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pre-socraticos:parmenides-de-eleia:parmenides-poema:6

FRAGMENTO 6

EUDORO DE SOUSA

6. «Eis o que se deve dizer e pensar: o 'que é'. Pois o 'que é' é, e não-ser não é. Considera bem isto que eu te digo. Que deste caminho de inquirição (i. é: pensar o não-ser) te apartes; mas, depois, também daquele por onde erram os ignorantes mortais — os bicéfalos. Porque a inépcia é que governa, em seus peitos, o errante pensamento. E assim vão e vêm, surdos e cegos, embrutecidos, turbas de julgamento destituídas, para as quais, ser e não-ser, o mesmo é e não é, supondo que para tudo haja uma reversa via.»

GREDOS XII

«Se debe decir y pensar lo que es; pues es posible ser,
mientras nada no es posible . Esto te ordeno que muestres.
Pues jamás se impondrá esto: que haya cosas que no sean.
Pero tú aparta el pensamiento de este camino de investigación
[…] en el cual los mortales que nada saben
deambulan, bicéfalos, de quienes la incapacidad guía en sus
pechos a la turbada inteligencia. Son llevados
como ciegos y sordos, estupefactos, gente que no sabe juzgar,
para quienes el ser y no ser pasa como lo mismo
y no lo mismo.»

BARBARA CASSIN

Eis o que é necessário dizer e pensar: é em sendo pois é ser.
Mas nada não é; é assim que te levo a te exprimir,
pois é em primeiro desta vida de investigação-aí que te afasto.
E em seguida, é daquela onde erram sem nada saber os mortais
de duas cabeças; a ausência de meios faz correr
logo diante em seu peito seu pensamento errante; eles se deixam portar
tão mudos quanto cegos, desconcertados, raças que não distingue,
para quem o existir e não ser é estimado mesmo
e não mesmo. Seu caminho a todos remete a si.

PETER KINGSLEY

O que existe para dizer e para pensar deve ser.
Pois existe para ele ser; mas nada não existe.
Pondere isto!
Este é o primeiro caminho de investigação que te contenho.
Mas então te contenho assim também daquele que mortais fabricam, cabeças-duplas, nada sabendo.
Pois a inépcia em seus peitos é o que os dirige suas mentes vagabundas a medida que são carregados em confusão, surdez e cegueira ao mesmo tempo: multidões indistintas e indistinguíveis que reconhecem que ser e não-ser são o mesmo mas não o mesmo. E, para todos eles, o caminho que seguem é um caminho que se mantém dando voltas em si mesmo.


Comentários

Brun

Khre to legein te noein teon emmenai. Traduz-se geralmente: «É preciso dizer e pensar que o Ser existe sempre» (Zafiropulo) ou, «Deve necessariamente ser, o que pode ser pensado e de que se pode falar» ou «É necessário que uma expressão e um pensamento sejam» (Frankel). É difícil fazer uma escolha entre estas traduções, que, de qualquer modo, podem inscrever-se na interpretação clássica da ontologia eleática.

Aqui ainda, Heidegger dá uma interpretação, senão mais correcta, pelo menos original, esclarecendo-nos sobre o sentido do seu próprio pensamento e do movimento histórico-filosófico que a ele o conduziu. Sublinhando a importância do tempo legein, Heidegger, sempre preocupado em fazer convergir Parmênides e Heráclito, enquanto ambos são filósofos pré-socráticos detentores de uma forma de pensamento esquecida a partir de Sócrates, encontra aí uma teoria do lógos que aproxima da noção de physis heraclitiana. Traduz: «Há necessidade do dizer do mesmo modo que do entender, e o que é preciso dizer e entender é o ente no seu ser.» Esta passagem responde à pergunta: o que é o homem? E o noein não é de modo algum um poder que estaria no homem, é o devir que caracteriza o homem e no qual está situado, avança na história e, realizando a sua aparição, atinge o Ser. Daí a célebre definição de Heidegger de que o homem seria o guardião, o pastor do Ser. Hoje, seríamos vítimas de uma velha definição zoológica do homem, que faz dele um animal racional:

«No quadro desta definição assentou a concepção ocidental do homem, tudo o que se denomina psicologia, ética, teoria do conhecimento e antropologia. De há muito tempo, somos sacudidos numa mistura confusa de ideias e concepções tomadas dessas disciplinas.»

Para Heidegger, há pertença recíproca e separação do homem e do Ser. Por isso, a essência do homem seria a sua existência.

