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Sonho
LEWIS, C. S. A imagem descartada: para compreender a visão medieval do mundo. São Paulo: É Realizações Editora, 2014.
- Importância medieval da classificação dos sonhos proposta por Macróbio em seu comentário, que lhe conferiu título de Ornicensis ou Onocresius, interpretado como quasi somniorum iudex ou somniorum interpres, sendo esquema derivado da Oneirocritica de Artemidoro e estabelecendo existência de cinco categorias oníricas.
- Três categorias consideradas verídicas e dotadas de valor divinatório.
- Somnium ou oneiros, caracterizado por revelação de verdades ocultas através de linguagem alegórica, exemplificado pelo sonho do faraó sobre as vacas gordas e flacas, servindo como modelo estrutural para poemas alegóricos medievais e correspondendo ao termo dreem empregado por Geoffrey Chaucer.
- Visio ou orama, definido como previsão literal e direta de evento futuro, tema central de obras como An Experiment with Time de J. W. Dunne, correspondendo ao termo avisioun na obra de Chaucer.
- Oraculum ou krematismos, no qual ocorre aparição onírica de figura paterna ou pessoa venerável que profere declaração explícita sobre o futuro ou oferece conselho, correspondendo aos órneles referidos por Chaucer.
- Duas categorias consideradas inúteis e desprovidas de valor profético.
- Insomnium ou enupnion, limitado à repetição de preocupações e atividades quotidianas, exemplificado pelo sonho do carretero com seus carros, conforme descrito por Chaucer, e associado ao termo sweven.
- Visum ou phantasma, que ocorre no estado hipnagógico, onde se vêem fantasmas ou espectros que se abalam sobre o observador, incluindo a pesadilla (Epialtes), correspondendo ao fantom de Chaucer.
- Capacidade de um sonho combinar características de mais de uma categoria, conforme exemplificado pelo Somnium Scipionis, que se apresenta simultaneamente como oraculum, visio e somnium, sendo este último aspecto referente à sua altitudo ou significado profundo e oculto.
- Distância filosófica e teológica entre a visão original de Cícero e a interpretação neoplatônica oferecida por Macróbio.
- Visão cívica e política de Cícero, que imaginou um céu para estadistas, centrado na vida pública e nas virtudes por ela exigidas.
- Visão mística e ascética de Macróbio, influenciada pelo neoplatonismo, que despreza o mundo e coloca no centro de interesse a purgação da alma e sua ascensão solitária.
- Defesa de Macróbio sobre o uso da narrativa ficcional (figmentum) em filosofia, em resposta a críticas sobre o caráter imaginário do Somnium Scipionis.
- Distinção entre dois tipos de figmentum: aquele em que tudo é fingido, como na comédia, inaceitável para filósofo; e aquele que estimula a mente a observar uma forma de virtudes ou poderes (ad quandam virtutum speciem).
- Subdivisão deste último tipo em duas categorias: narrativa completamente inventada, como as fábulas de Esopo; e narrativa baseada em verdade unânime, mas exposta mediante invenções, como os mitos teogônicos de Hesíodo e Orfeu.
- Apenas esta segunda subcategoria é admitida pela filosofia, funcionando como véu piedoso que oculta conhecimento das coisas sagradas, sendo, porém, vedada sua aplicação ao falar de Deus (tagathon, proton aition) ou da Mente (nous) divina, onde residem as Ideias.
- Abismo ontológico introduzido por Macróbio entre a Causa Primeira transcendente e as demais realidades divinas ou criadas.
- Diferença de gênero e inconmensurabilidade entre Deus e os outros deuses, entre a Beatitude suprema e a beatitude das coisas sagradas (sacra) mitológicas.
- Transmutação do paganismo em teologia religiosa plena, onde mitologia e filosofia são absorvidas e ressignificadas.
- Exposição da tríade neoplatônica em Macróbio e seu contraste com a teologia cristã.
- Processo de emanacionismo: Deus cria a Mente (Mens, Noys) de Si mesmo; a Mente, ao voltar-se para trás e apartar sua contemplação do Pai, cria a Alma (Anima); a Alma, por sua vez, ao afastar sua atenção, degenera e gera os corpos, surgindo a Natureza.
- Contraste com a doutrina cristã da criação como ato de vontade e sabedoria da Segunda Pessoa, permanecendo esta perfeitamente unida ao Pai.
- Concepção neoplatônica da criação como série de descensos, diminuições ou quase flaquezas, embora a glória de Deus ainda ilumine todo o universo, como rosto refletido em múltiplos espelhos.
- Reinterpretação forçada (tour de force) por Macróbio de uma passagem de Cícero para inserir uma ética neoplatônica de renúncia ao mundo.
- Apropriação da ressalva ciceroniana quod quidem in terris fiat para justificar sistema ético de quatro níveis de virtude, que o próprio Cícero rejeitaria.
- Descrição dos quatro níveis ou estágios das virtudes cardinais (prudência, temperança, fortaleza, justiça):
- Nível político ou inferior, com significação convencional.
- Nível purgatório (purgatorius), onde virtudes assumem significado de desprezo pelo mundo, renúncia corporal, prática constante do bem e coragem para separar-se do corpo.
- Nível das almas já purificadas (animus purgatus), onde virtudes significam desconsideração total do mundo, esquecimento dos desejos, ignorância das paixões e vinculação imitativa à Mente divina.
- Nível arquetípico (exemplares), onde as virtudes existem como formas transcendentais na própria Mens divina.
- Pontos de acordo e divergência entre Macróbio e Cícero sobre a natureza da alma e do cosmos.
- Concordância sobre origem celeste da alma, corpo como túmulo da alma (soma-sema), alma como verdadeiro homem e grandeza das estrelas.
- Divergência sobre astrologia: Macróbio nega que estrelas causem eventos terrestres, embora admita que suas posições permitam previsões.
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