Furor Divino em Marsilio Ficino
Em suas obras sobre furor poético, Ficino mantém-se aparentemente próximo da definição platônica.
- Textos fundamentais: carta-tratado De Divino Furore (1457); carta a Antonio Pelotti e Baccio Ugolini Poeticus furor a Deo est (1474); Epítome ao Ion (c. 1465); breve escrito De poetis na Teologia Platônica (1482).
- Definição do furor divino: súbita perturbação da alma, causada pela penetração do espírito divino, que obriga poeta a cantar e enunciar versos sem preparação ou intenção prévia.
- Método de composição: poemas são compostos sem técnica, sem mediação de regras artísticas.
- Escolha divina dos porta-vozes: deuses escolhem homens pouco preparados e que não se destacam pela perfeição de suas composições, para que autoria divina do poema seja inquestionável.
Ficino transforma sentido do elogio platônico, invertendo seu valor.
- Leituras divergentes: observações que em Platão soavam a mofa são recolhidas por Ficino como demonstração piedosa da grandeza dos agraciados pela graça dos deuses.
- Contradição aparente: Ficino não parece observar contradição entre a necessária “ignorância” do poeta defendida por Platão e sua subsequente “divinização” heroica.
- Interpretações posteriores: estudiosos propõem que “ignorância” referida por Ficino não seria das regras da arte, mas a “douta ignorância” socrática, o saber que nada sabe sobre o divino.
- Consequência histórica: teoria ficiniana abriu caminho para que Giordano Bruno, no final do século XVI, afirmasse superioridade do poeta genial e furioso sobre aquele que depende de regras, pois poema furioso contém suas próprias regras, inéditas e incompreensíveis para os não dotados de gênio.
Ficino oscila em sua descrição das qualificações do poeta inspirado.
- Pré-requisito do talento: em outros escritos, sugere que poetas que se enfurecem devem estar previamente dotados de talento artístico.
- Ignorância das regras conhecidas: artista em transe precisaria estar “na ignorância” de toda regra conhecida para poder penetrar nos novos paragens revelados por Deus sem mediações.
- Necessidade da espontaneidade: reações não devem ser mediatizadas por regras rígidas.
Platão apresenta duas visões do furor divino, uma restrita e outra ampla.
- Visão restrita no Ion: furor poético é fenômeno isolado que ocorre na alma dos poetas.
- Visão ampla no Fedro: furor poético é um episódio de uma afecção mais geral, o furor divino, que compreende também os furores amatório, religioso e profético.
- Função do furor no Fedro: é simultaneamente consequência e causa do retorno místico da alma ao seio de Deus durante momentos de rapto.
- Processo ascensional: distintos estados de furor geram primeiro produção erótica de filhos, depois composição de poemas, seguida pelo dom temporal da profecia e finalmente união com Deus.
- Preocupação central de Platão: iluminação e resgate da alma pela Verdade, beneficiando principalmente filósofos possuídos pelos quatro furores, não poetas com um só furor.
Ficino herda e amplifica contradição entre visão isolada e integrada do furor poético.
- Definições conflitantes: furor poético é definido tanto como turbação solitária da alma quanto como um dos quatro sintomas de excitação mais importante.
- Consequência idêntica: ambas as afecções dão lugar à criação de versos.
- Uso estratégico: Ficino parece recorrer ao furor poético isolado quando quer honrar educadamente algum poeta amigo, destacando que estava em graça com o céu.
Papel do furor poético na escala ascendente dos quatro furores revela contribuição original de Ficino.
- Adoção da teoria plotiniana do pneuma: alma está envolta por uma “vestimenta” que se impregna de impurezas durante sua queda do céu para a matéria.
- Missão dos furores: restaurar estado primitivo de pureza, limpando o pneuma queimando escórias, à medida que alma reatravessa em sentido inverso cada região celeste.
- Função de cada furor na escada ascensional:
- Primeiro furor: modera o que é dissonante e desacordado.
- Segundo furor: converte coisas moderadas de suas partes em um todo.
