Parmênides 130e-131a)
  • “Estas coisas concretas que têm os mesmos nomes que as ideias (homonýma ekeinoís) são relativas para si, não para as ideias.” (Parmênides 133c-d)
  • Aristóteles, em Metafísica I,6, confirma: “As coisas sensíveis se denominam todas segundo as ideias, pois por participação (méthexis) têm as coisas que são muitas o mesmo nome (homónima) que as ideias.”

O paralelismo entre ontologia e semântica permite a Platão explicar a superioridade da linguagem oral sobre a escrita e valorizar a natureza polissêmica do mito como memória ancestral da humanidade.

  • No Fedro (274c), o rei Thamus responde ao deus Theuth que a escrita gera o esquecimento, pois desenvolve o recurso ao registro externo (hypómnesis) em lugar da memória como atividade facultativa (mnéme).
  • A escrita não aporta sabedoria, mas opinião, porque é imagem do sensível — como a pintura, remete sempre ao mesmo que está morto, não ao animado e vivo que reside na alma.
  • A escritura, cópia de cópia separada de sua fonte, necessita constantemente da interpretação paterna para não ser maltratada.
  • No Político 277b, a palavra dá representação superior de um ser vivo em relação ao desenho e ao signo gráfico, porque o importante é que a palavra retorne a sua origem na alma.
  • O mito transmite experiências originárias caídas no esquecimento por ocultação antropocósmica, permitindo rememorar — como nos relatos verossímeis do Timeu sobre a semeadura das almas.
  • No Fedro (246b): “Mostrar como é a alma corresponderia a uma exposição absolutamente divina e enorme; dar uma imagem dela corresponde a uma exposição humana e de menores proporções.”

O nome, como misto de orthótes e dynamis, sempre diz menos do que aspira a dizer, e ao buscar seus próprios elementos constitutivos o instrumento se derruba sobre si mesmo, revelando que esses elementos são inefáveis.

  • No Teeteto (201e-202b): “De que chamamos primeiros elementos (stoikheia) não pode oferecer-se razão alguma… desde suas sílabas serão cognoscíveis, expresáveis e aptas para o juízo de uma expressão verdadeira.”
  • Na República (VI-VII, 506b-534c): “Quando a alma fixa sua mirada em objetos sobre os quais brilha a verdade e o ser, pensa, conhece e manifesta ter intelecto. Mas quando olha para o misturado com a escuridão, opina e vê débilmente.”
  • “A ideia do Bem… sendo causa da ciência (epistéme) e da verdade, conceba-a como cognoscível, mas sendo belos ambos, conhecimento e verdade, o Bem é algo distinto e mais belo que eles.”
  • “Ao Bem não só vem dos seres cognoscíveis o ser conhecidos, mas também o ser (to eînai) e a essência (ousía), embora o Bem não seja essência, mas algo que está além da essência em dignidade e potência (epékeina tês ousías presbeía kai dynamei).” (República 508e-509a)
  • No Parmênides (141b-142a), o Uno rigorosamente caracterizado como não-ser carece de nome, definição, ciência, percepção sensível e opinião: “Não se nomeia, não se define, não há opinião dele, não se conhece, nem ser algum tem percepção sensível sua.”
  • O Uno, em si clausurado, é indicado pelo deus Apolo (á-pollos) e só se manifesta através da alteridade, que lhe é alheia, em cujo seio aparecem o nome e a linguagem.

Na Carta Sétima, Platão retoma a paradoja da linguagem e distingue cinco formas de aparição do círculo: nome, definição, imagem, ciência e o círculo em si como arquétipo inteligível.

  • “Em todos os seres se distinguem três elementos que permitem adquirir a ciência deles; esta, a ciência, é o quarto. É necessário colocar em quinto lugar o objeto verdadeiramente cognoscível e real.” (342b)
  • “De nenhuma maneira é algo que se possa dizer (retón oudamós estí) como os outros saberes… estando a menudo em companhia com este objeto, uma vez que surgiu subitamente na alma (exaíphnes…en te psykhé genómenon autó), já cresce por si mesmo, como a luz que começa a iluminar desde a faísca.” (341b-d)
  • “Quando se frotaram cada um deles contra os outros, nome, definições, percepções visuais e impressões, e quando se discutiu com demonstrações amistosas… brilla sobre cada um dos objetos o discernimento (phrónesis) e o intelecto que entende (noûs).” (342e)
  • A atividade dialética aponta para um horizonte de experiência última, secreta (apórretha), indescritível e indizível (árretha), que supera todo saber.

III. ALGUNS TESTEMUNHOS EM DIVERSOS PLANOS DA TRADIÇÃO PLATÔNICA

Plotino faz uso notavelmente menor do Crátilo em comparação com o Timeu, a República, o Parmênides e o Fedro, mas as duas menções que aparecem na “grande tetralogia” contra os gnósticos revelam uma clara linha de interpretação da filosofia platônica da linguagem em sua integridade.

