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O que é platonismo?

RALKOWSKI, Mark A. Heidegger’s platonism. London: Continuum, 2009.

Pouco antes de sua morte, Platão sonhou que era um cisne, voando de árvore em árvore, causando grande transtorno aos caçadores, que não conseguiam capturá-lo. Os primeiros intérpretes de Platão viram nesse sonho uma imagem do futuro: por mais que os homens tentassem compreender a filosofia de Platão, “ninguém conseguiria, mas cada um o interpretaria de acordo com suas próprias visões, seja no sentido metafísico, físico ou qualquer outro” (Anon. Prol. I, 29–31). Esses sonhos não poderiam ter sido mais prescientes. Quase dois mil anos depois, a caçada ao cisne Platão continua.
  • O Sonho do Cisne: Símbolo da Elusividade da Filosofia Platônica
    • Relato do sonho de Platão como cisne, iludindo caçadores, interpretado por comentadores antigos como alegoria da inapreensibilidade de seu pensamento.
    • Profecia do sonho: multiplicidade de interpretações futuras, cada qual conforme visões particulares (metafísica, física, etc.).
    • Persistência da caça ao cisne por quase dois milênios.
  • A Elusividade como Característica Central e seu Contexto Filosófico Geral
    • Reconhecimento generalizado da elusividade da filosofia platônica.
    • Exemplo de polaridade interpretativa: A República lida tanto como defesa da democracia quanto como protótipo do estado fascista moderno.
    • Admissão de que desacordos interpretativos são característica da filosofia em geral, não exclusiva de Platão.
    • Para alguns, tais desacordos são traço definidor da atividade filosófica.
    • Dilema filosófico proposto por Dennett: optar entre solucionar problema conclusivamente (fechar campo) ou escrever obra de perplexidade duradoura (ser lido).
    • Inclinação de muitos filósofos pela segunda opção: preferência por ser lido a ter razão.
  • Causas Específicas do Desafio Interpretativo em Platão
    • Desafio não atribuível a má escrita ou tecnicismo excessivo (diálogos iniciais e médios acessíveis a jovens).
    • Duas causas primárias identificadas:
      • Ausência de enunciado direto do pensamento do autor.
      • Ausência de fechamento ou conclusão definitiva nas questões filosóficas discutidas.
    • Resistência dos textos ao fechamento, sugerindo, por sua forma aberta e simbólica, que a meta filosófica não é necessariamente a clausura.
    • Consequência: perplexidade sobre questões básicas, como se os diálogos são veículos de sua filosofia e qual filosofia pretendem apresentar.
  • Polaridade Histórica Fundamental: Dogmáticos versus Céticos
    • Formulação do dilema por Diógenes Laércio, mas existente desde cedo.
    • Divisão entre:
      • Dogmáticos: atribuem doutrinas a Platão, assumindo-o como filósofo sistemático.
      • Céticos: acreditam que Platão, à maneira socrática, desautorizava todo conhecimento, praticando filosofia refutativa.
    • Questões polarizadoras exemplificadas: dogmático ou cético? sistemático ou questionador? místico ou dialético? liberal ou totalitário? doutrina explícita ou secreta?
  • A Linhagem Dogmática Inicial e o Esoterismo Antigo
    • Espeusipo e Xenócrates, sucessores imediatos de Platão na Academia, como primeiros a atribuir-lhe um sistema (347–314 a.C.).
    • Desinteresse pelos diálogos, reconstrução de teoria metafísica não-escrita, comunicada oralmente por Platão (segundo Aristóteles).
    • Conclusões que minimizam significado dos diálogos, antecipando posições dos esotéricos contemporâneos.
  • A Virada Cética na Academia e seu Domínio Prolongado
    • Ressurgimento do espírito socrático de refutação como resistência à interpretação dogmática.
    • Arcesilau e Carnéades (a partir de 268 a.C.) redefinindo filosofia platônica como ceticismo.
    • Negligência dos diálogos (exceto possivelmente Teeteto), privilégio do ensino oral refutativo para minar alegações de conhecimento.
    • Método refutativo e oposição absoluta a alegações de conhecimento, levando a acusações de sequestro da Academia sob bandeira do platonismo.
    • Domínio da linha cética por quase duzentos anos (até c. 80 a.C.).
    • Descrença de críticos posteriores (Agostinho, Sexto, Cícero) na sinceridade do ceticismo acadêmico.
    • Teoria de Agostinho: ceticismo como fachada para guardar mistérios da metafísica platônica dos impuros.
  • A Síntese Neoplatônica e seu Domínio Milenar
    • Silenciamento do debate pela interpretação única de Plotino (século III d.C.).
    • Leitura dos diálogos como contendo religião de mistério oculta, acessível por leitura correta.
    • Diferença em relação aos dogmáticos antigos: não ignoram diálogos, mas opõem-se à leitura cética e ignoram diálogos aporéticos iniciais.
    • Críticas contemporâneas ao neoplatonismo: considerado petição de princípio, infalsificável, análogo à leitura teológica da Bíblia.
    • Método neoplatônico de lidar com contradições: ignorar certos diálogos ou interpretar passagens alegoricamente, reservando significado aos iniciados.
    • Influência dominante da interpretação neoplatônica até o século XVI.
  • Ruptura do Século XVI: Retorno ao Corpus Integral e Dogmatismo Sistêmico
    • Desafio sério por Serrano e Estéfano à interpretação neoplatônica.
    • Inclusão dos diálogos aporéticos iniciais na consideração do corpus integral.
    • Introdução da ideia de sistema platônico independente de pressupostos neoplatônicos, derivado inteiramente dos diálogos, não de ensino oral esotérico.
    • Manutenção, contudo, do dogmatismo (suposição de sistema coerente de doutrinas).
    • Influência crucial dessa suposição em Tennemann e Schleiermacher, e, por extensão, na maioria dos estudiosos contemporâneos.
  • A Virada de Schleiermacher: Sistema, Forma e a Síntese Problemática
    • Interpretação de Schleiermacher como seminal por vários motivos.
    • Aceitação da sistematicidade da filosofia platônica, mas defesa do significado filosófico da forma dialógica.
    • Inovação: apreciação de Platão como filósofo-artista.
    • Três ideias subjacentes à sua abordagem:
      • Rejeição da interpretação cética (que esvazia Platão de conteúdo positivo).
      • Rejeição da visão esotérica (que localiza filosofia fora dos diálogos).
      • Respeito, mas rejeição da visão neoplatônica por seu alcunho injustificadamente limitado.
    • Proposta de interpretação que salva os fenômenos, tratando tudo nos escritos, inclusive a forma artística, com igual cuidado.
    • Resultado paradoxal: apresentação de um Platão com personalidade dividida.
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