PODER DA PALAVRA EM ARISTÓTELES
Pedro Lain Entralgo, «La curación por la palabra»
A parte mais relevante do legado médico de Platão — sua concepção pessoal da psicoterapia verbal — não foi assimilada pelos continuadores de Hipócrates na segunda metade do século IV, sendo provável que a desconhecessem inteiramente.
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Diocles de Caristo ocupa posição singular em face desse legado, o que é objeto de comentário nas páginas finais da obra.
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A questão central do capítulo é saber se Aristóteles, ao mesmo tempo máximo herdeiro e máximo contradictor de Platão, soube recolher aquele legado.
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A tradição intelectual se constitui pela obra dos que, sabendo herdar, sabem também contradizer — e a esse linhagem pertenceu, de modo eminente, o filósofo de Estagira.
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A resposta à questão é dupla: não, porque a obra aristotélica que chegou até a posteridade não menciona a psicoterapia verbal senão para aludir de passagem à prática de encantamentos mágicos; e sim, porque Aristóteles leva a extrema precisão o pensamento platônico sobre a operação da palavra, valendo-se do saber médico como recurso principal nessa empresa intelectual.
Platão havia ensinado que a palavra comunicativa pode adotar duas formas distintas — o logos dialético e o logos mítico —, produzindo em consequência dois efeitos psicológicos diferentes.
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O logos dialético, por meio de raciocínios convincentes, força ao conhecimento e ao reconhecimento da verdade.
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O logos mítico, valendo-se da persuasão, é capaz de suscitar crenças e mover à aceitação resoluta do que com ele se diz.
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O logos mítico seria preâmbulo do dialético quando a verdade buscada é acessível à razão, e seu sucedâneo quando não o é.
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Uma parte considerável da obra aristotélica resulta de elaborar genial e sistematicamente essa discriminação platônica.
Os escritos que compõem o Organon — Categorias, Analíticos, Tópicos, Sobre a interpretação, Sobre as refutações sofísticas — constituem um tratado acerca do logos dialético, cujo exercício recebe o nome técnico de lógica.
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A forma principal do logos dialético é o silogismo propriamente dito ou silogismo lógico, cujo fim é o convencimento e a convicção do ouvinte, e cuja matéria é a verdade necessária ou convincente que se impõe inexoravelmente à inteligência.
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Um silogismo lógico bem construído deixa quem o ouve convencido e convicto, independentemente de suas peculiaridades pessoais; inversamente, toda convicção racional pode ser expressa por meio de um silogismo lógico.
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Discípulo de Platão, Aristóteles sabe que a palavra humana pode persuadir além de convencer, razão pela qual, ao lado do logos dialético, existe complementarmente um logos retórico ensinado pela arte retórica.
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O silogismo retórico — o entimema, cujo próprio nome, composto de “em” e “ânimo”, indica que sua operação psicológica é mais “cordial” do que “cerebral” — orienta-se mais para a afetividade do que para a inteligência.
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A Retórica de Aristóteles, ponto culminante do caminho jalonado por Córax e Tísias, Górgias e o Fedro platônico, é o tratado técnico da palavra persuasiva.
A preocupação aristotélica com a persuasão verbal não se encerra na Retórica, estando presente também em páginas da Ética a Nicômaco, da Política e em quase toda a Poética, onde se coloca o velho e nunca resolvido problema da katharsis mencionado na famosa definição da tragédia.
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Toda obra literária, enquanto palavra comunicada a outro, persegue persuadir de algo; e o gênero teatral é o que cumpre essa função de modo mais direto.
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O capítulo se propõe expor e interpretar o pensamento aristotélico sobre o poder persuasivo da palavra, estudando sucessivamente a doutrina da persuasão contida na Retórica e a ação catártica da tragédia mencionada na Poética.
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Ambas as pesquisas se encontram em conexão essencial com o tema central da obra: a cura pela palavra.
