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Enigma

Ramnoux

A crítica de Heráclito a Hesíodo abre uma enigma filosófica que não se resolve pela simples oposição entre mito e razão, pois ela nomeia entidades pertencentes ao mesmo tempo ao vocabulário arcaico da cosmogonia e ao vocabulário novo de um discurso sobre a natureza, colocando-as numa estrutura de frase em que um enunciado serve de atributo comum a dois contrários.

  • Heráclito afirma: “O mestre do maior número é Hesíodo. Todos creem que Hesíodo sabe o maior número de coisas — ele que sequer conheceu o Dia e a Noite! Pois Dia e Noite são Um.” (D.K. 57)
  • As histórias da filosofia ocidental traçam uma diferença intransponível entre Hesíodo e Heráclito, interpretando os primeiros como salto para a ciência ou para uma ontologia racional.
  • O vocabulário mítico remanescente nos textos iônicos é tratado ora como resíduo arcaico a expurgar, ora como concessão aos teólogos da época.
  • Este estudo postula, ao contrário, que há algo a ganhar relendo as velhas sabedorias em seu substrato cultural — o que abre outra interpretação.

A tentação de ler a boutade de Heráclito como expressão de um pensador sóbrio em guerra com sua tradição lendária ignora uma fase intermediária da vida dos signos, situada entre o poeta e o sábio, na qual a Noite não é mais a imagem materna vestida de luto nem ainda uma simples fase da revolução diurna.

  • Plutarco já atribuía à fórmula heraclitiana um sentido tranquilizador: o homem não precisaria distinguir dias fastos de nefastos.
  • O comentário de Sêneca oferecia uma leitura científica: todos os dias têm vinte e quatro horas, qualquer que seja a duração da fase diurna e da face noturna.
  • Reduzir em Um o dia e a noite poderia exorcizar os terrores noturnos — e aplainar o campo onde a ciência futura escreveria a fórmula dos movimentos planetários.
  • Ésquilo, nas Coéforas (v. 32 a 37), evoca os “Filhos da Noite” e o peso dos pesadelos “abatidos para soprar do fundo do Sono a vingança dos mortos”.
  • Uma outra fórmula heraclitiana diz: “Qualquer dia é de essência semelhante a todos os outros.” (D.K. 106)

A Noite funciona nesse nível intermediário como um nome — e talvez nada mais que um nome —, carregado da potência herdada da Mãe vestida de luto, mas já suscetível de ser manejado nas hierarquias de nomes próprias a essa camada de cultura.

  • Os nomes são distribuídos aos pares, confrontados e reunidos, colocados e deslocados em arranjos de palavras.
  • Arranjando convenientemente as palavras, forma-se sentidos sobre as maiores coisas ou adivinha-se sentidos sobre as coisas divinas.
  • A preciosidade do estilo gnômico seria filha da precaução do estilo oracular.
  • Entre as hierarquias de estilo cosmogônico e as enigmas heracliteanas há ao menos um elemento comum: os nomes.

Heráclito nomeia a Noite pelo nome da Benevolente — em grego eufrone —, mesmo no texto em que cita Hesíodo, ainda que a Teogonia lhe dê o nome sagrado de Nyx acompanhado de um cortejo de epítetos incantadores: a Negra, a Obscura, a Tenebrosa, a Temível.

  • É improvável que Heráclito tenha dado à Noite um nome com sabor eufemístico, e ainda mais duvidoso que tenha praticado um jogo de palavras com “eu phronein” ou com “phronesis”.
  • O jogo de palavras foi feito em algum ponto ao longo de uma tradição que utiliza Heráclito, e ele circulava antes que Clemente de Alexandria o recolhesse para formar sentidos edificantes.
  • O histórico dos valores do signo se esquematiza em seis estágios: (1o) a Noite nomeia uma epifania da potência presente no rito noturno; (2o) nomeia uma Potência colocada em segundo ou primeiro lugar nas genealogias, com as honras de Profetisa, Mãe ou Rainha; (3o) não é mais nada além de um nome, cuja imagem se apaga mas cujo poder de encantamento se conserva; (4o) não é mais nada além de uma palavra com um resíduo de potência para adivinhar ou formar sentidos por jogo; (5o) não é mais que uma palavra como as outras, designando o fenômeno desmistificado da noite de todos os dias; (6o) uma tradição lateral conserva as genealogias e a prática do jogo das palavras.

