autores:matinee-platao-plotino
Matinée : Platão e Plotino
- Questão da Filiação Intelectual: Platonismo e Neoplatonismo
- Premissa natural: para avaliar as escolas que se reclamam de Platão, em particular o neoplatonismo alexandrino, seria necessário um conhecimento profundo do platonismo genuíno.
- Enquanto a crítica filosófica não oferece uma explicação completa da teoria das Ideias, é pertinente examinar os fundamentos dessa pretensa filiação intelectual que exerceu grande influência histórica.
- Tradicionalmente, busca-se nos pensadores alexandrinos o sentido da doutrina platônica, como herdeiros diretos. Contudo, essa interpretação nem sempre beneficiou a compreensão de Platão.
- Reconhece-se nos alexandrinos as aspirações platônicas e o amor pelo inteligível. No entanto, a intenção de ser platônico não basta; é necessário sê-lo de fato.
- Platão é um gênio que realiza sua obra de modo único e completo, marcando-a com um selo indelével. Sua obra não “renasce” nem pode ser “reiniciada” pelos sucessores. O desafio das gerações posteriores é não alterar o depósito sagrado do pensamento recebido.
- Coloca-se sob reserva crítica o processo histórico que faz da Escola de Alexandria uma segunda hipóstase do platonismo, exigindo-se provas concretas dessa continuidade.
- O Papel de Porphyrio e a Exposição do Sistema Plotiniano
- Plotino teve a fortuna de encontrar um discípulo como Porphyrio, que organizou seus ensinamentos com devoção, respeito e admiração.
- Contraste com Aristóteles em relação a Platão: Aristóteles não demonstrou o mesmo respeito misturado com deferência e simpatia que Platão teve por Parmênides, nem o que Porphyrio teve por Plotino.
- As objeções de Aristóteles à teoria das Ideias, embora importantes, são apresentadas com aspereza e de modo repetitivo na Metafísica. Platão, porém, já as conhecia e as havia exposto com maior amplitude e força em seus diálogos.
- As Enéadas, graças a traduções, comentários e análises precisas, apresentam hoje dificuldade principal: acompanhar o pensamento de Plotino em suas alturas vertiginosas, o que provoca escrúpulos, hesitações e espanto.
- Método ou Doutrina? A Gênese do Sistema Plotiniano
- Os historiadores costumam começar pela exposição do método de Plotino, seguindo regras lógicas.
- Contudo, em Plotino, não é a doutrina que é produto do método, mas o inverso: a possível “método” é fruto da doutrina já estabelecida.
- Tudo em Plotino deriva da teoria das hipóstases, e esta, por sua vez, resulta de uma determinada interpretação (considerada falsa) de um diálogo de Platão (o Parmênides).
- Esta proposção, que pode parecer paradoxal, é emprestada do próprio Plotino. Sua vida e caráter, conforme descritos por Porphyrio (homem que se envergonhava de ter um corpo, família, pátria; que buscava escapar da condição terrestre; dado a visões), sugerem que seu acesso à verdade não se deu pela lógica humilde e laboriosa, mas pela intuição, conforme atestaria um oráculo de Apolo.
- Psicologia Plotiniana: Análise Subtil e Distorções Sistêmicas
- O verdadeiro mérito da Escola de Alexandria e seu serviço mais incontestável à filosofia é o progresso notável que promoveu na psicologia, na ciência da alma bem observada.
- Os alexandrinos são analistas sutis; veem com precisão quando não são cegados pelo espírito de sistema.
- Contribuições originais e perspicazes de Plotino sobre: presença da alma ao corpo, os sentidos e seus órgãos, a razão e o raciocínio, a memória, a imaginação (especialmente a imaginação inteligível, que Aristóteles apenas mencionou).
- Paradoxo: como explicar, então, os estranhos erros da mesma doutrina sobre a consciência, a inteligência e o amor? Como admitir que Plotino tenha chegado a desconhecer as condições fundamentais da personalidade humana?
- Resposta: essas distorções são solicitadas pelas exigências de um sistema preconcebido. Era necessário conduzir a alma, despojada de toda forma, privada de toda memória e de todo sentimento de si mesma, até o êxtase e a identificação com o Princípio superior.
- A Consciência e o “Eu”: Uma Lacuna no Esquema das Faculdades
- Ao coordenar as numerosas faculdades que Plotino enumera, seguindo a tripartição (corpo, animal, alma propriamente dita) e subdivisões, surge uma grande surpresa: nenhum lugar é atribuído à faculdade que nos dá o “eu”, a consciência.
- O tradutor das Enéadas tentou suprir essa lacuna em notas, vinculando a consciência à segunda série de faculdades. Plotino, porém, declara que a consciência pertence à alma inteira.
- Outros localizam a consciência na inteligência (nous), citando a fórmula “vê que vê” (katora oti katora). Contudo, Plotino distingue o que é “nosso” do que é “nós mesmos”. A inteligência é “nossa”, mas não é “nós”; ela nos domina, é separada, pensamos apenas por intervalos.
- Anomalia: uma faculdade que é apenas “nossa”, que não é “nós”, e que ainda assim carrega a expressão mais elevada da consciência.
- A dificuldade se complica porque a alma, em Plotino, representa o uno e múltiplo, característica que explicaria perfeitamente o papel da consciência. O princípio peripatético da identidade do sujeito e do objeto não pode ser transposto para a psicologia sem restrições.
- A Dualidade da Alma e a Perda da Consciência de Si
- Há, nas Enéadas, duas consciências, duas memórias, duas imaginações, duas almas.
- Uma alma, como a do Timeu, é uma planta do céu fixa no solo sagrado.