A Retórica de Aristóteles nasce de um propósito ao mesmo tempo platônico e antiplatônico, herdando o pensamento do Fedro, do Filebo e das Leis para dar cumprimento ao projeto de uma arte retórica que seja verdadeira técnica e verdadeira ciência — conforme o Político (304c-d) — mas afastando-se do mestre em dois pontos graves, um de caráter moral e outro de índole lógica.
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Para ser verdadeira técnica, a retórica deve distanciar-se da moral: segundo M. Dufour, sua regra “não é, evidentemente, o imoralismo, a subversão contra a moral recebida, mas o amoralismo, a indiferença provisória frente ao imperativo”.
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O orador deve ser tecnicamente capaz de persuadir de uma coisa e de sua contrária (Ret., I, 1, 1355, a 30), mas não para praticar uma e outra, “pois do mal não se deve persuadir, mas para que não nos passe despercebido como é o mal, e para que quando outro use as mesmas razões, possamos desfazê-las” (I, 1, 1355, a 31-34).
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Frente à prevenção platônica contra a opinião, Aristóteles descobre que também do verossímil cabe ciência, e que essa ciência é precisamente a retórica, cujas premissas são as opiniões correntes e as noções comuns.
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A condição moral da destreza retórica é decidida pela intenção do orador: “a sofística não consiste em faculdade, mas em intenção” (I, 1, 1355, b 18).
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Conforme A. Tovar, “Aristóteles aceita em definitivo que a retórica não persegue só fazer ver, mas que lhe é lícito também conduzir as almas, para o que há que estudar o caráter e as paixões. E com isso logra, ao aperfeiçoar a dialética e ao mesmo tempo transigir com as posições sofísticas tradicionais na retórica, uma verdadeira síntese em que sofística e platonismo se confundem.”
Para Aristóteles, a retórica é “a faculdade de considerar em cada caso o que nele pode ser próprio para persuadir” (I, 2, 1355, b 25), definição que a coloca em paralelo com a medicina, pois a missão desta não é sanar em absoluto, mas averiguar como e até que ponto é sanável cada enfermo (I, 1, 1355, b 10-15).
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A retórica, diferentemente das demais artes que têm matéria particular e bem determinada — a medicina trata da saúde e da doença; a geometria, das propriedades da magnitude; a aritmética, do número —, tem como objeto a persuasão acerca de qualquer coisa dada em que seja possível persuadir (I, 2, 1355, b 32-35).
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Se o estado de enfermidade é em alguma medida modificável pela persuasão, não se pode negar a existência de um gênero terapêutico ou curativo no corpo da retórica.
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Os três gêneros que Aristóteles distingue são o deliberativo ou político — cujo fim é o conveniente ou o prejudicial, e cujo ouvinte está psicologicamente orientado para o futuro —, o judicial ou forense — que contempla o passado e tem por fim o justo ou o injusto —, e o demonstrativo ou epidítico — voltado ao presente, cujo fim é o belo ou o feio.
Os predecessores de Aristóteles, atentos sobretudo ao gênero judicial, abandonaram o cultivo dos outros dois — o deliberativo e o epidítico —, mas Górgias, Antifonte e Platão haviam iniciado a edificação de um quarto gênero, o terapêutico ou curativo, nunca nomeado pelo filósofo.
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A questão que se coloca é se na Retórica aristotélica é possível descobrir o espaço vazio desse quarto gênero não nascido do dizer persuasivo, e se em Aristóteles houve, de forma larvada, um teórico da psicoterapia verbal.
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O gênero terapêutico mais se aproxima do deliberativo, cujo fim principal é “o conveniente” — termo empregado repetidamente no Corpus Hippocraticum quase como termo técnico para designar o critério supremo da ação terapêutica.
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A persuasão deliberativa tem como objeto o possível que depende dos homens e em cujo princípio de realização consiste o próprio agir humano (I, 4, 1359, a 38); Virchow escreveu que “a política é medicina em grande” — e do ponto de vista do parentesco entre persuasão terapêutica e deliberativa, poder-se-ia dizer, aristotelicamente, que a medicina é política em pequeno.