CRIANÇAS DAS NOITES

O “maior número” dos homens e o “maior número” das coisas opõem-se a Um colocado no fim da frase heraclitiana, formando um par exatamente comparável ao terceiro par da tabela pitagórica dos contrários conservada por Aristóteles — e não é certamente por acaso que a mesma fórmula contém outro par correspondente ao oitavo da mesma tabela: Luz e Trevas.

  • A fórmula contém também uma oposição entre o modo de saber da multidão crédula a reboque de um mau mestre, e o modo de saber que o mau mestre não possui.
  • Hesíodo ensinava que a Noite é filha do Caos, nascida sem união amorosa, com um gêmeo masculino — Érebo —, e que por scissiparidade ela se esvaziaria de um casal de filhos: Éter e Luz do Dia (Teogonia, v. 123 e 124).
  • Noite continua, sempre sem união amorosa, a procriar uma geração funesta (Teogonia, v. 212 a 233).
  • Noite e Dia, portanto, não são Um. Mais exatamente, ao começo nascem Três: Caos, Gaia, Éros. A Noite nasce na segunda geração como um ser gemelar e bissexuado.
  • O Dia aparece num nível inferior ao da Noite — e o que haveria nisso que justificasse a indignação de um sábio?

Vários nomes da progenitura da Noite tornaram-se nos textos pré-socráticos os polos negativos de pares contrários, e o catálogo dos filhos da Noite não é uma simples enumeração — é uma enumeração complexa que procede por grupos, hierarquizando-os com intenções sutis.

  • O primeiro grupo chama-se a Morte, com três nomes: Moros, Ker, Thanatos.
  • O segundo grupo coloca Hipnos à frente da raça dos sonhos.
  • O terceiro grupo é formado de dois: as entidades do Sarcasmo e da Angústia.
  • Três grupos de três Temíveis com nomes tomados da tradição popular: as Guardiãs (Hespérides), as Distribuidoras dos lotes (Moirai), as Vingadoras (Keres), com um poder estendido a toda parte.
  • Com um poder estendido apenas aos homens, voltadas para o mundo de baixo: a Nêmesis, flanqueada de Filotès e Apaté — a vingança marchando com a Paixão e a Ruse —, e o grupo da Guerra e da Decrepitude: Éris e Geras.
  • A subgeração de Éris enuncia todas as formas do mal entre os homens: Ponos (a Pena dos homens), o grupo da Privação (Esquecimento, Fome, Sofrimentos), o grupo da Violência (batalhas, combates, assassínios), o grupo dos usos maléficos da palavra (querelas, mentiras, palavras com duplo sentido), e por último Horkos — o Juramento.

Os nomes comuns ao catálogo hesiódico e à tabela heraclitiana dos contrários são, depois da própria Noite: a Morte, o Sono, a Guerra, a Velhice, a Fome, e provavelmente a Mentira — todos nomes de significação transparente para dizer o mal, ou ao menos o que os homens experimentam como mau.

  • No catálogo hesiódico, os nomes de significação transparente, vizinhando com nomes de tradição popular, evocam o divino — algo do divino se mostra, por exemplo, quando a Vingança avança sob a máscara enganadora da mulher demasiado amada.
  • Quem saberia dizer se esses mesmos nomes, tornados comuns para dizer os fenômenos da vida e da morte, já perderam seu brilho logofânico, ou se o conservaram com o poder de fazer surgir realidades tocantes?
  • Traduzir com os nomes comuns dos modernos seria cometer um contrassenso, pois os nomes comuns dos modernos não foram abstraídos do mesmo modo.

