autores:existe-apenas-o-um
Existe apenas o Um (Hixon)
Lex Hixon, O Retorno à Origem
PLOTINO E A METAFÍSICA DA BUSCA ESPIRITUAL
- Plotino como Síntese da Tradição Espiritual Ocidental e Oriental
- Figura do século III d.C. que apresenta talvez a mais coerente metafísica espiritual das tradições ocidental e oriental.
- Sabedoria e prática contemplativa derivadas de pitagóricos, Sócrates e cultura grega tardia, atingindo pensamento místico europeu.
- Influência na linhagem neoplatônica, sancionada por místicos cristãos e filósofos transcendentais ocidentais (ex: Heidegger).
- Desenvolvimento completo de questões abordadas por Platão sobre busca espiritual e Realidade Suprema.
- Contexto Iniciático: Plotino e Amônio Sacas
- Plotino não foi apenas pensador independente, mas iniciado disciplinado na tradição contemplativa personificada por seu professor, Amônio Sacas.
- Aos 27 anos, em Alexandria, busca um professor autêntico que fosse guia espiritual e mantivesse altos padrões intelectuais.
- Amônio, figura enigmática à maneira de Sócrates, nada escreveu, mas personificou a interpretação esotérica do pensamento de Platão, florescente no caldo cultural alexandrino (judaísmo, cristianismo, gnosticismo grego).
- Neoplatonismo desenvolvido independentemente da espiritualidade indiana, como florescimento místico do Caminho grego.
- Natureza do Um: Poder Primordial e Inefável
- O Um não é abstração, nem Absoluto vazio ou estático.
- É o Poder extremamente simples, repleto de potencialidade, que gera a Existência e seus vários planos.
- Geração não física ou psíquica, mas como princípio matemático que gera uma série de números, porém vivo e radiante.
- Existência não é unidimensional, mas emanação simultânea de seres em múltiplos planos, cada um expressando em tom metafísico diferente a força única do Um.
- O Um está mais vivo que a energia vital dos seres orgânicos, que são Suas emanações menos primordiais.
- Referido também como o Bem, base de toda preocupação humana com valor, mas não objeto do pensamento racional.
- Realidade espiritual percebida diretamente como natureza intrínseca de todos os seres e planos de Existência.
- O Um como Amor e a Via Negativa
- Referido como Amor, embora não possua individualidade; não é o Deus pessoal (este é a Alma Cósmica, emanação do Um).
- Totalmente primário, mais que a própria Existência.
- Impossibilidade de afirmações literais: por assim dizer deve ser compreendido em cada termo.
- Introdução da via negativa na teologia mística ocidental: afirmar apenas o que o Divino não é.
- Avanço na via negativa: chama o Um de aquilo que não existe.
- Excessivamente simples para expressar qualquer condição de existência ou possuir qualidades, embora estas emanem d'Ele.
- Não causado por força alguma, nem por Si mesmo; impossível de objetivar.
- Ensinamento: pode-se chamá-lo de Um desde que se lembre que Ele não possui o atributo da unidade.
- Acesso pelo Intelecto (Nous) e a Visão Intelectual
- Não se deve investigar o Um, mas simplesmente tocá-lo no intelecto.
- Intelecto (nous) não é pensamento gradual ou investigação racional, mas a dimensão permanentemente iluminada da consciência humana que opera por intuição imediata.
- Modo misterioso de conhecimento que prefigura conjuntos, não investiga partes.
- Através do intelecto iluminado, tocamos o Um, princípio de toda globalidade.
- Linguagem não precisa desaparecer totalmente, mas termos não devem ser tomados como literais ou restritivos.
- Visão intelectual comparável à experiência Zen da Iluminação repentina, penetração imediata na natureza intrínseca da consciência.
- Rejeição da Separação e Imanência Absoluta
- Rejeição de abordagens baseadas no pensamento usual, que tendem a separar do Supremo.
- Crítica à ideia de que o Um está distante (espiritual ou espacialmente), como um estranho a ser alcançado.
- Esquece-se que o poder absoluto do Um inclui a imanência absoluta (onipresença).
- O Um está aqui e agora, não é estranho nem outro, mas a própria natureza do que somos.
- Existência mundana como nosso lugar imaginário, pois não estamos fundamentalmente situados no espaço.
