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Primeiro Alcibíades

Sobre a justiça. “Conhecer-se a si mesmo é o fim do homem, que consiste em conhecer-se a si mesmo enquanto alma”. “O homem é a alma” (130c-131a). A virtude é necessária tanto para o indivíduo como para a cidade.

Citações

“Aquele que serve o corpo serve o que é seu, não o que ele é”. Alcibíades, 131B
“Aquele que só conhece o corpo, conhece o que é do homem, mas não o homem ele mesmo”. Alcibíades, 131A

Renaud & Tarrant

PADAR

  • Natureza enigmática do Alcibíades e problemática da autenticidade histórica no contexto do corpus platônico.
    • Manifestação de hibridismo estilístico e temático que funde técnicas elencticas socráticas, discursos intermediários e densidade metafísica tardia em obra de difícil periodização.
    • Presença de características linguísticas heterogêneas e resumo denso da ética socrática que levantam suspeitas sobre autoria desde o século XIX.
  • Crítica à hermenêutica do desenvolvimento linear em favor de abordagem unificadora da tradição filosófica.
    • Superação da cronologia tradicional para considerar diálogo como reflexo fiel do projeto platônico e da relação entre socratismo e platonismo.
    • Validação da tradição antiga, com ênfase no comentário de Olimpiodoro, para compreender texto como parte legítima e influente da transmissão do conhecimento.
  • Status privilegiado do diálogo na Antiguidade Tardia e função pedagógica no currículo neoplatônico.
    • Leitura do Alcibíades como arché da filosofia e base fundamental para ensino da totalidade do pensamento de Platão.
    • Identificação do skopos ou objetivo unificador voltado para conhecimento da natureza racional e da essência da alma humana.
  • Integração entre forma dramática e conteúdo doutrinário na busca pela verdade universal e atemporal.
    • Princípio de unidade interna que articula disposições dos interlocutores com necessidades pedagógicas do leitor em busca da autodescoberta.
    • Valor heurístico das interpretações antigas como contraponto às teorias modernas e como ferramenta para clarificação de axiomas interpretativos contemporâneos.
  • Ontologia do eu e investigação sobre autoconhecimento através da inscrição délfica.
    • Distinção metafísica entre alma, corpo e composto, estabelecendo alma como verdadeiro eu e objeto primordial do cuidado (epimeleia).
    • Emergência do conceito de auto tauto ou o si mesmo em si mesmo como fundamento para reflexividade e identificação da essência individual.
  • Dinâmica dialética do encontro entre Sócrates e Alcibíades e possibilidade de progresso cognitivo mútuo.
    • Transformação da relação agonística inicial em exploração conjunta onde ambos os participantes buscam superar ignorância e atingir excelência.
    • Representação do momento de descoberta ou eureka socrático que dramatiza avanço na compreensão da identidade humana durante o diálogo.
  • Importância da synousia e mentoria filosófica como via para libertação da ignorância dupla.
    • Papel do mentor na remoção da névoa visual e intelectual, permitindo que o discípulo se enxergue através do reflexo da razão e da virtude.
    • Dimensão trágica e urgente do compromisso com autoconhecimento face às ambições políticas e ao destino da alma na esfera pública.

Aubry

PT53

Tomemos a interpretação de Gwenaëlle Aubry, em sua tradução do tratado 53 de Plotino, que se guia em parte pelo Primeiro Alcibíades. A exploração do preceito délfico toma duas vias sucessivas, das quais uma apenas conclui. Em um primeiro tempo, o objeto do conhecimento de si vai ser identificado ao eu individual e encarnado: também a definição do homem em 129 e na medida que ela faz intervir a relação ao corpo (caracterizada como sendo ao mesmo tempo de uso e de dominação), é ainda aquela do indivíduo. A partir de 132d, no entanto, com a introdução do paradigma ótico, o diálogo se engaja em uma nova via: o que ensina o paradigma, com efeito, é, como escreve Jacques Brunschwig, que “a relação entre alma e alma reconduz (…), pela descoberta do que há de “melhor e mais divino” na alma humana, do divino na alma ao Deus ele mesmo que dela é o modelo. Esta relação conduz ao mesmo tempo, para a descoberta do que há de “impessoal” no que há de “melhor e de mais divino” na alma, a uma superação decisiva da individualidade pessoal”. A relação inter-humana, que se pode dizer “horizontal”, e que se atualiza, em particular, no diálogo, se supera assim em uma relação “vertical”, “excêntrica” ou “teocêntrica”. Mas isto, por sua vez, engaja o indivíduo em uma outra relação consigo: descobrindo, através da relação inter-humana, o divino nele, descobre ao mesmo tempo que neste impessoal que é mais ele mesmo.

O “conhece-te a ti mesmo” recebe portanto uma nova interpretação: seu objeto verdadeiro não é o eu individual, encarnado, tomado na relação dialógica (o “sautón”), mas o si impessoal (o “auto to auto”). Como escreve Julia Annas, se meu corpo, pelo qual estou individuada, não faz parte do que sou realmente, então é possível que o que sou realmente nada é de individual: “My real self is just de self itself”. O que ensina o Primeiro Alcibídades é, portanto, ultimamente, que estou propriamente aí onde não estou, quer dizer além de mim, que sou eu mesmo o que não é eu, quer dizer o que não se reduz a mim — minha essência, na qual se anula o que me singulariza e me qualifica, mas em que reside, no entanto, minha identidade, minha interioridade e minha permanência.

Os comentadores do Alcibíades, no entanto, não se acordam todos sobre esta interpretação; Proclo e Damascio assumem no diálogo, vias opostas e exclusivas: para Damascio, o “conhece-te a ti mesmo” tem por objeto primeiro a alma que usa do corpo como de um instrumento. Este nível é aquele do eu individual, mas também das virtudes civis por oposição às virtudes catárticas e contemplativas; o escopo do diálogo é político. Para Proclo, ao contrário, auto designa somente a alma, e auto to auto (129b1 e 130d4), a parte racional. O escopo do diálogo é portanto ético: o conhecimento de si não tem por objeto primeiro o si individual, mas a alma que se esforça de se depreender do corpo, de se arrancar a sua particularidade.

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