TÁBUAS DOS CONTRÁRIOS

A Tábua Heracliteana dos contrários deve ser reconstituída a partir de peças e fragmentos, sem mesmo ter certeza de que ela jamais tenha sido reduzida ou sistematizada, pois vários fragmentos fornecem pedaços de tabela, enquanto muitos outros são engastados na armadura de uma ou duas contrariedades.

  • O fragmento 67 (transmissão: Hipólito) fornece: “Dia e Noite — Inverno e verão — Guerra e Paz — Saciedade e Fome.” Uma glosa teria acrescentado: “todos os contrários, tal é o sentido.”
  • O fragmento 88 (transmissão: Plutarco) fornece: “O vivo e o morto — O desperto e o adormecido — O jovem e o velho.”
  • O fragmento 111 (transmissão: Estobeu) fornece: “Doença e saúde — Fome e saciedade — Fadiga e repouso.”
  • O fragmento 126 forneceria: “Coisas frias e coisa quente — Coisa úmida e coisa seca; ou melhor: Esquentar-se e esfriar-se — secar e umedecer.”
  • O fragmento 10 (transmissão: Aristóteles), pertencente ao registro sévère et sobre, fornece: “Coisas tomadas juntas formando um todo e não formando todo — portadas uma contra a outra, portadas uma ao encontro da outra — cantadas ao uníssono, cantadas cada uma em seu tom — A partir de tudo o Um e a partir do Um tudo.”
  • O fragmento 81, segundo Plutarco, forneceria três pares de verbos sem sujeito: “(ele) dispersa e (ele) reúne”, “(ele) se toma e (ele) fila”, “(ele) avança e (ele) se retira.”
  • O fragmento 34 (transmissão: Clemente de Alexandria), atestado ainda por uso formulário, fornece: “estar lá e não estar lá, ou estar próximo e estar distante.”

Outros pares contrários isolados nas fórmulas se encontram reunidos sob os signos do Um, do um e o mesmo, da coisa comum e do dieu: Noite e Dia (fragmento 57, transmissão: Clément), o casal divino de Hades e Dioniso (Fr. 15, transmissão: Clément), os dois casais da rota (Fr. 59, tr.: Hipólito; Fr. 60, id.), o começo e o limite (Fr. 103, tr.: Porfírio).

  • Outros pares são postos em evidência pelo despojamento das fórmulas — modo de leitura já conhecido da antiguidade, segundo o qual se buscam “os contrários ocultos na fórmula” (Clemente de Alexandria).
  • Os dois pares já bem conhecidos: Vida e Morte, Sono e Vigília — constituindo a armadura dos fragmentos 21 e 26 (tr.: Clemente de Alexandria).
  • Vida e Morte sob a forma verbal contrastada: viver-a-morte, morrer-a-Vida (Fr. 62, transm.: Clemente) — e os fragmentos de autenticidade duvidosa 76 e 77.
  • Os males (da doença) e os bens (da saúde) (Fr. 58, tr.: Hipólito).
  • O casal da Guerra e da Paz, sob a forma mais próxima da realidade concreta: violência e justiça na cidade (Fr. 80, tr.: Orígenes); e coisas justas e coisas injustas (Fr. 102, tr.: Porfírio).
  • O casal do movimento e do repouso: sob a forma concreta da fadiga e do repouso, ou da monotonia e da mudança (Fr. 84 a e b, tr.: Plotino).
  • Dois casais de verbos constituídos sobre a armadura dos contrários: portados-um-vers-o-outro e portados-um-ao-encontro-do-outro (Fr. 50, tr.: Clemente), e cantado-ao-unísono, cantado-em-desacordo (Fr. 72, tr.: Marco Aurélio).

Se se toma o atributo sob o qual os contrários são reunidos, ou o sujeito ao qual dois contrários são atribuídos, obtêm-se alguns termos simples: o Um, a Coisa-Comum, o mesmo, o um-e-o-mesmo, e ainda o dieu — sendo que os quatro grandes grupos temáticos são: (1o) o Um e o múltiplo ou o singular e o plural; (2o) o Comum e o particular, ditos do cosmos e da phronesis; (3o) o mesmo e o outro; (4o) o dieu e o homem.