- Emanação dos Três Planos Principais de Existência
- O Um transborda espontaneamente (verbos: transbordar, emanar, proceder) como vários planos de Existência, processo intemporal e metafísico.
- Três esferas principais:
1. Esfera da Visão Intelectual: Nível mais primário/elevado. Sem universo físico, apenas Arquétipos (sementes vibrantes, quase musicais) que se interpenetram harmonicamente, livres de tempo e espaço. Atividade intrínseca de louvar o Um.
2. **Esfera da Alma**: Segundo plano inferior. Surgem **almas individuais** em comunhão, vida transcendental, eterna contemplação do Um. Ainda sem universo físico.
3. **Esfera da Vida**: Terceira emanação, onde Existência começa a se dissipar na sombra da **não-existência**. Universo físico e formas de vida se configuram como interseção da Existência com a não-existência. Seres conscientes são raios da Esfera da Alma convergindo em estruturas biológicas.
* A Esfera da Alma **abrange** a Esfera da Vida; vida orgânica não existe fora da Alma.
- Compreensão da Emanação como Movimento para Dentro e Abrangência
- Marcha da Existência pode ser imaginada como movimento do centro para fora (anéis de árvore), mas compreendida mais precisamente como emanação para dentro, em direção ao ponto de desaparecimento na não-existência.
- O Um abrange Suas emanações.
- Universo físico é a emanação mais restrita do Um, mais próxima da não-existência, mas ainda é emanação d'Ele.
- Formas de vida se voltam naturalmente para contemplar sua Origem (expresso na evolução e na busca mística).
- Relação Alma-Corpo e Inversão da Perspectiva Científica Moderna
- Alma não está dentro do universo ou do corpo; o universo está dentro da Alma. Corpo não é lugar para a Alma.
- Analogamente, todos os fenômenos estão dentro do Um (Consciência Suprema).
- Crítica ao mito científico moderno: consciência não é produto da evolução física.
- Realidade primária é a Consciência (o Um), dentro da qual se desenvolvem planos de Existência, inclusive o universo físico e as estruturas biológicas que O expressam.
- Necessidade de mudança de perspectiva: a Consciência (que somos) contém galáxias, como a mente contém pensamentos.
- Encarnação como Manifestação sem Descida Espacial
- Quando a alma encarna, não há descida espacial da Esfera da Alma, nem contração num sistema nervoso, pois a alma não é espacial.
- Nossas almas vivem agora e sempre em planos de Existência mais elevados/primordiais.
- Planos superiores não possuem multiplicidade espacial, apenas multiplicidade não-espacial e omnipenetrante dos Arquétipos, que fornecem princípios singulares a cada alma.
- Manifestação no plano físico: o Arquétipo (como Mãe) dá à luz uma criança/raio de alma que se identifica com um corpo-mente particular.
- Quando a criança (ser humano) se desenvolve e compreende sua natureza como o Um, o Arquétipo retorna à Sua Vida universal, na qual a alma agora participa totalmente.
- Ser humano Iluminado desenvolve consciência no nível do Arquétipo (Forma Divina).
- Cadeia Contemplativa e Proximidade Absoluta do Um
- A alma contempla seu Arquétipo; o Arquétipo contempla o Um.
- O Um é a natureza intrínseca de todo o curso da Existência.
- Corpo-mente está na alma, alma está no Arquétipo, Arquétipo está no Um, mas o Um não está situado em realidade mais abrangente.
- O Um não está em absolutamente nada e, portanto, em lugar nenhum. Não está longe de coisa alguma, embora não esteja em nada.
- Por não estar situado, não pode ser separado por espaço físico ou psíquico. Totalmente próximo e acessível.
- Poder Ilimitado e Natureza Não-Causal do Um
- O Um expressa poder ilimitado (fertilidade metafísica de horizontes eternamente em expansão), não poder físico/psíquico.
- Processo cósmico de criação de energia/matéria é a menor fibra desse poder.
- Poder não possui objeto nem direção.
- Transbordamento é intrinsecamente apenas o Um. O Um não está consciente de ter transbordado.
- Distinção da noção indiana de maya: para Plotino, as esferas primordiais da Existência (interpenetração arquetípica) são completamente reais, pois são o Um.
