User Tools

Site Tools


autores:mesquita:ideia-propriamente-ser

Ideia como o que propriamente é

Mesquita

A segunda determinação da ideia — como “o que propriamente é” — encontra sua formulação mais clara na descrição da essência eterna do Timeu.

  • Timeu afirma que o “era” e o “será” são aspectos derivados do tempo, indevidamente transportados para a essência eterna.
  • Timeu declara: “o 'é' apenas pertence a esta [essência eterna], enquanto que convém reservar o 'era' e o 'será' para o que percorre o devir no tempo; pois estes dois são movimentos.”
  • Timeu acrescenta que não pertence ao que sempre é imutavelmente idêntico tornar-se mais velho nem mais novo através do tempo.
  • No Teeteto, Sócrates atribui aos “mobilistas” a lição de que “jamais nada é, senão que sempre devém” — mostrando, por contraste, a exclusiva propriedade do “é” em relação à essência eterna.

O que importa meditar não é tanto a caracterização isolada de cada modo de ser, mas a relação entre eles — a forma como o ser se dá nas coisas e faz com que estas, ainda que relativamente, sejam.

  • O principal testemunho nesse ponto é o Fédon, no contexto do argumento da reminiscência.
  • Sócrates pergunta a Símias se pedras e paus iguais, sendo os mesmos, não parecem às vezes iguais e outras não — ao que Símias concorda.
  • Sócrates pergunta se os próprios iguais já pareceram desiguais ou se a igualdade já pareceu desigualdade — ao que Símias responde: “Jamais, Sócrates.”
  • Sócrates conclui: “Então não são o mesmo esses iguais e o próprio igual.”

O que está em causa na distinção entre os iguais e o próprio igual não é primeiramente a mesmidade de um frente à diversidade dos outros, mas o fato de a ideia ser absolutamente o que é — sempre igual — ao contrário dos particulares que nunca são puramente o que são.

  • A mesmidade e identidade com que se caracteriza a ideia deve ser lida à luz desse entendimento mais original: não “ser sempre o mesmo”, mas “ser sempre o que é.”
  • A mesmidade da ideia é ontológica — é o ser; a mesmidade do particular é ôntica — é a mesmidade da coisa, e por isso nunca é mais mesma do que outra.
  • A alteridade do particular não designa desde logo um “ser outro”, mas deve ser esclarecida a partir de sua determinação mais fundante como “nunca ser o que é.”
  • É porque o particular é “sempre o mesmo” — sempre este particular — que pode “nunca ser o que é”, de modo que a alteridade surge nele no quadro de uma prévia mesmidade.

A duplicidade de sentidos da mesmidade e da alteridade explica por que o igual e os iguais não são, um e outro, o mesmo.

  • O igual é sempre igual — é puramente o que é; os outros são umas vezes iguais e outras desiguais — nunca são o que são.
  • A mútua alteridade entre ideia e particulares reside na sua diversa relação com o igual enquanto ser próprio: o primeiro é o igual, enquanto os outros, “sendo-o”, nunca o são propriamente.
  • Dizer que os iguais nunca são o que são é alegar a razão pela qual são outros em relação ao próprio igual: esse ser outro não é diversidade em relação a outra coisa, mas diversidade em relação a si mesmos — radical e intrínseca alteridade.

A relação entre os iguais e o igual não é exterior, horizontal e reflexa, mas interna, vertical e abissal — não a relação entre duas coisas, mas entre uma coisa e o seu ser.

  • O igual é o próprio igual: “igual” não é nele uma determinação, mas seu ser mesmo — seu ser enquanto totalidade.
  • A ideia não se predica a si mesma, senão que é puramente seu ser próprio: o igual não aceita a igualdade como predicado, mas é o próprio igual, o próprio ser igual.
  • A relação entre o igual e os iguais não é dupla — de mesmidade e alteridade —, mas “simples”: a relação de semelhança pela qual os iguais são imediatamente mesmos e outros em relação ao seu próprio ser.
  • Os particulares são particulares porque tomam parte em seu ser sem o ser — são necessária e intrinsecamente “uma parte” de seu ser.

Caracterizar o particular como constitutivamente A e não-A não significa aludir à sua deveniência no tempo ou à aceitação de predicados contraditórios, mas afirmar que todo o A que ele é simultaneamente não é.

  • O ser A do particular não é um ser puramente A ou um ser o próprio A — é mera participação em A.
  • Em “ser A e não-A”, o não-A não alude a um predicado contrário de A, mas ao modo como constitutivamente o particular é A — por participação.
autores/mesquita/ideia-propriamente-ser.txt · Last modified: by 127.0.0.1