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A saúde se encontra entre os bens que para Aristóteles integram “o conveniente” (I, 6, 1362, b 14).
A arte do orador, segundo a Retórica, consiste em utilizar habilmente as três provas técnicas cardinais: o caráter de quem fala, a disposição do ouvinte e o que com o discurso se diz (I, 2, 1356, a 1-5).
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O caráter do orador é “quase a principal das provas suasórias” (I, 2, 1356, a 13), especialmente na oratória deliberativa, pois “cremos segundo como parece ser o que fala, isto é, se parece ser bom ou bem-intencionado ou ambas as coisas” (I, 8, 1366, a 10-12).
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Esse caráter depende não só das condições naturais do orador, mas dos hábitos morais adquiridos — probidade, prudência, virtude, benevolência — e da relação que se estabelece com os ouvintes: “importa muito para a persuasão, sobretudo na oratória deliberativa…, como se apresenta o orador e o que os ouvintes suponham que está em certa disposição acerca deles, e além disso, se eles estão de algum modo dispostos com relação a ele” (II, 1, 1377, a 25-29).
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Em ocasiões, por estarem mais próximos de seu auditório, oradores ignorantes são mais persuasivos do que os muito doutos e rebuscados (II, 22, 1395, b 27-32).
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Tudo isso se repete com impressionante paralelismo na relação entre o médico e o enfermo: o caráter do terapeuta — suas condições naturais, hábitos, virtudes adquiridas e prestígio — tem considerável importância na eficácia de suas prescrições, segundo vários escritos hipocráticos: o Prognóstico, A lei, Sobre o médico, Sobre a decência.
A disposição do ouvinte é igualmente decisiva para a eficácia da persuasão retórica, tendo Platão já ensinado no Fedro (271a-272b) que o orador deve atentar nos vários aspectos das almas de quem o ouve.
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Aristóteles denomina disposição a ocasional disposição da alma em cada um de seus possíveis aspectos — mais tarde Galeno dirá que a enfermidade é “disposição preternatural” de quem a padece —, determinada pelas paixões e pelos caracteres (idade, fortuna, hábitos viciosos e virtuosos) dos ouvintes.
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A persuasão se produz nos ouvintes “quando são arrastados a uma paixão pelo discurso, pois não são iguais nossos juízos com pena que com alegria, com amizade que com ódio” (I, 2, 1356, a 15-16).
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Segundo Heidegger, “não é um acaso que a primeira interpretação sistematicamente elaborada dos afetos não tenha sido exposta no quadro da Psicologia. Aristóteles investiga as páthe no livro segundo da Retórica” (Sein und Zeit, 4ª ed., Halle, 1935, pág. 186).
As paixões são, do ponto de vista da retórica, “aquilo pelo que os homens mudam e diferem para julgar, e às quais seguem a pena e o prazer; tais são a ira, a compaixão, o temor e as demais semelhantes, e suas contrárias” (II, 1, 1378, a 22-24).
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A Ética a Nicômaco afirma que a paixão é um movimento e uma alteração no ser do homem (1105, b 19 ss.); o tratado Da alma sublinha a essencial participação do corpo nessa alteração (De an., 403, a 16 ss.).
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Mais que um simples estado afetivo, o pathos é para Aristóteles uma mudança mais ou menos fugaz no ser de quem o experimenta, à qual pertencem simultaneamente uma modificação do corpo e outra no modo de julgar e opinar.
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Para suscitar, extinguir ou modificar uma paixão, o orador deve ter em conta quatro dados: a peculiar disposição da alma em cada uma das paixões, as pessoas diante das quais cada paixão costuma experimentar-se, as ocasiões em que cada paixão mais frequentemente sobrevém e os diversos caracteres do auditório segundo idade, virtudes, vícios e fortuna (II, 1, 1377, b 24-27, e II, 12, 1388, b 32 — 1389, a 2).
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Aristóteles anota ainda acerca do temor: “tampouco temem os que já creem que lhes ocorreu o pior e estão frios ante o futuro…; pois para temer é preciso que reste alguma esperança de salvação sobre aquilo que nos angustia” (II, 5, 1383, a 3-6).