- As esferas de Existência não podem ser recolhidas, pois o Um é superabundância de Poder.
- Embora o Um emane inevitavelmente como Existência, não pode ser definido por ela, nem limitado a ela. Contudo, os seres não são separados d'Ele: …é pelo Um que todos os seres são seres.
- O Um além do Pensamento e da Consciência de Si
- O Um não é pensar; não há diversidade n'Ele para pensar.
- Não existem possibilidades para o Um; a noção de infinitas possibilidades é limitante.
- Não se deve falar em sua própria presença. O Um não tem consciência de Si Mesmo, pois não há nada sobre o que refletir.
- As esferas da Existência não são vivenciadas pelo Um como diferentes de Si Mesmo.
- Diversidade/separção só é vivenciada por seres na esfera física, devido à interação Existência/não-existência.
- O Um não é um ser pensante, mas simplesmente consciência (consciência que não pensa).
- Consciência primordial não é consciência de, mas Consciência sem objeto ou sujeito.
- Essa simplicidade não é estéril: o Um é a riqueza que se articula em nossa consciência relativa como pensar e amar.
- Linguagem Figurativa e a Observação Intuitiva de Si Mesmo
- Plotino sempre fala em termos figurativos, pois nada pode ser atribuído literalmente ao Um.
- Linguagem figurada é contrastante e até conflitante entre discursos, pois descreve o indescritível.
- Objetivo: despertar a linguagem intelectual que toca o Um (consciência primordial).
- Às vezes usa metáfora do Um observando a Si Mesmo, embora sem consciência de si no sentido usual.
- Observação intuitiva de Si Mesmo é Si Mesmo (similar à pergunta Quem Sou Eu? de Ramana Maharshi, que cessa quando percebe-se que a indagação é a própria Consciência buscada).
- Observação intuitiva do Um é Seu próprio transbordamento como Existência, cuja natureza é a indagação ou busca mística.
- O Um como Amor e Atividade de Despertar
- O Um nasce para Seu próprio interior como se apaixonado pela luz clara que é Ele Mesmo.
- Amor do Um é livre da distração de sujeito/objeto separado, infinitamente mais intenso que o amor humano.
- Através de Seu amor, o Um nasce para Seu próprio interior (ideia sugerida na Cabala: abertura de espaço negativo dentro da Plenitude Divina para o universo manifestado).
- O Um não é estático ou em repouso; é intensa atividade ou poder superabundante que emana como Existência, mas não é ação da energia física.
- Atividade é uma espécie de despertar eterno, além da existência, essência e vida consciente.
- O Um é uma atividade, não possuindo contudo nenhuma função. Transbordamento não tem função ou objetivo (similar ao Vazio criativo no budismo).
- Porque nada existe n'Ele, todas as coisas provêm d'Ele; é o poder gerador que repousa em Si sem diminuição.
- Não-Necessidade e Não-Participação do Um
- Um princípio não precisa do que vem depois dele; o Um não precisa de nenhum dos seres.
- Analogia com princípio matemático: gera números mas não precisa gerá-los, embora implicitamente os contenha.
- Todos os seres são como números vibrando singularmente, contidos pelo Um.
- Chamar o Um de Causa é atributo nosso, não d'Ele. O Um não tem experiência de ser causa.
- O Um não precisa das coisas que emanam d'Ele; seria o mesmo se não existissem.
- Transbordamento é inevitável devido à generosidade ou supersaturação do Um, mas ainda é simplesmente o Um.
- Distinção entre o Um e o Deus Pessoal (Alma Cósmica)
- O Um não é o Deus pessoal. Este é a Alma Cósmica, emanação do Um, que realmente se interessa pelo retorno humano.
- Zelo Divino e retorno humano são o modo natural da Existência.
- O Um permanece no âmago desse processo, sem Ele mesmo se preocupar ou se voltar.
- O Um em Sua solitude não pode conhecer nem ignorar qualquer coisa. É todas as coisas, incluindo preocupações pessoais e retorno contemplativo.
- Transcendência radical do Um não O afasta de fenômeno algum: O Um é imanente exatamente por causa da Sua transcendência. Transcende a própria Existência, mas não está além de qualquer vida ou preocupação.
- A Ignorância Humana e o Retorno ao Um
- Seres humanos são o Amor do Um pela Luz Clara que Ele é.