- A outra mergulha suas raízes nas entranhas da matéria.
- A alma sofre a lei que domina todo o sistema neoplatônico: não sendo o limite último do possível, deve projetar abaixo de si uma imagem inferior de si mesma e, simultaneamente, fazer retorno ao princípio superior.
- “Toda alma tem uma parte inferior voltada para o corpo e uma parte superior voltada para a inteligência divina”. Esquecendo a imagem imperfeita refletida pelo corpo, a alma se reencontra. “Toda alma virtuosa é esquecida” (leia-se: toda alma contemplativa).
- Ruptura com a Anamnese Platônica
- A conservação do termo “reminiscência” por respeito não oculta a infidelidade de Plotino a Platão.
- Em Platão (Fedro): a alma caiu, perdeu as asas. Houve um esquecimento momentâneo das maravilhas contempladas. A experiência e a dialética a reconduzem gradualmente ao inteligível, em raras e breves excursões.
- Em Plotino: o mito e, sobretudo, o dogma filosófico são diferentes. Algumas almas, por um desejo inexplicável, desceram a corpos, mas não penetraram neles por inteiro. A inteligência, se ele ousasse, seria colocada como uma auréola acima de nossas cabeças, um raio cuja fonte permanece no céu imóvel. “É um deus que veio do alto habitar em nós.”
- A verdadeira consciência em Plotino não é o sentido interno ou a razão discursiva. É aquela em que a alma se reconhece tal como foi, tal como deve ser. “Outra coisa é a individualidade, outra coisa a essência do homem, a tal ponto que a essência está em razão inversa da individualidade.” Consequência: a essência do homem não é ser uma pessoa, ou a alma goza apenas de uma personalidade sem consciência, isto é, ilusória.
- A Contemplação como Fim Supremo e a Supressão da Consciência Ativa
- Consequência lógica: a atividade do homem não está em razão direta da consciência e da reflexão. Os atos mais enérgicos e a vida perfeita não têm ressonância na consciência.
- Princípio mais geral: o verdadeiro fim da alma não é a atividade prática ou a virtude prática, mas a virtude especulativa, a contemplação.
- As Ideias/Inteligíveis e sua Relação com a Alma: Um Mistério Mal Explicado
- O testemunho supremo da consciência: a alma encontra em si ideias que não fez, verdades que não colocou lá (os inteligíveis).
- Para Plotino, explicar a relação da inteligência com os inteligíveis é fácil: são da mesma origem e natureza; a inteligência os porta em si; mais ainda, é os próprios inteligíveis; pensa-os ao pensar-se a si mesma.
- Contudo, trata-se de um fato misterioso que a observação apresenta de modo complexo: as ideias são ao mesmo tempo pessoais e impessoais; estão presentes desde o início, atuando como condição do conhecimento, não como seu resultado. A razão é como o sol das almas; ilumina, mas não substitui o labor intelectual.
- A observação mostra tantas razões para separar a alma dos inteligíveis (sua necessidade, universalidade, evidência, autoridade independente) quanto razões para uni-los.
- O acordo entre experiência e intuição na alma é a relação do finito com o infinito. Pode-se descrevê-lo, mas não defini-lo.
- A Teoria do Belo e a Ascensão ao Bem e ao Uno
- A teoria do belo em Plotino deve muito a Platão (Banquete): o belo é esplendor da Ideia, purificando-se à medida que se ascende do sensível às virtudes e à ciência.
- Originalidade plotiniana: descrições entusiásticas e expressões ardentes para pintar o que a razão não pode conceber. A alma, ao contemplar a beleza, é inundada por sua luz, penetrada por sua substância, torna-se a própria beleza.
- Contudo, em Platão, a contemplação não ultrapassa os inteligíveis, e as ideias do belo e do bem não são separadas. Plotino, com infinitas precauções, as distingue: o belo é o lugar das ideias; o bem é seu princípio, acima da inteligência. Alcança-se o belo pela contemplação; eleva-se ao bem pelo amor.
- Plotino não se detém aí. Por quê? Porque todos os graus do ser devem ser atingidos pela alma. Acima da inteligência suprema (una) está o Uno mesmo, o Inefável, o Primeiro, o Bem. É o estágio onde a alma, antes “glacée et comme engourdie” diante da beleza, sente o calor suave que precede a união extática.
- A Manipulação dos Gêneros Supremos e a Confusão com o Um Eleata
- Que faz Plotino com os cinco gêneros supremos do Sofista (Ser, Repouso, Movimento, Identidade, Diferença)? Na VI Enéada, ele os reúne e faz os outros quatro retornarem ao Ser através de um procedimento que une, mistura, confunde os gêneros para depois dividi-los, separá-los, distingui-los.
- A crítica contemporânea traduz: no absoluto, “um é múltiplo, múltiplo são um, e consequentemente os contrários coincidem”.
- Profundo mistério – se lembrarmos que as ideias de Platão não são pensamentos, mas seres verdadeiros. Este ensino é de Plotino, não se encontra nos diálogos.
- Conclusão crítica: “Oh! que Platão tinha razão, quando chamava Parmênide de *redutível*! Quão fácil é tomar o *nada do ser* pelo *próprio ser*!”
- A ascensão final ao Uno que “não é nada” é comparada à pomba imprudente de Kant, que acredita voar com mais facilidade acima do ar. Para os alexandrinos, parece uma questão de altitude: oposição abaixo, unidade perfeita no cume. Mas, ao buscar o cume absoluto, a alma, como a pomba, sente-se desfalecer.
autores/matinee-platao-plotino.txt · Last modified: by mccastro
