Da dialética e da alma
De onde a dialética tira seus princípios? É a inteligência que fornece princípios evidentes, desde que a alma possa recebê-los; daí a série de suas operações; ela compõe, combina e divide, até chegar à inteligência completa. A dialética, diz Platão, é o mais puro da inteligência e da prudência. Sendo a mais preciosa de nossas faculdades, ela se relaciona, portanto, com o ser e com a realidade mais preciosa, ou seja, a prudência com o ser e a inteligência com o que está além do ser. Então, a filosofia não é preciosa entre todas as coisas? Sim, mas a dialética é idêntica a ela, ou pelo menos é a parte preciosa dela; não vamos acreditar que ela é um simples órgão do filósofo, que é simplesmente um conjunto de teoremas e regras; ela trata de realidades, e sua matéria são os seres; mas ela tem um método para chegar aos seres e possui, ao mesmo tempo que os teoremas, as próprias realidades. Ela só conhece o erro e o sofisma por acaso; quando outro os comete, ela os discerne como algo que lhe é estranho; ela conhece o erro pela verdade que há nela, quando lhe é apresentada uma afirmação contrária à regra do verdadeiro. Ela ignora a teoria das proposições (que são para ela como as letras são para uma palavra); mas, conhecendo a verdade, ela sabe o que se chama proposição e, de maneira geral, conhece as operações da alma; a proposição afirmativa e a negativa; a regra: Se negamos (o consequente), postulamos (o contrário do antecedente) e outras regras análogas; ela sabe se os termos são diferentes ou idênticos, mas tem todo esse conhecimento de forma tão imediata quanto a sensação percebe as coisas, e deixa para aqueles que têm gosto por esse estudo o cuidado de falar sobre isso com minúcia. ENÉADAS: I, 3 (20) - Da dialética 5
