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Uno

Chaignet: LIVRO

A unidade é o caráter eminente de toda perfeição, confundindo-se com o bem do ser, de modo que todos os seres tendem não apenas a ser, mas ao seu bem-estar, que é a sua unidade.

  • Os seres que não são unos esforçam-se para se tornarem unos na medida de sua potência, e os seres que a natureza aproxima querem ser unos consigo mesmos.
  • Os seres individuais não tendem a se afastar uns dos outros, mas ao contrário, tendem a se unir, e todas as almas gostariam de formar uma só alma.
  • O uno é o ponto de onde tudo parte e para onde tudo se esforça para chegar, sendo a lei universal da natureza observada até nas artes.
  • Todos os seres, não apenas os da natureza, mas também as coisas feitas pelo homem, só são seres pela unidade, e os corpos dos vegetais e animais perdem sua natureza ao perder sua unidade.

A alma e a razão se movem em direção a um fim último e incondicionado, que é o uno, e ao contemplar a unidade das coisas existentes, não se pode duvidar de sua existência real.

  • É necessário que todo ser que é movido tenha um objetivo para o qual seja movido e, a menos que se deixe levar ao infinito, um objetivo último.
  • O princípio uno não é nada das coisas das quais é princípio, sendo superior ao ser, à essência e à vida, de modo que não se pode afirmar nada dele.

O uno não é a alma, pois a alma é múltipla pela pluralidade de suas partes e funções, nem é a razão, que é múltipla por seus atributos e contém a diferença e o movimento.

  • A unidade na alma é imperfeita e contingente, e a razão, embora possua a forma do uno, não é o uno mesmo.
  • A razão aspira ao bem e se move em direção ao uno, pois ela é o mundo inteligível, e porque possuímos a razão, cada um de nós é também um mundo inteligível.
  • A razão não pode existir se não existir a essência puramente inteligível, na qual o dualismo do objeto pensado e do sujeito pensante se apaga e desaparece.
  • O pensamento é um olho dado aos cegos, e a luz não busca a luz, de modo que a essência suprema não pensa.

É necessário que exista um princípio superior e anterior à razão, que a explique e no qual todos os outros seres tenham sua raiz e princípio.

  • O ser tem um princípio, que é o uno, mas o uno não tem princípio nem repousa sobre o ser, pois o ser seria uno antes de participar do uno.
  • O ser é o número envolvido na unidade, mas a pluralidade é posterior à unidade que a engendra, de modo que deve haver algo além e acima do ser e do pensamento.
  • A razão que afirma que um objeto é uno é, antes dessa afirmação, um ser uno, e o objeto do qual ela afirma a unidade é igualmente uno antes da afirmação da razão.

A existência do uno é necessária, pois não se conceberia que aquilo sem o qual nada se pode afirmar, nada se pode conceber, não tivesse nenhuma forma de existência.

  • A natureza do uno é difícil de conceber e talvez impossível de definir, mas concebe-se muito claramente que ele existe e existe necessariamente.
  • A existência de Deus, do bem soberano, é atestada pela consciência através do desejo ardente com que nos voltamos para ele, acompanhado de uma dor que nasce do que nos falta.
  • Concebe-se o uno como existente porque ele está em nós, pois não há outro meio de conhecer as coisas senão por um contato.

A razão possui sempre a ideia da justiça e da beleza, tendo necessariamente um princípio e uma causa distinta dela mesma, mas não separada dela por sua essência.

  • Sabe-se disso porque se toca esse princípio que está em nós, estando em contato imediato com ele, suspensos, fundados e sendo nele.
  • Não há intermediário entre o uno e a razão, nem entre a razão e a alma; a razão é o verbo e o ato do uno, como a alma é o verbo e o ato da razão.
  • A consciência do divino em nós nos chega quando, por um ato pessoal de razão, fé, vontade e amor, nos dirigimos para ele.

A razão tem consciência de que sua potência não vem dela mesma, mas do uno, vendo que sua essência é uma parte das coisas que pertencem ao uno e dele procedem.

  • A razão vê que, sendo ela mesma divisível, retém do uno o que nela é indivisível e tudo o que possui, a vida e o pensamento.
  • Se nada se pode afirmar do uno (nem o ser, nem o pensamento, nem a vida), não é porque ele não os possua, mas porque está acima disso, sendo tudo isso em sua fonte, em seu grau eminente e formal.

A visão do bem ou do uno é a operação de um ser que já quis vê-lo, e essa vontade, como uma espécie de paixão amorosa, supõe na alma uma posse anterior do objeto amado.