O elemento decisivo entre as três provas técnicas é sempre o que o discurso diz, pois “pelo discurso creem os ouvintes, quando com ele mostramos a verdade ou o que parece verdade, segundo o que seja persuasível em cada caso particular” (I, 2, 1356, a 20-21).
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Aristóteles foi o inventor da disciplina hoje chamada lógica, e sua contribuição central à retórica consiste em toda uma série de formas de raciocínio: o entimema — silogismo de probabilidade ou silogismo retórico —, o exemplo — modo retórico da indução —, a sentença — asserção acerca do que pode ser escolhido ou evitado ao agir —, e a adução de tópicos ou lugares comuns, além de um estudo atento da elocução oratória e da forma do discurso (livro III).
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Entimemas, exemplos, sentenças, tópicos, boa locução e boa composição constituem o mais importante no elenco de recursos utilizados pela psicoterapia verbal: como Mr. Jourdain com a prosa, o psicoterapeuta faz retórica aristotélica sem o saber — o que um análise retórica de qualquer das histórias clínicas de Freud demonstraria com clareza.
Aristóteles compreende o mecanismo da transformação psicológica produzida pela palavra persuasiva mediante cinco conceitos principais: caráter, disposição, paixão, opinião e crença.
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No encontro retórico — o do orador com seu ouvinte — colocam-se em mútua conexão dois caracteres, o de quem fala e o de quem escuta; como consequência desse contato, o alma e o caráter do ouvinte adotam uma determinada disposição, à qual pertencem tais ou quais paixões.
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Atuando sobre as paixões com os recursos de sua arte, o orador as modifica conforme os fins a que seu discurso está ordenado; e por obra da influência que a paixão exerce sobre o modo de ver e julgar as coisas, vai suscitando no ouvinte opiniões novas ou uma mudança das opiniões preexistentes.
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Persuadir-se é, ao cabo, crer: no alma do ouvinte vão aparecendo crenças novas, modificando-se crenças antigas ou entrando em vigor crenças adormecidas — e tem parte decisiva nisso o esclarecimento que a própria alma do ouvinte ganha acerca de si mesma, descobrindo zonas de sua própria vida cuja existência não suspeitava antes.
Se a intenção do orador é honesta e se atém ao que pedem a natureza da arte e a natureza do homem, seus fins não podem ser outros que a verdade, o bem e a felicidade.
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A natureza da arte o exige porque “sempre o verdadeiro e o bom são naturalmente de raciocínio melhor tramado e mais persuasivo” (I, 1, 1355, a 37-39).
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A natureza do homem o exige porque a felicidade “é o objeto em vista do qual cada homem em particular e todos em comum escolhem ou repudiam”, razão pela qual “as persuasões e as dissuasões são sempre acerca da felicidade e das coisas que a ela tendem ou de seus contrários” (I, 5, 1360, b 4-11).
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A temperança que tinha como meta o belo discurso de Sócrates no Cármides platônico não parece distanciar-se muito da felicidade que o discurso segundo a arte deve produzir, conforme a Retórica de Aristóteles.
O que Aristóteles diz da persuasão deliberativa, demonstrativa e judicial pode ser transposto diretamente à persuasão terapêutica, tornando legítima a adição de um quarto gênero ao corpo da Retórica.
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No encontro psicoterapêutico produz-se igualmente um choque mais ou menos harmonioso entre o caráter do médico e o do paciente; neste e em sua disposição — que recebe agora o nome de enfermidade — predominam tais ou quais paixões; o psicoterapeuta procura modificá-las conforme os fins que em cada sessão se proponha.
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O tratamento médico vai suscitando no enfermo opiniões e crenças novas, ao mesmo tempo que o esclarece e ilumina acerca de si mesmo.
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A felicidade — agora sob a forma de saúde, uma das partes da eudaimonia (I, 5, 1361, b 3-7) — é o fim a que a cura se ordena.
