Eríxias
Brisson
O início do Êrixias, que recorda o prólogo do Carmides, põe em cena, ao lado de Sócrates e de Êrixias de Stiria, Crítias, que viria a ser um dos Trinta tiranos, e Erasístrato, o sobrinho do demagogo Feax, que talvez tenha sido, ele também, um dos Trinta. Êrixias é o principal interlocutor da primeira parte, Crítias da segunda, e Sócrates da terceira, enquanto Erasístrato permanece no conjunto apagado.
Três teses são examinadas no decurso deste diálogo narrado.
1) Só o sábio é verdadeiramente rico.
2) A riqueza não é em si nem um bem nem um mal, mas pode tornar-se um ou outro.
3) A riqueza é indissociável da utilidade.
São ricos aqueles que possuem objetos de valor. Mas nada tem mais valor que a felicidade. Ora, a felicidade é indissociável da sabedoria. A conclusão impõe-se, portanto: a sabedoria que assegura ao homem a felicidade é o mais precioso dos bens. Êrixias não se convence pelo que considera uma justa oratória, e recomenda que se prossiga a discussão noutro terreno (393a-395e) colocando a seguinte questão: a riqueza é um bem ou um mal? Êrixias estima que é um bem, enquanto Crítias procura mostrar que nem sempre é o caso, pois a riqueza permite satisfazer todos os desejos, o que faz que frequentemente seja fonte de males (395e-397c). Sócrates intervém para poupar o amor-próprio de Êrixias narrando uma anedota. Um dia em que Pródico sustentava a mesma tese que Crítias, foi confundido por um jovem, e teve de deixar o ginásio onde falava. Como explicar então que Crítias seja agora considerado o vencedor? Pela qualidade do homem. Em Pródico, os ouvintes viram um sofista e um tagarela; em Crítias, distinguiram um homem político digno de consideração (397c-399d). Mas a vitória de Crítias não é definitiva. É preciso prosseguir a discussão. Ser rico é possuir muitos bens. Trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente. É preciso ainda que esses bens sejam úteis, que sirvam para algo. Mas se é possível prover às necessidades da vida sem fazer intervir o que se considera como riquezas, o ouro e a prata por exemplo, então é preciso concluir que o ouro e a prata não são riquezas (401a-402d). Por outro lado, as riquezas só são úteis àqueles que sabem usá-las, isto é, aos sábios; daí segue-se que só os sábios são ricos (403b-c), o que constitui um retorno à primeira tese. Finalmente, força é constatar que as riquezas servem para saciar necessidades. Ora, as necessidades são dependentes de desejos, e aqueles que são ricos são os que têm mais desejos. Mas os desejos podem levar ao mal. Por via de consequência, o estado melhor é aquele em que se experimentam menos desejos, em que se têm menos necessidades, pois os mais ricos são também os mais miseráveis (402d-405e), o que constitui um retorno à segunda tese.
Tudo leva a crer que este diálogo foi redigido no quadro de uma Nova Academia que se havia aproximado do estoicismo. A influência estoica é nele de fato indubitável, como testemunham a tese segundo a qual só o sábio é rico e a classificação das riquezas entre as coisas «indiferentes», isto é, entre aquelas que não são nem boas nem más em si.