  • Para o Um e o múltiplo, as fórmulas concretas incluem: muitas mercadorias trocadas por uma coisa preciosa (Fr. 90, Plutarco; Fr. 29, Clément); muito saber inútil trocado pela coisa sábia (Fr. 40, Diógenes; Fr. 57, Hipólito; Fr. 108, Estobeu); um homem sábio preferido ao maior número (Fr. 39, Diógenes; Fr. 49, Galeno; Fr. 104, Proclus); as constituições das cidades alimentadas pela lei única e divina (Fr. 114, Estobeu).
  • Para o dieu e o homem: com tudo e não importa o quê faz-se o Um; e inversamente, com o Um faz-se tudo e não importa o quê — para o dieu tudo é Um, tudo é comum, tudo volta ao mesmo, tudo é perfeitamente justo, e finalmente faz sentido; para o homem ao contrário, tudo está sempre em desordem, tão mal arranjado quanto um “monte de esterco”, e finalmente não faz sentido.

Não há sistema fechado — em presença de simples fragmentos, não se pode julgar com certeza, e os ângulos de visão poderiam se multiplicar, as oposições aflorar com a profusão e a liberdade da vida.

  • É preciso partir do real vivido: para o Um e o múltiplo, não partir da aritmética, mas de uma experiência infeliz (a do sábio incompreendido pela multidão) ou feliz (a do mestre reunindo vários alunos sob o mesmo ensinamento).
  • Para Guerra e paz, parte-se da contestação jurídica e do uso da violência no interior das cidades e fora delas.
  • Para trabalho e repouso: do operário assalariado, que descansa mudando de mestre, e do escravo, cujo destino é não poder mudar.
  • As categorias são dinâmicas: vale mais enunciá-las com verbos do que com nomes — antes “esfriar-se” e “esquentar-se” do que o frio e o calor; antes “um vive a morte do outro” do que a vida e a morte.
  • É preciso fazer grande uso da forma média do verbo: em vez de “o homem toma as coisas assim e assim”, dizer “as coisas se tomam assim e assado; a Coisa se toma” — pois com a primeira fórmula separa-se o sujeito do objeto, com a segunda é a Coisa mesma que se dá sob vários rostos.

A Tabela Pitagórica dos contrários (Aristóteles, Metafísica A 5, 986a — D.K. “Pythagoreische schule” B 5, p. 452) não contém mais nomes de deuses; ela contém palavras do registro sévère et sobre, ao lado de símbolos expressivos da reação do homem às experiências da vida, em para e em contra.

  • A limite e o ilimitado; o ímpar e o par; o Um e o múltiplo; o direito e o esquerdo; o masculino e o feminino; o repouso e o movimento; o reto e o curvo; a luz e a treva; o bom e o mau; o igual e o desigual.
  • Cinco desses nomes são comuns a essa lista e à lista heraclitiana, com outra escolha de palavras; eles são também diferentes dos seis comuns ao catálogo hesiódico e à lista heraclitiana — salvo noite-e-dia, sob a forma luz-e-trevas.
  • A lista pitagórica é fechada e sistematizada pela redução a dez, pois dez é o número sagrado por excelência.
  • Os abstratos do tipo sévère et sobre referem-se à experiência matemática, ao passo que não há qualquer traço de experiência matemática em Heráclito.
  • Nas fórmulas heracliteanas, os símbolos são mais ricos de lembranças vividas — referindo a práticas cultuais, artesanais, médicas, à comédia mercantil ou à tragédia política.

A dicotomia — o modo pelo qual o homem distribui os objetos de sua experiência em classes afetivas — explica a estranheza que a tabela pitagórica causa ao moderno: o mistura do nocturno e do feminino, considerados negativos, com propriedades matemáticas como o par e o ímpar.

