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Comentário de Simplicius

Ilsetraut Hadot. Apprendre à philosopher dans l’Antiquité.

Simplicius, que escreveu o comentário sobre o Manual de Epicteto, é um neoplatônico que vivia na primeira metade do século VI da nossa era.

  • Era natural da Cilícia, na Ásia Menor, e seguiu em Alexandria os cursos do neoplatônico Amônio.
  • Designa, ao lado de Amônio, Damáscio, o último diado da escola neoplatônica de Atenas, como seu mestre.
  • Segundo o historiador Agátias, após o fechamento da escola de Atenas, encontra-se, com Damáscio e outros filósofos gregos, na Pérsia junto ao rei Cosroes.
  • Ainda segundo Agátias, os filósofos retornaram ao seu país, isto é, o Império Bizantino, após o tratado de paz concluído entre Cosroes e Justiniano em 532, que continha, por iniciativa de Cosroes, uma espécie de salvo-conduto para os filósofos.
  • Segundo as hipóteses muito bem fundamentadas de M. Tardieu, todos, ou a maioria deles, instalaram-se próximo à fronteira persa, em Harran, cidade que permanecera em grande parte pagã por se encontrar na zona de influência da Pérsia, e seria lá que Simplicius escreveu o conjunto de seus comentários.

Por que o neoplatônico Simplicius comenta um texto estoico?

  • Deve-se primeiramente constatar que o comentário de Simplicius sobre o Manual se situa fora do currículo de estudos dos neoplatônicos tardios, que consistia em duas partes: a primeira, como preparação à filosofia de Platão, com a leitura comentada de um número definido de tratados de Aristóteles; a segunda, mais avançada, sobre uma seleção canônica dos diálogos de Platão.
  • Esse programa de estudos era o resultado da harmonização das filosofias de Platão e Aristóteles e, ao mesmo tempo, da subordinação das doutrinas de Aristóteles às de Platão, impostas no neoplatonismo a partir de Porfírio.
  • Ao tratar, no segundo esquema introdutório de seis pontos que todos utilizam, a questão convencional de saber em que ordem ler as obras de Aristóteles, Simplicius escreve que, segundo alguns, deve-se começar pelos escritos lógicos e, segundo outros, pelos tratados de ética.
  • Contra este último ponto de vista, Simplicius objeta que, no primeiro estágio da formação moral, é necessária uma instrução que não seja conduzida segundo o método apodítico, mas conforme a opinião reta, apoiando-se nas noções inatas que possuímos concernentes aos entes.
  • “Se os tratados de ética de Aristóteles, continua Simplicius, não fossem mais que uma catequese puramente parenética sem demonstração, tal qual se encontra muita entre os pitagóricos, neste caso seria possível, em boa método, começar por eles para disciplinar os costumes. Mas como Aristóteles no-los entregou repletos de divisões e demonstrações, como chegar então a um bom resultado sem empregar a respeito deles o método apodítico que o aluno ainda não adquiriu?”
  • É sem dúvida necessária uma instrução ética preparatória; contudo, ela não pode ser fornecida pelas Éticas aristotélicas, mas é preciso um aprendizado não escrito e exortações não técnicas que, sob forma não escrita ou escrita, endireitem o nosso modo de viver.
  • Em seguida virá o método lógico e apodítico e, depois deste, seremos capazes de receber os raciocínios científicos que se relacionam com a ética ou com a contemplação dos seres.
  • Os neoplatônicos consideravam como necessário que o estudante purificasse seus costumes antes de começar os estudos propriamente filosóficos, exigência claramente enunciada pelos comentadores ao tratar das qualidades requeridas do bom ouvinte ou estudante.
  • O Manual de Epicteto constituía aos olhos de Simplicius o gênero de exortações não técnicas aptas a fornecer a instrução ética preparatória da qual o principiante em filosofia já devia estar impregnado.
  • “O livro é intitulado ‘Manual’ porque deve sempre estar ‘sob a mão’ e à disposição daqueles que querem bem viver. Pois o ‘punhal’ do soldado, ele também, é uma arma que deve sempre estar ‘sob a mão’ daqueles que o utilizam.”
  • “E estas palavras [as do Manual], é verdade, são claras. Mas talvez não seja mau explicá-las, na medida do possível. Pois aquele que escreve o comentário se acordará interiormente cada vez mais com estas sentenças e ao mesmo tempo se tornará cada vez mais consciente de sua verdade e, entre os amantes do saber, aqueles que ainda estão desacostumados aos estudos receberão talvez uma iniciação graças à interpretação destas palavras.”
  • A composição do comentário é, portanto, para Simplicius uma espécie de exercício de meditação por escrito, gênero de exercício espiritual já em vigor na escola de Epicuro, cujos outros exemplos célebres são a Consolação que Cícero escrevera para seu próprio uso após a morte de sua filha e os Escritos para si mesmo de Marco Aurélio.

O estado dos conhecimentos de Simplicius sobre Epicteto

  • Mais de trezentos e cinquenta anos separam a morte de Epicteto da época de Simplicius, que nos diz ele mesmo no início do prefácio a seu comentário sobre o Manual o que sabe sobre a vida de Epicteto e sobre seu ensino.
  • “Arriano, aquele que reuniu em livros muito longos as diatribes de Epicteto, escreveu também a respeito da vida de Epicteto e de sua morte, e graças a ele é possível aprender o que foi este homem em sua vida. Quanto à presente obra, intitulada ‘Manual de Epicteto’, é igualmente o mesmo Arriano que a compôs, escolhendo, entre as palavras de Epicteto, aquelas que eram as mais oportunas e necessárias para a filosofia assim como as mais estimulantes para as almas, como ele nos diz ele mesmo em sua carta a este Massaleno, a quem também dedicou sua obra, primeiramente como a seu amigo muito caro, mas sobretudo como a um admirador de Epicteto. Mais ou menos as mesmas máximas figuram aqui e ali, com as mesmas palavras, na relação das diatribes de Epicteto que redigiu Arriano.”
  • Uma das questões é saber se Arriano havia escrito uma Vida de Epicteto distinta das Diatribes, e os argumentos a favor dessa tese são: primeiro, era um costume difundido desde a época helenística fazer preceder a edição das obras de um autor por uma biografia; segundo, detalhes biográficos, mesmo discretos, só se encontram raramente nas Diatribes e, de qualquer forma, não nos ensinam nada sobre a morte de Epicteto, ao passo que Simplicius diz expressamente que Arriano escreveu sobre a vida e a morte de Epicteto; terceiro, a imagem que Arriano fazia de si mesmo era a de um segundo Xenofonte, tendo procurado imitá-lo até nos títulos, e não pode haver dúvida de que Arriano considerava suas redações das diatribes de Epicteto como uma obra paralela ao livro de Xenofonte sobre Sócrates, intitulado Memoráveis, cujos dois primeiros capítulos davam uma visão da vida de Sócrates; quarto, por razões estilísticas, quando Simplicius escreve que “sobre a vida e a morte de Epicteto, é Arriano que escreveu”, ele faz implicitamente uma distinção entre a biografia em questão e as diatribes ao introduzir o artigo “aquele que”, e continua insistindo que as informações vêm de Arriano e não das diatribes.
  • Simplicius pôde ler, além da biografia de Epicteto, a carta de dedicatória do Manual, endereçada a um certo Massaleno ou Messalino, da qual não resta nenhum traço fora do testemunho de Simplicius.
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