- Terceiro furor: unifica o todo acima das partes.
- Quarto furor: conduz ao Uno, que está acima da essência e de tudo.
- Retorno em vida: visão íntima de Deus não ocorre apenas após morte, mas em vida, através de exercício de introspecção.
- Agentes ativos da liberação: filósofos, visionários, poetas e homens de religião contribuem ativamente para sua própria salvação.
Primazia do furor religioso sobre os demais na hierarquia ficiniana.
- Não é o furor poético (como destacou Chastel) nem o amatório (como poderia deduzir-se de seus comentários), mas o religioso que ocupa posição suprema.
- Evidência textual: na Teologia Platônica, homem que medita sobre divino e se imbui dos mistérios perfeitos é único que se torna perfeito, estando sempre atado à vontade divina.
- Perfil do eleito: homem religioso e poeta, afastado dos problemas cotidianos, submisso às influências do planeta Saturno, portanto, um melancólico.
Síntese entre medicina, astrologia, hermetismo e platonismo na explicação do furor.
- Base antiga: furor divino era modalidade nobre de uma doença psíquica vulgar, a “mania” ou epilepsia, atribuída a má constituição humoral.
- Descoberta de Aristóteles: homens excepcionais em filosofia, poesia ou artes eram manifestamente melancólicos; sua excitação era devido ao acalentar do humor negro que afetava intelecto.
- Associação medieval: poetas furiosos foram considerados seres com excesso de bile negra, submetidos a Saturno, assim como criminosos.
- Inversão ficiniana: Ficino retoma associação, mas lhe dá volta positiva. A influência saturnina e a constituição melancólica não são maldição, mas predisposição física para receber influência divina.
- Perfil do porta-voz divino: não são ignorantes tomados ao acaso, mas pessoas fisicamente predispostas, os religiosos-poetas, laicos naturalmente facultados para receber a Deus.
Contribuição decisiva de Ficino para psicologia da criação artística.
- Síntese de fatores: grandeza da obra de arte não se deve apenas à composição inata da alma, à peculiar composição humoral do corpo ou à graça de Deus.
- Elemento novo: intervém vontade ativa do poeta com talento, que toma parte em sua própria “salvação”, ajudando alma e Deus.
- Princípio da cooperação: Deus quer que homem queira ser arrebatado. Amor divino inflama homem, e este, amando, ascende ao fervor de amar.
Papel da poesia no processo de salvação da alma.
- Elevação do status das artes: contribuição de Ficino é inegável para elevação das artes plásticas e poéticas de artes manuais a artes liberais.
- Paradoxo moderno: contudo, Ficino ainda dedica paradoxalmente pouca atenção às artes em si.
- Fim último do furor: finalidade dos furores não é, em princípio, a poesia, mas a salvação individual da alma, da qual a criação poética é acompanhamento.
- Poesia como causa e efeito: para Chastel, poesia não é apenas efeito residual, mas também causa e mesmo autêntico fim do processo.
- Variação do conteúdo poético: conforme furor predominante, conteúdo do poema varia. Sob furor amatório, canta-se à beleza terrestre reflexo da divina; sob furor profético, eleva-se a profecia; sob furor religioso, compõem-se hinos divinos ou cessa a palavra em admiração.
Poesia como excitante anímico e imitação da harmonia celeste.
- Função catártica e propulsora: cantar ajuda alma a penetrar mais profundamente no reino de Deus.
- Despertar pela música celeste: alma pode excitar-se ao escutar a música silenciosa das esferas, que evoca memória do reino divino.
- Resposta criativa: homem deseja recriar na terra parcelas do céu, pondo-se a cantar poemas musicados.
- Tripla beleza do poema musicado: beleza do conteúdo verdadeiro, da forma poética (ritmo e disposição) e da melodia.
- Poema como encantamento: à maneira de Orfeu, “cânticos” são poderosos encantamentos.
- Superioridade do poeta-músico: poeta que compõe versos e música é superior ao músico puro, pois une verdade do texto à harmonia celeste, sendo o ouvido interno a província da Verdade filosófica.