  • O menino-homem distribui os personagens importantes de seu entorno familiar num lado paterno e num lado materno da parentela.
  • O descobrimento do mundo carrega o reflexo das estruturas da parentela — podendo ser mais complicado do que um corte simplesmente dicotômico, mas o corte dicotômico tem a vantagem de refletir o debate maior: lado pai e lado mãe.
  • A dicotomia favorece a desintrincação das pulsões positivas e negativas endereçadas normalmente a todo objeto investido de afetos — suprimindo problemas e colocando ordem no universo ao preço de uma simplificação excessiva.
  • A extensão do recorte em classes afetivas aos objetos do conhecimento matemático, à medida que se os descobria e nomeava, é um fato humano — testemunho da impotência do homem, às voltas com as pulsões contraditórias de seus instintos, de liberar seu pensamento de seu drama.

Lidas no registro do real vivido e com essa chave, as tabelas dos contrários reunidos tomariam outro significado: a reconciliação das potências, a igualização dos valores — não que tudo se tornasse igualmente indiferente, mas que as repulsões maiores do homem teriam sido domadas: a repulsão ao negro, ao vazio, à morte e ao esquecimento.

  • Se isso fosse verdade, Heráclito teria conquistado para o Ocidente não um universo esvaziado do divino, mas um homem esvaziado do Medo.

A Tabela de Parmenides não existe como documento, mas seu traço se encontra graças a um testemunho de Teofrasto e a um testemunho de Cícero.

  • O testemunho de Teofrasto (D.K. A, 46) comenta a doutrina testemunhada pelo fragmento 16 de Parmenides: a mistura de luz e trevas varia na constituição do homem, em sua membrura, e varia também sua disposição pensante.
  • O comentário de Teofrasto explica: trata-se de uma mistura de memória (mneme) e de esquecimento (lethe) — sendo que ao esquecimento convém restituir o valor de designar mais do que o esquecimento de um passado simplesmente temporal: a ignorância do futuro e das coisas divinas, e para Parmenides, a inconsciência do ser.
  • Restituindo esse valor às palavras, forma-se um excelente sentido parmenidiano: para cada homem, a mistura de luz e trevas é seu grau de inconsciência e de lucidez.
  • Teofrasto prossegue identificando a disposição pensante com a sensação — e a proporção da mistura varia também o sentir: quando não há mais nada de luz, o cadáver sente o frio e o silêncio; o vivo ao contrário sente a luz, o calor e a voz.
  • Os nomes da tabela parmenidiana são, sob o título Fogo etéreo de chama: a Memória, a Voz, o Vivo, a Coisa quente, a Coisa leve; e sob o título Treva ignorante: o Esquecimento, o Silêncio, o Cadáver, a Coisa fria, a Coisa densa.
  • O testemunho de Cícero (de natura deorum II, 28 — D.K. Parmenides, A 37) introduz no mundo de Parmenides figuras de monstros: Bellum, Discordia, Cupiditas — traduzíveis em grego com nomes do catálogo dos “noturnos”: Éris, Dysnomie, Filotès.

A Tabela de Empédocle (D.K. Empédocle — fr. 122 e 123) retraduz visivelmente em nomes de divindades refabricadas uma lista de abstratos constituídos por tradição filosófica — e constitui um fenômeno não arcaico, mas arcaizante.

  • As duas listas, reunidas em fragmentos que os especialistas aproximam sem ousar completamente confrontá-las, contêm nomes acasalados, todos reduzidos ao feminino — os tradutores alemães tentaram a aventura de tratá-los como nomes de fadas.
  • Chthonié e Héliopé = Obscuridade e Luz; Déris e Harmonié = Guerra e Paz; Kallistô e Aischré = Beleza e Feiúra; Thoosa e Dénaié = Velocidade e lentidão; Némertès e Asapheia = Verdade e confusão; Physô e Phthiméné = Vida e morte; Eunaié e Égersis = Sono e vigília; Kinô e Astemphès = Movimento e repouso; Megistô e Phorué = Brilho e sujeira; Sopé e Omphaié = Silêncio e Palavra.
  • Vários pares são comuns à tabela heraclitiana e à tabela empedocleana: Obscuridade-Luz, Guerra e Paz, Movimento e repouso — Empédocle acrescentou Rapidez e lentidão, Vida e morte sob os nomes do que faz brotar e do que faz perecer, Vigília e Sono.
  • Empédocle trabalha também com um vocabulário religioso de tradição e com o vocabulário do registro sévère et sobre — com a categoria un-a-partir-de-vários, vários-a-partir-de-um.
  • Empédocle se situa distintamente depois de Heráclito: ele é responsável por ter reinvestido em nomes de deuses refabricados sentidos filosóficos adquiridos, fazendo folclore com a sabedoria.