  • A vontade de ver o uno supõe uma visão obscura, mas real, do esplendor de sua beleza, que não pode nascer na alma se ela já não realizou em si a unidade.
  • O uno está presente sem estar presente, de uma presença que não impede o objeto de estar alhures e em toda parte ao mesmo tempo.

O uno não é múltiplo nem em sua essência nem em seu ato, pois deve preexistir ao múltiplo, que tem nele a razão de sua existência.

  • Sem o uno, todas as coisas estariam dispersas, não seriam mais unas consigo mesmas, e suas combinações seriam apenas um caos.
  • O pensamento é inferior ao uno porque é um algo de uno, enquanto o uno é a unidade sem o algo, sendo portanto inefável.
  • Não se pode nomear o uno porque não se tem nem um conhecimento nem um pensamento dele, podendo-se dizer apenas o que ele não é, mas não o que ele é.

O uno está em nós, em cada um de nós, pelo menos uma imagem dele, uma potência de mesma natureza, e a consciência no-la revela.

  • Às vezes, o homem, furtando-se aos pensamentos do mundo exterior e concentrando-se em si mesmo, reconhece em si uma beleza, uma excelência de vida, e se eleva a um ato que o transporta acima de todos os inteligíveis e o une ao inteligível supremo.
  • Deve-se crer que se viu o uno quando uma luz súbita ilumina as profundezas da alma, pois essa luz vem dele, é ele.
  • O mundo contém três naturezas, três hipóstases divinas (a alma, a razão e o uno), que se reencontram em nós, sendo a mais divina delas o uno, o bem ou Deus.

Deus está presente em cada um de nós sem deixar de ser todo inteiro em si mesmo, estando em toda parte e ao mesmo tempo em nenhum lugar.

  • Deus não é nenhuma das coisas nem sua totalidade, porque é anterior a todas; todas as coisas existem por ele porque ele está em toda parte, e diferem dele porque ele não está em nenhum lugar.
  • Possuem-se princípios tão elevados, que fazem da natureza inteligível algo de divino, sem o saber, porque, aplicados com mais frequência às coisas sensíveis, não se volta sobre si mesmo, sobre a alma que constitui o ser verdadeiro.

A razão, nos momentos de intuição intelectual e meditação intensa, se confunde quase com o uno em nós, elevando-se acima de si mesma e absorvendo-se imóvel na contemplação de seu objeto.

  • Parece que a razão se duplica, havendo a partir desse esforço para contemplar o uno duas partes nela, uma das quais não é mais razão, mas está acima da razão.
  • Quando Deus vem à alma e manifesta sua presença nela, ela se desprende de todo o resto, vendo-o aparecer de repente, sem separação nem dualidade, de modo que ambos não fazem mais do que um.
  • A razão tem então duas potências: uma pela qual vê o que está nela, outra pela qual percebe o que está acima dela, precipitando-se sobre seu objeto e recebendo-o em si.

Eleva-se primeiramente ao ser, depois às formas inteligíveis que vêm imediatamente abaixo dele, pensando-as sem necessidade de imagens nem de formas sensíveis, porque se é precisamente esses seres.

  • Se se pode voltar-se exclusiva e absolutamente para aquele ao qual se está ligado, ver-se-á que se é Deus e o universal, que não se tem nenhum meio de se limitar em alguma parte, de determinar por limites a natureza, de se distinguir do universal.
  • A primeira condição do conhecimento de Deus é o conhecimento de si mesmo; é preciso conhecer-se a si mesmo para saber de onde se vem e para onde se deve ir.

A vida é movimento, um movimento de circulação eterna, devendo, portanto, proceder de algo que não seja arrastado nesse movimento, mas que seja seu princípio.

  • O princípio não é nem a totalidade das coisas nem uma delas, para poder engendrá-las todas; ele não é e não pode ser senão a potência de todas as coisas.
  • A potência do uno não é passiva como a matéria, mas criadora, ativa; a causa da vida está acima da vida, e o ato da vida, sendo todas as coisas, não é primeiro.
  • O ato da vida se derrama como de uma fonte que não tem outro princípio senão ela mesma, que se dá aos rios que engendra sem se esgotar neles, permanecendo ela mesma e inteira.

O princípio não se divide no todo que engendra; se se dividisse, o todo seria destruído, pois não seria mais uno, nem mesmo nasceria.