- Aparente ignorância humana: Não nos afastamos realmente Dele… permanecendo presentes para Ele e contudo voltando nossas costas para Ele.
- Iluminação, segundo Ramana Maharshi e Plotino, é admitir que já somos o Um. Revolução de atitude, voltar-se para aquilo a que damos as costas.
- Retorno é simples e natural, mas requer intensa preparação espiritual devido à desorientação no tempo e espaço.
- Preparação envolve anos de pensamento contemplativo sobre o Um sob orientação de um mestre arraigado n'Ele.
- Disciplina pode ser basicamente intelectual (intelecto iluminado), sem necessidade de compromisso devocional religioso específico.
- Anseio Natural, Presença Constante e Natureza da Iluminação
- Preparação espiritual canaliza o anseio básico pelo Um que anima todos os seres.
- Homens esquecem Aquele por quem desde o início desejam e ainda anseiam.
- Anseio supremo é manifesto naturalmente, pois a natureza do nosso ser (como Existência) é voltar-se e contemplar o Um.
- Contemplação está ocorrendo agora mesmo na vida corriqueira.
- O Um está presente mesmo para os que dormem; não surpreende os que O veem, pois está sempre lá.
- Iluminação (despertar como o Um) não é experiência assombrosa ou sensacional, mas reconhecimento de uma presença constante.
- Êxtase pode ocorrer no processo, mas se dissolve na consciência primordial.
- Êxtase identificado com amor à Beleza, mas para Plotino é secundário. O amor pelo Um é mais antigo e antecede a Beleza.
- O Um está suave e graciosamente presente; a Beleza traz assombro, choque, prazer e dor. Despertar como o Um permeia igualmente todos os estados de consciência.
- O Despertar Final: Simplicidade e Circularidade
- Iluminação significa despertar como o Um, não conhecer ou vê-Lo como objeto.
- Despertar transcende todos os níveis de experiência, como o Um transcende todos os níveis de Existência.
- Preparação requer simplicidade: a complexidade percebida deve tornar-se transparente para o Um.
- Despertar chamado de vôo do Solitário para o Solitário (Plotino) ou flores vermelhas florescendo vermelhas (Zen). Circularidade condensada na afirmação É é É, que desaparece na Origem (o Um), revelando todo o drama da Existência como o Um solitário.
- Narrativa de uma Experiência de Ascensão Visionária
- Exemplo pessoal de ascensão em meditação com uma professora rosacruciana (Mãe Serena).
- Distinção entre devaneio e imagens espirituais intensas e espontâneas na meditação.
- Metáfora da ascensão (elevador, escada) usada por Plotino, embora não haja distância real a transpor.
- Experiência descrita em etapas: elevador passando por esferas (andares), salto em reino de luz dourada, corpo fundindo-se com a luz, perda da sensação de corpo, consciência como centro individual suspenso.
- Pergunta reveladora sobre desejo de conhecer o Supremo; osmose através de uma membrana.
- Estado além: claridade/esplendor natural, sem êxtase, ausência de Eu particular mas consciência totalmente presente. Claridade branca/opaca, sensação de completude, sem distância ou vastidão. Consciência primordial = o Um.
- Intervalo de radiância; perguntas intrusivas sobre tempo e razão para deixar a Luz Clara.
- Aparição de uma bolha com arco-íris representando a estrutura total da Existência (planos, almas, seres, galáxias), insubstancial e delicada. Radiância do Um brilhando através dela.
- Corrente de solicitude amorosa por todos os seres, culminando em retorno ao reino dourado (Existência).
- Retorno não por apego à individualidade, mas por compromisso com toda a vida.
- Compreensão da coexistência da visão da insubstancialidade do universo com o amor e compromisso compassivo.
- Compreensão da emanação inevitável da Existência a partir da supersaturação da consciência pura por si mesma.
- Compreensão final da afirmação plotiniana: O Um nasce, por assim dizer, para Seu próprio interior como se apaixonado pela luz clara que é Ele Mesmo, e Ele é o que Ele ama.
- A jornada de retorno é simplesmente o eterno transbordamento ou emanação do Um como Existência ou Amor.
autores/existe-apenas-o-um.txt · Last modified: by mccastro