  • Em Enn. III,8 (30), Plotino considera o Intelecto como “satisfação plena” (kóros) segundo a etimologia explicada no Crátilo: “O Uno em absoluto é Intelecto nem satisfação, mas anterior ao Intelecto e à satisfação, porque após Ele está o Intelecto e a satisfação, que necessitam tanto satisfazer-se como pensar.”
  • Em Enn. V,5 (32): “Este que se chama 'o que é' (ón) é o primeiro que, por dizer, avançando desde ali um pouco, não quis já ir mais adiante, mas haviéndose voltado ficou firme em seu interior e chegou a ser essência e lar (hestía) de todas as coisas.”
  • “O Intelecto paterno, que pensa os inteligíveis, semeou símbolos a través do mundo. Também se lhes chama belezas indizíveis.” (Oráculo Caldeu 108)

Numênio de Apamea, lido nas aulas de Plotino, registra uma interpretação próxima ao relacionar o nome “ser” (ón) com a imutabilidade do incorpóreo, citando explicitamente o Crátilo.

  • “O nome de lo incorpóreo é 'essência' (ousía) e 'ser' (ón). A causa do nome de 'ser' obedece ao fato de não nascer nem perecer, nem receber nenhum outro movimento nem mudança… Também Platão disse no Crátilo que os nomes são simples agregados à semelhança das coisas.” (Fr. 6, Numênio de Apamea)

Os Oráculos Caldeus afirmam a potência inefável dos nomes sagrados transmitidos pelos deuses e proíbem sua tradução para outras línguas, posição que Jâmblico de Calcis desenvolve sistematicamente.

  • Oráculo Caldeu 150: “Nunca mudes os nomes estrangeiros (bárbara).” — Pois os nomes transmitidos por Deus têm nos ritos uma potência inefável que se perde com a tradução.
  • O Corpus Hermeticum XVI,2: “A particularidade mesma do som e da própria entonação dos vocábulos egípcios mantém neles mesmos a energia das coisas que se dizem… Os gregos só possuem discursos vazios, bons para produzir demonstrações: simples ruído de palavras.”
  • Jâmblico, na Resposta a Anebo: “Os nomes divinos têm um significado unido aos deuses pelo intelecto, de maneira indizível, melhor e mais simples. É o símbolo intelectivo e divino da semelhança divina o que se deve supor nos nomes.”
  • “Os nomes bárbaros têm maior solenidade, maior concisão e possuem menor ambiguidade e variedade… Por todo isso harmonizam com os seres superiores.”
  • “Se os nomes tivessem sido postos por convenção, não importaria mudá-los; mas se estão estritamente unidos à natureza dos seres, os que se assemelham a essa natureza são certamente os mais gratos aos deuses.” (Jâmblico, VII, 4-5)

Proclo, ajustando-se aos cinco níveis da realidade — Uno, hênadas, Intelecto, alma, cosmos — expõe nos 185 escolios ao Crátilo um material teórico e teúrgico que coincide em termos gerais com suas grandes obras filosóficas, colocando Platão no centro da cena enquanto herdeiro de Orfeu e de Pitágoras.

  • Pitágoras, segundo Proclo: “O mais sábio dos seres é o número; o segundo em sabedoria é o que impõe os nomes às coisas” — referindo-se, respectivamente, à ordem inteligível e à alma que recebe realidade do intelecto. (In Crat. XVI)
  • “O ser lhes vem a todas as coisas do Intelecto que se conhece a si mesmo; receber nome vem da alma, que imita o intelecto. Logo os nomes são por natureza.” (Proclo, In Crat. XVI)
  • “A atividade assimiladora do intelecto demiúrgico é dupla: a que confere realidade ao mundo mirando o modelo inteligível, e a que atribui nomes adequados a cada coisa.” (Proclo, In Crat. LII)
  • “O nome venerável é também o que em um circuito incansável se lança sobre os mundos ao mandamento impetuoso do Pai.” (Oráculo Caldeu 87, citado por Proclo)
  • Para Proclo, o legislador como “senhor da geração dos nomes” é comparável ao arte da telestética — produção de imagens (agálmata) que reúne dialética e teúrgia, permitindo que as obras sejam eficazes. (In Crat. LI)

IV. CONCLUSÃO

A linha do platonismo examinada por García Bazán revela intérpretes que desdobram a universalidade implícita da doutrina onomástica platônica, tornando-a explícita e apta para a compreensão da filosofia como forma de vida filosófica.

  • As censuras dos representantes bárbaros à visão restritiva das especulações gregas eram reconhecidas pelo próprio Platão, que admitia a possibilidade de que a língua primitiva fosse uma língua bárbara: “Nada tem de estranho que, a força de retorcer de todas as maneiras possíveis, resulte que a língua antiga (phoné palaiá) em nada difira da língua bárbara atual.” (Crátilo 421d)
  • O que é inseparável nessa tradição é a unidade entre o que se diz e o meio pelo qual se diz — característica cultivada por uma forma de atividade filosófica que é vida filosófica.
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