FRAGMENTO 4
EUDORO DE SOUSA
4. «Todavia considera como pelo pensamento o ausente te é firme presente. Pois (pensando) não cortarás o que é da sua conexão com o que é, nem ordenadamente por toda a parte se dispersando, nem se aglomerando.»
GREDOS XII
«Observa cómo, estando ausentes, para el pensamiento las cosas están presentes.
Pues no se interrumpirá la cohesión del ente con el ente, ya sea dispersándolo en todo sentido, totalmente en orden, o bien combinándolo.»
BARBARA CASSIN
Olha pelo pensar as coisas que não são no entanto aí como sendo aí, firmemente; pois tu não cortará o ente aparte do ente, que não se manterá então nem dispersado por toda parte em todas as maneiras por conta do mundo nem reunido.
PETER KINGSLEY
Veja como é que coisas distantes estão firmemente presentes a tua mente. Pois por mais que queiras, não há maneira que possas cortar ser de ater-se fortemente a ser.
Comentários
Peter Kingsley
As palavras da deusa focam no essencial com precisão, são diretas como sempre, e, no entanto, evocam confusão. Porém, tudo que ela está descrevendo, o que lhe concerne realmente, é a abolição da separação. E note-se sempre de onde ela fala: o domínio da morte, ou seja, aparentemente da separação.
Se pensas em algo fora da vista, muito distante, então a tua mente não conhece distância: o que quer que penses está diretamente presente na tua consciência, és “ciente-com”. Não há distância em absoluto entre ti mesmo e o que estás imaginando ou vendo. Só entretemos algum sentido de separação porque nossa consciência está completamente livre de separação. A aparência de descontinuidade é impossível sem uma perfeita continuidade; a ilusão de ausência é criada pelo que está sempre presente.
Onde quer que olhemos, o próprio ato de olhar significa que a separação simplesmente não existe. E esta ausência de separação não é algo intelectual ou um ideal místico, algo reservado a espíritos ou anjos. É a realidade do mundo de todos os dias que vivemos. Uma vez realizado isto não há mais um incessante vaguear aqui e ali, não há mais ir a algum lugar. Nossa consciência não é mais algo perdido, em alguma parte vagueando, dentro de um mundo. Ao contrário, tudo se dá em tua consciência, imóvel e imutável. Embora permaneça o risco de milhares de maneiras de nos perder dentro dela; de cairmos na armadilha se acreditarmos que realmente importa o que pensamos.
Assim só ha uma escolha, é ver que não há escolha porque nossos pensamentos não são nossos; nunca foram. Eles são apenas a realidade pensando a si mesma. Controlá-los é nos separarmos da realidade, de nós mesmos, lançando-nos no futuro ou no passado. Pois mesmos os pensamentos sobre o passado e o futuro estão no presente. O pensamento nunca para de separar e escolher, e ao final reunir fragmentos de existência como uma identidade.
Entretanto, se ao invés de correr em direção ao que queremos e para longe do que estamos com medo, somente nos mantivermos no presente, então mesmo a dor não é uma causa para o medo. Algumas vezes a dor é tudo que temos: é o que nos faz real e nos dá existência, é a terra e o solo de nosso ser, é o que nos faz humanos e nos oferece a dignidade eterna de “ser” humano.
A maior parte da dor que experimentamos é somente o resultado de fugir da dor. A dor, ela mesma, é uma sensação intensa — e a sensação nada mais é que a realidade percebendo a si mesma. O estranho é que, se somos capazes mesmo por um momento de deixar a dor ser, ela tende a começar a procurar sua própria solução como uma parte do presente; uma parte do todo. Mais a isolamos, mais ela se torna um problema, e é somente quando dela tentamos escapar que somos fracos. Quando encaramos tudo no momento, como um todo, então somos invencíveis.
O que Parmênides está indicando — a unicidade, a completude, a ausência de separação — é uma realidade que vivemos sem mesmo nos dar conta.
