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Ideia como o que absolutamente é

Mesquita

A terceira determinação da ideia — sua “absolutidade” — encontra expressão paradigmática na descrição do belo no Banquete, onde Platão descreve diretamente o que significa ser absolutamente.

  • Na República, há referência explícita ao “ser completamente” e ao “ser puro”, bem como, no livro IX, à “essência pura.”
  • No Fédon, a referência mais distinta à ideia é feita sob o advérbio “puramente” — especialmente nas passagens sobre a alma e o conhecimento.
  • A descrição do Banquete é a mais expressa e manifesta caracterização da “absolutidade” da ideia: “Em primeiro lugar, [o belo] é sempre, nem nasce nem perece, nem cresce nem decresce; depois, não é belo aqui e feio ali, nem umas vezes sim e outras não… mas sim em si e por si mesmo, sendo sempre uniforme consigo mesmo, enquanto que todos os outros belos participam daquele, de um modo tal que a geração e a corrupção dos outros em nada o torna mais ou menos.”

Duas notas fundamentais ressaltam da descrição do Banquete: a “autonomia” da ideia e a “absolutidade” como pura identidade e pura diferença.

  • A autonomia: o belo não aparece “com uma cara, nem com mãos, nem com nada que o corpo partilha, nem tão-pouco como um enunciado ou uma ciência, nem como algo que esteja nalgum outro… mas sim em si e por si mesmo.”
  • Ao colocar frente a frente a ideia com tudo aquilo que ela não é, o texto revela por negação a “absolutidade” da ideia como pura diferença — “não ser o que não é.”
  • O primeiro membro do discurso diz o que supõe essa tematização: a ideia como o absolutamente idêntico, a absoluta identidade.
  • Ser “o que absolutamente é” significa ser exclusivamente o que é — puramente o que é — tanto internamente, como pura identidade sem fissura, quanto externamente, na relação com o outro e com tudo.
  • A limite, cada ideia revela-se como una e única: para cada uma, tudo o resto pura e simplesmente não é — porque não é o que ela é.

Essa determinação percorre toda a obra platônica e surge com maior acuidade nas passagens sobre a comunhão das ideias, especialmente no Sofista e nos diálogos que o antecipam.

  • No Fédon, emerge como fundamento tácito da impossibilidade de uma interparticipação entre contrários, tanto “em si mesmos” como “em nós.”
  • Na República, convoca-se o testemunho dos “experimentados” para defender a absoluta unidade da ideia de “um” — puramente um, “sem partes.”
  • A passagem mais importante a esse respeito é a da República, que distingue o modo de ser do “ser completamente” e o modo de ser das “muitas coisas que são.”

Na República, a distinção entre o “ser completamente” e as “muitas coisas” é ilustrada pela análise dos múltiplos sensíveis — nenhum deles é mais do que não é o que se diz ser.

  • Entre os múltiplos não há nenhuma coisa bela que não seja ao mesmo tempo feia, nenhuma coisa justa que não seja ao mesmo tempo injusta, nenhum dobro que não seja ao mesmo tempo metade.
  • O texto situa os múltiplos no intervalo entre o que não é e “o que absolutamente é.”
  • O caso mais radical é o do dobro e da metade: no plano da multiplicidade sensível, o que é dobro é simultaneamente metade; no plano da unidade inteligível, pelo contrário, o próprio dobro deve ser puramente dobro e a própria metade puramente metade.

O dobro e a metade não são aqui conceitos matemáticos, mas ideias — e sua análise revela o sentido preciso da “absolutidade.”

  • O Dobro não é o 2 em sua funcionalidade multiplicadora, nem a Metade o mesmo 2 em sua funcionalidade divisora — caso em que seriam a mesma coisa, contra Platão.
  • O Dobro e a Metade não podem ser dobro e metade de nada, mas apenas o Dobro tomado em si mesmo e a Metade tomada em si mesma.
  • Em “o Dobro é o puro ser dobro” não está incluída nenhuma determinação do dobro, mas a exaustão total de sua natureza enquanto Dobro.
  • Dobro e Metade não constituem casos de ideias “puramente relacionais”, como defendem alguns comentadores — são a declaração da estrita identidade de cada ideia consigo mesma e de sua “pureza.”

A relação entre coisa e ideia alcança sua formulação última na distinção entre o que é absolutamente e o que só “relativamente é” — prolongando e perpetuando a distinção inaugural entre “o que cada coisa é” e “as coisas que são.”

  • Essa distinção é por sua vez o ponto de eclosão e simultaneamente o resultado da questão “o que é.”
  • A ideia é o ser da coisa, o qual se dá modalizadamente segundo dois aspectos: o ser propriamente dito e aquilo que, sendo, nunca chega a ser propriamente — e que constitui a coisa enquanto tal.
  • Com essa tríplice determinação — a ideia como “o que cada coisa é”, como “o que propriamente é” e como “o que absolutamente é” — conclui-se o projeto de acompanhar a gênese da ideia, desde a distinção inaugural do Hípias Maior até à sua tematização na República e no Fédon.
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