  • Todas as coisas retornam ao uno, entram de graus em graus no absolutamente uno, que não se pode mais reduzir a um princípio mais simples.
  • No vegetal, no animal, na alma, na razão, no todo, o uno é a potência soberana e primeira, a raiz da razão e a fonte de toda vida, a causa do causante, a causa soberana.

Em Deus, o ato e a essência sendo idênticos, não se pode dizer que ele obedece à sua natureza ao criar, pois ele é livre.

  • Tudo o que tem um limite, uma forma, uma espécie (sendo conforme à lei da ordem ou da razão) não pode ter o acaso por causa.
  • Deus é o que é porque, sendo o que é, é perfeito; não está submetido à necessidade, mas é para os outros seres a necessidade.
  • Ele não tem forma inteligível, nem qualidade, nem quantidade; não é relativo a nada, pois subsiste em si mesmo e existiu antes de todas as coisas.
  • Ele é senhor de si, não porque um outro o teria querido, mas tal como ele se quer a si mesmo, livre, porque sua essência e ele não fazem mais do que um.

A primeira hipóstase (o uno) consiste em uma espécie de razão, estando ao mesmo tempo debruçada sobre si mesma e imanente a si mesma.

  • Seu ato é uma supra-intelecção eterna, superior à vida e à razão, ou seja, ele é uma vida e uma razão superiores.
  • Tudo o que a análise psicológica fez reconhecer na razão existe também no uno, mas de uma maneira superior.
  • O uno é o arquétipo da razão que gira em torno dele e é sua imagem, ou seja, sua obra; ele é o fora porque abraça tudo e é a medida de tudo, e o dentro porque é a profundeza mais íntima das coisas.

A razão é a mais bela das coisas, e aquele que a engendrou é o objeto amável e o amor, o amor de si mesmo, pois ele não é belo senão por si mesmo e em si mesmo.

  • Todos os seres chegados ao acabamento de sua natureza criam um outro ser e não repousam em si mesmos, imitando o Primeiro, que não pode, como um Deus ciumento, encerrar-se em si mesmo.
  • Ele engendra, pois, permanecendo em seu estado imutável de perfeição absoluta; o ato de sua essência, a criação, é necessária.

Os dois aspectos sob os quais Deus se apresenta de maneira mais manifesta e mais poderosa são o belo e o bem, sendo o bem anterior e superior ao belo.

  • A concepção do belo supõe um ato de conhecimento e é acompanhada de uma espécie de estupor; o prazer que ele causa é misturado de sofrimento porque faz nascer desejos e desperta o amor.
  • O bem não precisa, para ser visto, nem de conhecimento anterior, nem de reminiscência, nem de atenção; o desejo que ele provoca é imanente, não se dirige jamais aos sentidos, e é um fim que satisfaz plenamente.
  • Quando se dividem o bem e o belo para compreender a dignidade superior do bem, não se trata mais do belo primeiro, do belo supremo, acima mesmo da beleza inteligível que ele produz.

O uno, potência de tudo, tem em potência a pluralidade, mas essa pluralidade não lhe vem de um princípio exterior e estranho: ela lhe vem de si mesmo e ele a tira de si mesmo, sendo a multiplicidade infinita.

  • É uma vida infinita e una, infinita em seu fundo mais íntimo, pois não há matéria na vida infinita e universal.
  • Fonte de toda vida, essa vida é eterna, indefectível, inesgotável: uma vida que ferve e que em sua fervura transborda.

Se alguém se apega a ver o uno e a não ver senão ele e ele todo inteiro, se renuncia à sua individualidade, torna-se universal e aumenta, incha sua natureza.

  • Esse Deus único e uno é aquele para o qual se voltam todos os povos da terra, a própria terra e o céu; aquele por quem e em quem o mundo subsiste, de quem dependem todos os seres inteligíveis, até a alma.
  • Ele é onipresente não porque desça nas coisas, mas porque todas as coisas vêm suspender-se nele, atraídas pelo amor que excita nelas sua beleza.

Todos os homens, movidos por um sentimento espontâneo, proclamam que Deus está presente em cada um de nós, que ele é um, idêntico a si mesmo e único.

  • Esse acordo universal da humanidade é o princípio e a prova mais sólida dessa convicção, pois essa crença se escapa do fundo das almas, que a afirmam e a exprimem involuntariamente.
  • O grande caráter psicológico do bem em nós é que ele nos satisfaz plenamente, não nos faz jamais experimentar por sua posse arrependimentos ou remorsos, e repousamos nele absolutamente sem procurar mais nada além dele.
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