Gredos
* A ação dialógica situa-se no pórtico de Zeus da ágora ateniense, onde Socrates, em companhia de Erixias, trava contato com Critias e Erasistrato, este último recém-chegado de uma estadia na Sicilia, cujo relato sobre as tensões políticas da ilha serve de preâmbulo para uma investigação filosófica acerca da natureza da riqueza, motivada pela presença de embaixadores sicilianos cuja opulência material coexiste com uma reputação de profunda perversidade moral. * A estrutura do diálogo organiza-se em três partes fundamentais que correspondem a três teses distintas, articuladas por meio da alternância de interlocutores que Socrates submete ao escrutínio dialético, partindo das considerações iniciais de Erasistrato sobre a identificação entre felicidade e sucesso para o debate subsequente com Erixias e Critias, culminando em uma discussão coletiva que visa delimitar a essência da riqueza para além das aparências vulgares. * A primeira tese estabelece que a felicidade, compreendida como o bem mais preciado e a obtenção do sucesso com o mínimo de erro, vincula-se necessariamente ao saber, de modo que os homens verdadeiramente felizes são aqueles que conhecem o bem, o mal e as condutas adequadas, levando Erasistrato a convir que a sabedoria é a única riqueza autêntica e soberana, capaz de assegurar o êxito em todos os domínios da existência humana. * A resistência de Erixias à identificação entre saber e riqueza baseia-se na percepção de que a sabedoria carece de utilidade quando o indivíduo padece de necessidades básicas, ao passo que Socrates argumenta que a ciência constitui um bem comercializável e administrável, tal como qualquer arte técnica, refutando a acusação de que seus argumentos seriam meras manobras da eristeia destinadas a fazer prevalecer o argumento mais forte em vez do mais verdadeiro. * A segunda parte do debate investiga se a riqueza é intrinsecamente um bem ou um mal, momento em que Critias emerge como voz discordante da opinião comum ao afirmar que o acúmulo material pode ser nocivo quando motiva atos delituosos ou compromete a saúde, provocando uma disputa em que Erixias é compelido a reconhecer que a riqueza, como incentivo das paixões, atua frequentemente como fonte de males. * Socrates intervém como árbitro e evoca o pensamento do sofista Prodico para sustentar que a bondade ou maldade das coisas não reside em sua natureza, mas no uso que o agente faz delas, embora constate ironicamente que o triunfo de Critias sobre Erixias decorre menos da validade lógica de sua argumentação — que assemelha-se à de Prodico — e mais do prestígio pessoal que o interlocutor desfruta perante a audiência, o que mantém a questão da essência da riqueza ainda sem resolução definitiva. * A terceira tese postula que o valor e a riqueza de qualquer objeto são inseparáveis de sua utilidade, definindo riqueza como tudo aquilo que serve para satisfazer as exigências da vida, o que torna o valor de elementos como a moeda puramente convencional e dependente da necessidade, resultando na paradoxal inversão socrática de que o homem mais pobre seria tecnicamente o mais rico por ser o mais necessitado, enquanto a supressão das necessidades vitais anularia a utilidade de todos os bens materiais considerados riquezas. * A conclusão do diálogo relativiza a posse de ouro e prata ao propor que o homem pode prover sua subsistência por meio da sua episteme ou ciência, convertendo-a em objetos de primeira necessidade, o que reitera a tese de que os mais ricos são necessariamente os mais sábios, visto que as riquezas só são úteis e benéficas para aqueles que possuem a honradez e o conhecimento necessários para bem utilizá-las. * Socrates adverte Critias sobre o perigo de confundir o meio eficaz com o fim virtuoso, demonstrando que uma fortuna mal adquirida para fins de instrução geraria a consequência absurda de tornar o vício útil à virtude, e conclui que o estado de maior perfeição reside em experimentar o menor número possível de necessidades, de modo que aqueles que possuem riquezas apenas para satisfazer paixões insaciáveis são, em última análise, os seres mais miseráveis. * A obra revela-se um escrito eclético, inspirado em fontes de Platao como o Eutidemo e o Menon, onde a sophia é descrita como ciência do sucesso e o valor dos bens é determinado pela orthé chrésis ou uso correto, embora a indiferença pela riqueza e o aforismo de que só o sábio é rico aproximem o texto das doutrinas estoicas e cinicas, ecoando o pensamento de Diogenes de Sinope sobre a divindade daquele que possui poucas necessidades. * A menção à expulsão de Prodico pelo gimnasiarca e as particularidades linguísticas do dialeto atico, marcadas por termos da prosa tardia e aliterações pesadas, permitem que investigadores como Souilhe situem a composição do diálogo em uma data tardia, possivelmente no século III antes de Cristo, refletindo a influência de escolas helenísticas e a utilização de fórmulas céticas semelhantes às de Pirrao para expressar que a realidade não é mais isto do que aquilo.
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