MUTAÇÃO DOS SIGNOS

O homem dispõe então de ao menos três registros: o dos nomes divinos, o dos nomes de coisas desmistificadas, e o registro sévère et sobre de um vocabulário todo novo — e é esta a idade das tabelas mistas, tudo pronto para que se desenvolva, paralelamente, uma física desmistificada e uma ontologia.

  • Os nomes divinos de tradição imemorial, que não significam nada de claro, tendem também a não se tornar mais nada além de nomes — mas como nenhum efeito físico deles se destaca, destaca-se alguma Coisa, que os nomes dizem e escondem, ou que — como exprime Heráclito — ela quer e não quer ser dita com um nome (D.K. 32).
  • O homem inventa palavras novas para dizer a Coisa — palavras de um registro sévère et sobre, capazes de apertá-la mais nua —, e faz também do sujeito do verbo ser, empregado solenemente nos tempos passado, presente e futuro.
  • O homem inventou para dizer a Coisa as palavras de uma heno-logia, de uma sofho-logia, ou de uma onto-logia.
  • Assiste-se então a um fenômeno singular e admirável: os teólogos em dificuldade de salvar as teogonias reinvestem em seu registro sentidos físicos e metafísicos — e não apenas os reinvestem em seu registro, mas ainda os vestem em contos, de modo que se consegue fazer um sortilègio metafísico ao ogro.
  • Quando os velhos nomes não se deixam facilmente torturar para dizer os novos sentidos, reinventam-se nomes de divindades mais complacentes — chegando a tomarem vida na imaginação popular e forçarem a porta dos templos.

Heráclito se situa provavelmente antes que a separação dos registros esteja consolidada — à idade em que os nomes, desprendidos dos dieux, se colocam mal entre as coisas e a Coisa, e têm uma vida autônoma, sendo capazes de formar por si sós sentidos inauditos.

  • Empédocle se situa distintamente depois — responsável por ter reinvestido sentidos filosóficos adquiridos em nomes de deuses refabricados.
  • Anaxágoras teria traduzido as cosmogonias em alegorias morais das lendas.
  • Demócrito — seu atomismo é infantil, mas para a postura mental, a disposição pensante e todo um ethos, ele nada tem a invejar ao homem de hoje.
  • Entre os grandes pré-socráticos, é preciso distinguir os da camada antiga e os da camada recente; e entre os mais recentes, Empédocle é o mais problemático — ele joga em vários tabuleiros e permanece o protótipo do homem dividido.

LENDA E DISCURSO

Há uma diferença entre um jogo de palavras de fonte pré-consciente e um jogo de palavras por assim dizer técnico, fabricado pela manipulação de sílabas segundo as leis de um gênero — e os dois tipos coexistem no mesmo período cultural.

