Sentidos Particulares
O conhecimento sensível se opera por meio de órgãos corporais, através dos quais a alma entra em relação íntima com os objetos exteriores e estabelece com eles uma espécie de comunidade de afecção.
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A questão levantada é se essa espécie de comunidade de afecção entre os órgãos e os objetos exteriores é um toque imediato.
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Para o sentido do tato a coisa parece evidente, diferentemente da visão e da audição, os dois únicos sentidos sobre os quais Plotino expõe uma teoria expressa.
Um intermediário material entre o objeto e o órgão não é necessário, pelo menos para a visão, pois, se ele for diáfano, não contribuirá para a visão, e, se for obscuro, será um obstáculo, já que a função do olho é ser afetado pela cor.
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Acreditar que um meio é necessário é acreditar que um obstáculo é necessário.
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Toda sensação tem como condição geral que o universo seja simpático a si mesmo; caso contrário, não se poderia explicar como uma coisa participa da potência de outra, especialmente quando está distante.
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A visão se opera em consequência da simpatia entre o órgão sensorial e o objeto; todo meio, portanto, impedirá, atrapalhará ou enfraquecerá esse laço simpático, que se exerce à distância sob a condição de haver continuidade.
A continuidade existe pelo ar, mas o ar é por si mesmo obscuro; quando iluminado, deixa chegar aos olhos as imagens, sem sofrer divisão nem cessar de ser contínuo.
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A visão se assemelha ao tato; ela opera na luz transportando-se de certo modo ao objeto, sem que o meio sofra afecção.
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Para ver, o olho só necessita da luz e não precisa do ar como médium, a menos que se diga que não há luz sem ar, caso em que o ar seria um médium acidental.
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A luz pode existir sem ar; ela não é a qualidade de um sujeito, mas o ato que emana de um sujeito e não passa para outro sujeito; se outro sujeito está presente, ele experimentará uma afecção dessa presença.
A luz, não sendo um corpo nem uma modificação do ar, mas o ato do corpo luminoso, aparece e desaparece com ele; sendo incorpórea, não pode ser afetada pelo objeto visível.
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Se um objeto colocado sobre o olho não é visto, não é por falta de médium, mas porque projeta sobre o órgão a sombra do ar e a sua própria.
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A cor resulta da combinação do ato do corpo luminoso com a matéria obscura; ela não pertence ao ar e subsiste em si mesma, estando o ar apenas presente.
As mesmas explicações podem ser repetidas a respeito do fenômeno da audição, no qual o ar também não é um médium, mas a condição própria do som.
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O ar é necessário para levar o som de perto em perto até o ouvido, mas não é a causa do som enquanto ar.
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Em certos casos, o ar produz sons por suas próprias vibrações, mas só ressoa enquanto corpo sólido e relativamente imóvel, e quando é golpeado por outro corpo.
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Os sons consistem numa sequência de vibrações do ar, diferenciadas e como organizadas, semelhantes a letras traçadas por aquele que fala.
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A alma lê esses caracteres escritos no ar pelo que produz os sons, quando eles se apresentam à potência apropriada para recebê-los.
Há sons inarticulados e sons articulados, que diferem pela ação diferente dos objetos sonantes.
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A percepção do som, como a da cor, supõe uma organização do ouvido em harmonia com a dos objetos; deve haver entre eles uma simpatia, como entre as partes diferentes de um mesmo ser vivo, uno e único, de um único organismo, o que supõe entre as partes um vínculo contínuo.
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Um ser estranho ao mundo, à sua organização e à nossa não saberia sentir nada do que se passa nele, assim como não se poderia sentir nada do que se passasse num mundo cuja organização fosse absolutamente diferente da nossa.
O fato dessa simpatia entre as coisas sensíveis e os sentidos prova a unidade do mundo, que só ela pode produzir.
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Os seres são ao mesmo tempo ativos e passivos porque pertencem a um mundo uno e vivo, onde cada parte experimenta a afecção sentida pelo todo, e onde o todo sente a afecção experimentada por qualquer parte.
É o si mesmo que sente, mas sentir não é a função própria, embora nunca cesse durante a vida.
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Os atos da razão pura são superiores ao si mesmo; os atos da sensação estão abaixo dele.
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Entre esses dois extremos se coloca a potência intermediária, a razão discursiva, que não apenas é do si mesmo, mas é a sua função própria, a parte dominante da alma.
