FICINO (AZARA)
AZARA, Pedro. “Introducción” en FICINO, Marsilio. Sobre el furor divino y otros textos. Barcelona, Anthropos, 1993
A capela Médicis do palácio florentino Medici-Riccardi é alegrada por afrescos de tons flamejantes que despertam a imaginação dos visitantes desde o século XIX. Obras de Benozzo Gozzoli, elas mostram o lento e majestoso desfile, entre os campos arados sobrios e recortados próximos a Florença, de potentados exóticos a cavalo, cobertos de damascos dourados e com tocados orientais côncavos, acompanhados por pajens, soldados e galgos.
O interesse que suscitaram deve-se ao fato de que, durante muito tempo, acreditou-se que ilustravam um acontecimento histórico, excepcional e decisivo para o renascimento da cultura europeia: a chegada de sábios orientais, com uma aura de magos, à capital da Toscana, no início do século XV; o encontro entre o Oriente e o Ocidente ou o reencontro entre as duas metades do antigo Império Romano e, além disso, a entrada de filosofias antigas, esquecidas ou desconhecidas no Ocidente[1].
Costuma-se dizer que uma das principais diferenças entre a Idade Média e o Renascimento residia no fato de que a cultura medieval recorria ao aristotelismo para conhecer os segredos do mundo terrestre e ao cristianismo para tudo o que se referia aos problemas da alma, enquanto o Renascimento resolveu as relações entre o homem e Deus, e justificou o comportamento humano graças ao platonismo em detrimento da religião, e recorreu à ciência nascente, justificada pela confiança que o neoplatonismo tinha na capacidade do homem para resolver problemas estritamente materiais ou terrestres. Embora seja verdade que a cultura aristotélica não desapareceu a partir do século XV[2], entre a queda do Império Romano do Ocidente no século V e o reencontro de Roma com Bizâncio mil anos depois, no Ocidente só se conheciam quatro diálogos de Platão[3], e mesmo assim em versões latinas, uma vez que o grego caiu no esquecimento.
Nesta introdução à antologia de textos do monge renascentista Marsilio Ficino sobre o conceito de furor divino, pretende-se mostrar que, graças à recuperação dessa noção, o homem deixou de ser um “saco cheio de imundícies e excrementos”, como o qualificava o papa medieval Inocêncio III, e se tornou um poderoso descobridor e dominador de novos mundos, bem como o criador de um mundo até então inexistente: o universo da fantasia artística.
Tentaremos seguir os passos de Ficino, descobrindo junto com ele e com a mesma inocência alguns dos autores e textos que determinaram sua formação filosófica e sua concepção do furor[5]. Serão feitas breves introduções históricas aos diferentes conceitos que Ficino manejou, mostrando como sua poética reúne influências neoplatônicas, herméticas, sobretudo, e cristãs, sobre uma base de sólido platonismo, e como em sua concepção do furor poético se unem, por um lado, o furor da alma platônica de qualquer ser humano não embrutecido pelos prazeres quando descobre instintivamente a Verdade, e o furor da alma hermético-plotiniana dos religiosos na graça do Ser Supremo, e, por outro lado, o entusiasmo aristotélico dos homens privilegiados, influenciados por Saturno, os poetas.
Sobre o furor divino e outros textos está relacionado com o meu ensaio A inspiração artística no Renascimento (a ser publicado). Estes dois volumes constituem a base da minha tese de doutorado, orientada pelo Dr. Eugenio Trías Sagnier e lida na ETS de Arquitetura de Barcelona. Graças a uma bolsa do Ministério da Cultura (1987), pude transformar o texto principal no ensaio A inspiração artística, e graças ao interesse e à confiança da Editorial Anthropos, pude anotar e comentar os textos ficinianos sobre o furor incluídos na presente antologia.
No entanto, esses dois livros não são redundantes. Enquanto no ensaio a poética do furor, de Ficino, era tomada como ponto de partida para o estudo da poética e da tratadística maneirista e barroca, neste presente volume ela aparece como o fim de um movimento iniciado mil anos antes, durante o helenismo. No primeiro caso, valorizava-se o que a teoria da arte clássica devia a Ficino. Ao contrário, agora insiste-se no que Ficino deve ao neoplatonismo e ao hermetismo helenísticos.
Ambos os livros devem seu ponto de vista ao ensaio clássico de André Chastel, Marsile Ficin et l’art (Genebra/Lille, Librairie E. Droz / Librairie R. Giard, 1954), fundamental para compreender a teoria da arte de Ficino como ponte entre dois momentos, o helenismo e o maneirismo, que têm tantos pontos de contato com a modernidade.
Os estudos sobre Ficino são atualmente muito acessíveis graças às exaustivas pesquisas de Michael J.B. Allen, especialmente em The Platonism of Marsilio Ficino. A study of his Phaedrus Commentary, its sources and genesis (Berkeley / Los Angeles / Londres, Ucla Center for Medieval and Renaissance Studies, University of California Press, 1984).
Minha leitura da poética de Ficino e sua influência nas artes plásticas é necessariamente influenciada por minhas pesquisas sobre a influência da teurgia na pintura e na escultura renascentistas, realizadas no Warburg Institute de Londres (1990), e que deram origem ao ensaio Imagem do invisível (Barcelona, Anagrama, 1992).
Gostaria de agradecer os conselhos do Dr. Eugenio Trías sobre a filosofia helenística (cristã, órfico-hermética e neoplatônica). Por acaso, e com objetivos e ambições diferentes, consultamos os mesmos livros. Seus ensinamentos, perspicazes e pertinentes, enfatizaram autores como Filon e Clemente de Alexandria, amplamente comentados pelo próprio Ficino.
Agradeço igualmente os conselhos filológicos desinteressados do Dr. Darío López, que teve a gentileza de revisar várias das traduções dos textos ficinianos, sugerindo possíveis novas vias de investigação sobre a cultura filosófica de Ficino, bem como a presente introdução, contribuindo com numerosos esclarecimentos e precisões.
Não esqueço as facilidades concedidas pelo pessoal da Biblioteca de Letras da Universidade Central de Pedralbes, em Barcelona, e do Warburg Institute, em Londres (Biblioteca e Arquivo Fotográfico), especialmente François Quiviger, e a impassibilidade (inglesa) que demonstraram quando eu devastou as prateleiras que abrigam o neoplatonismo e Ficino.
E uma lembrança agradecida a Félix de Azúa, que me encorajou a embarcar novamente na fúria.
