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ARTE DA INICIAÇÃO (HERMEIAS)

*Hermeias, Comentário sobre o Fedro, tr. Jan Opsomer*

A desordem de suas partes, aquilo que caiu na indeterminação e na desarmonia e está preenchido de completa desordem, é levado à concórdia e harmonia pela música. A arte da iniciação (*telestike*) torna a alma completa e íntegra e a prepara para a atividade intelectual. Pois a música harmoniza e organiza apenas as partes, enquanto a arte da iniciação torna a alma completa e íntegra e a prepara para estar ativa como um todo. Assim, sua parte intelectual também será ativa. Pois quando a alma desce, parece que foi fragmentada e prejudicada, e o círculo do Mesmo – isto é, sua parte intelectual – está aprisionado, enquanto o círculo do Diferente – isto é, sua parte doxástica – está quebrado e distorcido em muitos lugares. Então, a alma está ativa de maneira parcial e não com sua totalidade. Agora, após a união harmoniosa de suas partes, a inspiração dionisíaca (*katokokhe*) leva a alma à plena realização e faz com que esteja ativa com toda a sua essência e viva uma vida intelectual. A inspiração de Apolo toma todas as potências pluralizadas da alma e as direciona, bem como a alma como um todo, de volta para o “uno” da própria alma, despertando-a (por isso ele é chamado de Apolo, pois conduz a alma de volta para cima, da multiplicidade para a unidade). A inspiração de Eros, por fim, assume a alma unificada e une esse “uno” da alma aos deuses e à beleza inteligível.

[…]

Por que, pergunta , nós, que sempre colocamos a arte da iniciação (*telestike*) antes de todas as nossas outras ocupações e até sustentamos que ela supera a própria filosofia humana, agora a tornamos inferior à adivinhação e à arte do amor (*erotike*)? Talvez a coloquemos em primeiro lugar entre os assuntos da vida humana, mas não também entre os da alma em si mesma. Ainda assim, por que o externo não se comporta da mesma maneira que o interno? Pois costumávamos dizer que há uma analogia entre o interno e o externo. Talvez o externo tenha analogia com o interno em alguns aspectos, mas não em outros? Na verdade, a arte da iniciação é colocada antes de todas as outras artes porque também contém todas as outras combinadas (incluindo, de fato, a teologia, toda a filosofia e a arte do amor, pois precisa aderir a elas com grande desejo para ser bem-sucedida). Quanto à arte do amor, primeiro a restringimos ao seu aspecto externo e depois discutimos isso separadamente; vista dessa perspectiva, parece-nos inferior à arte da iniciação. De fato, se se discutir as outras separadamente da arte da iniciação, se verá que são muito inferiores a ela. Não se deve comparar analogias em todos os aspectos, mas apenas na medida em que estão sendo aplicadas. Por exemplo, suponha-se que se use figuras cujas superfícies sejam análogas, mas não seus perímetros: a analogia não será válida em todos os aspectos.

[…]

Ainda assim, também no caso da iniciação, existe uma forma humana e técnica que se disfarça como [inspiração iniciática]; tal é a arte da iniciação usada também por sacerdotes em relação ao culto de estátuas, de acordo com a lei da cidade e seus costumes ancestrais específicos. Encantamentos e curas por meio de plantas ou pedras pertenceriam à arte técnica da iniciação. Platão, então, não a mencionou porque achava que isso era óbvio – pois há muito disso nas cidades – ou a deixou de fora porque a considerava uma arte que não realiza muito? Ou será que, mesmo que realize algo, isso ocorre por virtude da inspiração original? Pois as artes que vestem as roupas de outras carregam as imagens das verdadeiras causas.

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