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Problema fundamental da filosofia de Plotino

La Philosophie de Plotin - Émile Bréhier

*Capítulo III - O problema fundamental da filosofia de Plotino*

  • União Indissolúvel de Dois Problemas Fundamentais
    • Reconhecimento consensual da coexistência, em Plotino, de duas ordens de questões:
      • Problema religioso: destino da alma, sua restauração ao estado primitivo, via de salvação.
      • Problema filosófico: estrutura racional e explicação da realidade.
    • Tese central: em Plotino, essa distinção é superada. Os dois problemas estão intimamente unidos de forma que a subordinação de um ao outro deixa de ter sentido.
    • Descobrir o princípio das coisas (fim filosófico) é idêntico a alcançar o “fim da viagem” (fim religioso da alma). A demonstração metafísica é simultaneamente um meio de ascensão.
  • Ponto de Partida: A Experiência da Dequada e da Aspiração
    • Sentimento originário de mal-estar e vida diminuída devido ao corpo e às paixões.
      • Corpo como prisão e túmulo; mundo como caverna.
      • Alma humana sujeita ao sofrimento, desejo, medo.
    • Conflito com a convicção da natureza impassível e independente da alma.
    • Experiências pontuais de plenitude (em amantes, músicos, filósofos), especialmente na contemplação intelectual pura, revelam o estado mais essencial da alma.
    • Concepção do mal/vício como adição de um elemento estranho (como lodo no ouro), não como supressão de uma posse.
    • Dualidade de movimentos experimentados: ascensão (recolhimento, evasão) e descida (mergulho no corpo, esquecimento de si).
  • Contexto Religioso e Mentalidade do Período: A Topografia Sagrada
    • O sentimento plotiniano não é isolado; é partilhado e reforçado pelo meio religioso de seu tempo.
    • As religiões de mistério (Isis, Mithra, Hermetismo) partem do mesmo pressuposto: a alma está impura e precisa ser salva, renascida, libertada de elementos inferiores.
    • Para a mentalidade helênica realista, uma transformação interior deve se traduzir em um deslocamento espacial real.
      • Os diversos estados de pureza da alma exigem uma topografia religiosa do universo.
    • Exemplo em Platão (Fédon, República, Fedro): mitos descrevem viagens da alma através de lugares cósmicos associados a graus de perfeição.
    • Diferença crucial: em Platão, o mito tem um vínculo frouxo com a ciência; nos séculos posteriores, o mito absorve a cosmologia. O universo torna-se exclusivamente o teatro da destinação humana.
    • Exemplos da cosmologia a serviço do mito:
      • Numênio: interpretação alegórica e fixação topográfica do mito da República (julgamento no centro do mundo, esfera das fixas, etc.).
      • Mithraísmo: ascensão da alma através das sete esferas planetárias, onde se despoja de paixões recebidas na descida, para atingir o oitavo céu de beatitude.
    • Culto como realização simbólica: os ritos de iniciação (vestir/despir roupas, fórmulas) encenam materialmente os estágios da purificação e da jornada da alma.
  • Plotino no Contexto das Religiões de Mistério: Apropriação e Transposição
    • O sistema plotiniano se desenha sobre este fundo religioso comum. Partilha o ponto de partida e a ligação íntima entre vida interior, concepção do universo e práticas de purificação.
    • Linguagem e simbolismo mistéricos permeiam sua obra:
      • Despojamento dos “vestidos” da descida para ascender ao santuário.
      • O Bem/Belo que permanece no santuário interior (aduton), invisível aos profanos.
      • Referências precisas a ritos (estátuas no naos, visão da luz divina) que remetem, possivelmente, aos mistérios isíacos.
    • Classificação religiosa da realidade: divisão fundamental entre o “aqui” (entautha) do sensível/impuro e o “lá” (ekei) do inteligível/puro, morada originária e destino final da alma.
  • O Caráter Complexo e a Originalidade do Neoplatonismo Plotiniano
    • Plotino não é um mero teólogo mistérico. Sua obra possui um caráter híbrido que a distingue das religiões populares.
    • Conflito inerente ao seu sistema, apontado por Inge:
      • Representação religiosa: hierarquia de valores (puro/impuro, sagrado/profano), com coeficiente positivo ou negativo para a alma.
      • Representação filosófica/racional: cadeia de consequências e princípios, onde todos os elos têm o mesmo valor lógico e direito de existência.
    • Problema fundamental de Plotino: Como o racionalismo pode ter valor religioso? Como a alma pode encontrar seu destino e sentido em um universo regido por leis necessárias da razão?
    • Posição análoga à de Espinosa frente ao cartesianismo: busca da beatitude e da vida eterna dentro de um racionalismo integral.
    • Plotino como pensador que tenta superar o conflito entre uma visão religiosa do mundo (que dá sentido ao destino) e uma visão racionalista (que parece anulá-lo).
  • A Solução Plotiniana: Transformação Recíproca do Mito e da Razão
    • Dupla elaboração para resolver o conflito, tomando Platão como guia:
      • Transformação da imagem mítica da destinação:
        • A sequência de eventos localizados em lugares distintos tende a se tornar uma sequência de démarches necessárias, inscritas na estrutura racional do próprio universo.
        • A jornada da alma não é um acidente, mas a atualização de possibilidades metafísicas hierárquicas.
      • Transformação da noção de saber:
        • O conhecimento (gnôsis) torna-se recolhimento interior.
        • O acento desloca-se dos objetos do saber para as modificações que a alma sofre ao ascender através do mundo inteligível.
        • Conhecer é, simultaneamente, tornar-se semelhante ao conhecido e purificar-se.
    • Síntese resultante: a ascensão religiosa é a compreensão filosófica da estrutura da realidade, e vice-versa. O caminho para o Uno é o exercício da inteligência na sua potência mais alta.
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