Seja qual for o caráter discutível das interpretações de Heidegger, por aventurosas que sejam as suas afirmações filológicas, elas permitem reencontrar, iluminada por nova luz, a ideia tão simples de que o Ser não é a existência. Isso mesmo acentuava Étienne Gilson, ao dizer: «A doutrina de Parmênides conclui pela oposição do ser e da existência: o que é não existe ou, se quisermos atribuir a existência ao devir do mundo sensível, o que existe não é.»

Kingsley

Usando neste fragmento a mesma linguagem que anteriormente, inclusive a frase que se repete: “o que existe para pensar”, assim como a desafiante charada sobre a não-existência do que não é.

A expressão “pondere isto” não é uma linguagem de debate intelectual, mas uma fórmula falada na Grécia pelos oráculos depois de dizer algo obscuro.

Um terceiro caminho aparece, no entanto, além do caminho da existência e da não-existência. Ou seja, primeiro o grande sim para tudo, então o grande não. A gora nos é apresentada um figura de pessoas que misturam os dois caminhos e criam um fantástico terceiro caminho, que perambula na existência mas ainda sustentando um opção na não-existência, que passam suas vidas tanto no sim como no não; o que resulta no caos.

A referência da deusa a “mortais” quer dizer a humanidade como um todo, ou “todos aqueles que estão não familiarizados com o divino”; “que inconscientemente ficam confusos em contradições porque tomam o mundo cambiante por realidade verdadeira”; que apenas veem suas circunvizinhanças diárias mas não podem ver através delas“.

Assim, o poema descreve a nós: não nos damos conta do óbvio; nada sabemos sobre nós mesmos; somos tão confusos que não reconhecemos da descrição de nossa confusão. A acusação comum de que ele criticava outro nesta passagem, Heráclito como alguns imaginam, é absurda pois a crítica é claramente com relação à nossa condição enquanto mortais.

A descrição que faz de nós mesmos é pontuada de humor, ao mesmo tempo. A principal imagem que usa para dar uma ideia de como nós mortais vivemos nossas vidas é: “a inépcia em seus peitos é o que dirige suas mentes vagabundas”. O humor fica claro se entendermos que a palavra grega usada para nossa tradução “dirigir” tem o sentido de “direção reta” — condução reta, manter-se habilmente em curso preciso sem desvios. Logo, dirigir e vagabundear são opostos na mesma frase.

Por outro lado, nossa inépcia é o que faz a direção, pois nos dá a ilusão que estamos realmente em controle embora tenhamos perdido qualquer sentido de direção a muito tempo. É isto que Parmênides quer nos dizer: estamos perdidos e, no entanto, nos achamos em controle de nossa direção. O que vem ao encontro da colocação anterior, feita pela deusa, da necessária decisão entre dois caminhos, seguindo aquela direção decidida de modo reto. Mas, estamos em cursos autocorretivos indo a lugar nenhum.

O vocabulário usado por Parmênides para evocar nosso estado de “perdição” faz apelo a uma palavra chave no pensamento grego: “metis”. Esta era a palavra que os gregos usavam para astúcia, habilidade, inteligência prática; e especialmente para esperteza. Metis era o que poderia fazer humanos, em seu nível mais básico, igual aos deuses. Longe de ser um conceito, metis significa uma qualidade particular de intensa consciência que sempre consegue se manter focada na totalidade: a espreita de dicas, mesmo sutis, para se guiar em qualquer forma que se tome, por sinais no caminho a seguir por mais fugidios possam aparecer ou desaparecer.

No mundo da metis não há campo neutro, segunda chance. Quanto mais se toma parte nele mais se descobre que tudo, inclusive a tecedura da realidade ela mesma, é enganadora, é ilusão. Ou se está alerta ou se está em perdição. Não há pausa para descanso, ou hesitação, entrementes.

Parmênides escolheu a palavra “inépcia”, ao invés de qualquer outra, para evocar a condição humana. Em grego a palavra é “amechania” — que literalmente significa “sem manha”. Era usada para descrever pessoas que foram enganadas e capturadas, sobrepujadas, que estão privadas de quaisquer recursos em uma situação de perdição. Assim refere-se com perfeição ao resultado de uma total falta de metis.

Então Parmênides fala de “direção”, o que qualquer grego, seu contemporâneo, sabia que para dirigir cavalos ou um coche — ou um barco através do oceano — era por meio de metis. Para ser capaz de dirigir se devia conhecer todas as artimanhas do caminho ou do mar, ser vigilante, completamente no momento presente. Permitir sua mente divagar não é possível nesta situação. Sempre é uma questão de manter os olhos no caminho adiante; atento a avisos e acima de tudo por algo que pudesse servir de sinal. Mas também era uma questão de se pôr à escuta, estar totalmente alerta em todos os sentidos. Mesmo um minuto de surdez ou cegueira poderia ser a perdição.

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