  • O primeiro tipo é atestado por Ésquilo (portanto ao menos da geração das guerras médicas): o nome de Helene significaria que ela era a mulher que “arrebata” — jogo de palavras sobre o infinitivo aoristo helein do verbo arrebatar —, e ela arrebata a alegria da mulher ao marido e a vida a todos os guerreiros. (Agamemnon, v. 680 a 780)
  • O segundo tipo é atestado por Eurípides e colocado na boca de um sacerdote sofisticado: Zeus quis subtrair o filho Dioniso, nascido de seus amores clandestinos com Sêmele, ao ciúme de Hera — deu-o “em penhor” (homéron) a Hera, e o jogo de palavras o transforma em “na coxa” (en meroi), dando a lenda de Zeus que arrancou o embrião do ventre da mãe culpada e o costurou em uma bolsa em sua coxa. (Eurípides, Bacchantes, v. 523 a 528)
  • O jogo de palavras serve de elo de ligação para passar do tema da criança nascida da coxa do pai ao tema da criança dada em penhor.
  • Teólogos sofisticados operaram a substituição — substituindo a criança em suas fraldas pela Chthon envolvida de Aither — e conseguiram fazer dizer à natividade de Dioniso algo como a física de Anaxágoras.
  • Anaxágoras concebeu um estado do mundo no qual o Éter degolado liberta o primeiro da mistura que oprime todas as outras coisas (Anaxágoras, Fr. 1).

A invenção verbal característica dessa camada de cultura muda o homem porque os nomes e as palavras, com suas associações autônomas, seus jogos extraordinários, acabam por lhes dizer sozinhos sentidos inauditos — até o tempo depois em que o homem começa a desconfiar das palavras.

  • O homem opera um retorno à própria coisa e a reencontra desmistificada — como se ele se apoiasse no discurso para escapar à fascinação das coisas, e nas coisas para escapar à fascinação das palavras.
  • O Ocidente se mantém então com o homem, com a virtude suprema que Demócrito chamava a virtude do athambie (athambie): a disposição do homem que não se deixa impor e não se maravilha com nada.
  • O discurso em registro sévère et sobre não se articula mais tão facilmente aos nomes divinos — mas se articula ainda às dicotomias e às parturições da cosmogonia.
  • A lenda continua nos fundos da imaginação humana e se agarra ainda aos catálogos fora de moda dos especialistas em discurso sagrado.

Para ler Heráclito convenientemente, é preciso saber adotar uma disposição — sacrificando os hábitos do moderno evoluído e o vocabulário confortável das filosofias pós-platônicas — pois ele se coloca no caminho da invenção de um discurso novo, mas distintamente antes da separação dos registros.

  • Sempre é legítimo interpretá-lo no sentido sábio de uma física desmistificada, e no sentido religioso de uma teologia gnóstica — alternativa e simultaneamente, segundo o modo do tempo e do país, e segundo o caráter dos intérpretes.
  • Uma terceira aventura resta a tentar: puxá-lo no sentido de volta, à idade em que as palavras retomam sua autonomia, e mesmo um pouco de sua fascinação.
  • Arranjando as palavras substituindo-as umas às outras segundo regras delicadas — que não são as regras de uma álgebra, nem as de uma logística, nem as de uma lógica aristotélica, nem as de uma sofística, nem totalmente as da poesia —, formam-se sentidos, jogando com um Eterno Infante.
  • Noite e Dia é Um! — isso quer dizer simplesmente que, tomado em conjunto, isso faz sempre vinte e quatro horas, segundo o ritmo necessariamente alternado de duas fases?
  • Se tal é o sentido e nada mais, por que a cólera contra Hesíodo? Não há mais semelhança entre seus dias e suas noites do que entre “o cão constelação celeste e o cão que late”.
  • A fórmula, que mantém com a imagem uma relação de correspondência, faz sem dúvida passar a um nível superior, e permanece suscetível de portar um sentido difícil — mas ela não guarda menos um poder e um charme: o poder de lembrar a emoção do encontro sobre o limiar, e o charme das imagens que iluminam sem esgotar sua significação.
  • Uma grande ideia suscetível de ser elaborada em ciência se articula a uma grande imagem eternamente humana — e não se deve quebrar explicando demasiado facilmente o ressort da articulação, pois se faz a doutrina mais clara, mas se a desarraiga; e falta ao dever de explicar por que as fórmulas guardaram, ao cabo de dois milênios e meio, o poder de fascinar suficientemente os pesquisadores para que consagrem anos ao labor de sua elucidação.
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