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FICINO (BURROUGHS)

Marsilio Ficino figura como expoente mais influente do platonismo na Itália do século XV, situando-se na encruzilhada entre recepção da filosofia antiga e gênese de ideias modernas.

  • Nascimento e formação: nasceu próximo a Florença em 1433, onde influências humanísticas moldaram estilo de seus escritos e problemas que abordou.
  • Patrocínio de Cosme de Médici: sob seu mecenato, dedicou-se à tarefa de reviver platonismo na Itália como doutrina filosófica distinta e como movimento intelectual vital.

Primeira etapa do projeto: tradução e disponibilização das fontes do platonismo.

  • Corpus Hermeticum: tradução concluída em 1463.
  • Diálogos de Platão: tradução concluída em 1468.
  • Escritos de Porfírio e Proclo: traduções concluídas em 1489.
  • Escritos de Dionísio, o Areopagita, e de Plotino: traduções concluídas em 1492.

Fundação da chamada Academia Platônica de Florença em 1462.

  • Natureza da instituição: mais um círculo intelectual do que academia formal.
  • Local e função: villa em Careggi proporcionou a Ficino ambiente para promover estudo do platonismo entre grupo de pensadores, artistas e literatos.
  • Divulgação do pensamento: através de seu “ensino” em Careggi e de seus escritos, pôde inspirar nova atitude perante material platônico.

Características distintivas da filosofia platônica de Ficino.

  • Critério de escolha: harmonia percebida entre platonismo e fé cristã.
  • Precedente patrístico: uso de conceitos platônicos para apoiar crenças religiosas remonta aos Padres da Igreja, sendo Agostinho citado como guia.
  • Diferença crucial em relação aos predecessores: Ficino busca combinar doutrina platônica como um todo com doutrina cristã, algo possível apenas após recuperação dos textos originais completos.
  • Nova avaliação do platonismo: enquanto Agostinho via platonismo como fonte de verdades acidentais, Ficino o considera autoridade comparável à lei divina, essencial para confirmar religião cristã e torná-la racionalmente satisfatória para época cética.

Concepção de unidade e universalidade da aspiração humana.

  • Relação entre filosofia e religião: não são atividades separadas, mas manifestações de vida espiritual com objetivo único, atingir sumo bem.
  • Interdependência: religião salva filosofia de noção inferior do sumo bem; filosofia salva religião da ignorância, pois sem conhecimento não se atinge meta.
  • Consequência: filosofia deve ser religiosa, religião deve ser filosófica.
  • Concentração temática: sistema é construído sobre princípios universais, mas interesse último é glorificação da alma humana e demonstração de sua capacidade de atingir summum bonum, síntese de tradição religiosa e novo humanismo.

Divina origem do platonismo e universalidade da capacidade humana.

  • Verdade do cristianismo: não é questionada, mas não depende de revelação única.
  • Condição para superioridade cristã: perfecciona e facilita alcance de objetivo natural que todos os homens, em todos os tempos, desejam e têm capacidade de atingir.
  • Fundamento na natureza humana: busca-se base na natureza do homem para identificar sumo bem com conhecimento e fruição de Deus.
  • Argumento da concordância: acordo entre escritores herméticos, peripatéticos, platônicos e persas é usado como argumento a favor de verdade universal.
  • Relação com escolástica e aristotelismo: Ficino não se opõe, utilizando métodos dos primeiros e ideias de ambos, incorporando termos técnicos da tradição medieval.

Estrutura argumentativa das “Cinco Questões sobre a Mente”. Objetivo da obra: demonstrar que fim último de todo desejo e atividade humana só pode ser “verdade e bondade sem limites”, isto é, Deus, e que alma deve poder alcançar este fim e fruí-lo eternamente.

Teoria do appetitus naturalis (desejo natural) como fundamento.

  • Função explicativa: explica fatos observados de mudança ordenada e é consequência da perfeição de Deus e Sua relação com universo.
  • Ordem observada: resulta de tendência ou desejo inerente à essência característica de cada espécie, que a impele para fim particular identificado com seu bem.
  • Origem e fim do movimento: origem está na essência da coisa que se move; fim, na perfeição dessa coisa.
  • Caráter “natural”: desejos são assim chamados por dependerem diretamente da essência e serem comuns a todos membros de espécie.
  • Relação última com Deus: toda tendência natural está, em última instância, relacionada a Deus, como fonte e fim.

Princípio do primum in aliquo genere (o primeiro em qualquer gênero).

  • Definição: em todo gênero há membro mais alto, o primum, que contém por si mesmo essência característica do gênero.
  • Hierarquia resultante: outros membros referem-se ao primum como causa e fonte dos atributos que compartilham, organizando-se em graus descendentes de participação na essência definidora.
  • Aplicação à totalidade do Ser: Deus, como Ser e Bondade em si, é o primum do gênero do Ser. Todas as coisas abaixo d'Ele recebem ser e bondade.
  • Consequência para desejo natural: todos desejos naturais relacionam-se a Deus, tanto quanto à origem quanto quanto ao fim.

Garantia de alcance do fim apropriado.

  • Dependência da perfeição divina: perfeição de toda ordem é consequência necessária da perfeição de Deus.
  • Impossibilidade de desejo frustrado: coisa criada que não contribuísse para ordem e bem do todo seria contrária à “ordem da natureza”. Desejo natural não acompanhado de poder para alcançar fim próprio seria inútil.

Aplicação à alma humana.

  • Premissa: se coisas menos perfeitas são direcionadas a fins que as aperfeiçoam, alma também deve possuir desejo natural por fim identificado com seu bem.
  • Especificação do fim último: baseia-se na doutrina da posição metafísica única da alma.

Posição hierárquica da alma e suas características.

  • Alma como terceira ou essência média: é “fonte do movimento” na hierarquia do Ser.
  • Afinidade dupla: por posição central, tem afinidade com todas coisas acima e abaixo dela.
  • Autocinesia: capacidade de mover-se em qualquer direção.
  • Consequência psicológica: através do intelecto, alma busca conhecer todas as coisas; através da vontade, busca fruir todas as coisas.
  • Insaciabilidade do desejo: este desejo por toda verdade e bondade só pode ser satisfeito pela posse da verdade e bondade infinita, fonte de todas outras, isto é, Deus.

Dualidade da natureza humana e paradoxo resultante.

  • Alma inferior ou irracional: compartilha poderes de geração, nutrição e sensação com formas inferiores de vida.
  • Alma superior: inclui poder de contemplação (“mente” estrita), compartilhado com anjos e Deus, e poder discursivo da razão, peculiar ao homem.
  • Dupla tendência da alma: uma voltada para o corpo, associada aos sentidos; outra voltada para Deus, associada à alma racional.
  • Liberdade da razão humana: pode opor-se aos sentidos ou ser por eles enganada, impedindo alcance de seu próprio fim e bem.
  • Paradoxo prometaico: por causa da razão, essência do homem é mais perfeita que a de todos seres abaixo de Deus e anjos; também por causa da razão, homem é incapaz de atingir felicidade e perfeição final nesta vida.

Solução do paradoxo e doutrina da vida após a morte.

  • Recusa à contradição: princípio ontológico de que desejo natural não pode ser em vão exige que alma humana atinja conhecimento e fruição de Deus.
  • Postulado da vida após a morte: se não nesta vida, então na vida futura.
  • Satisfação da dupla inclinação: fim último só pode ser atingido quando inclinação para o corpo também for satisfeita, através da posse de um corpo “tornado eterno”.
  • Estado final: nesta condição mais natural, alma encontra repouso eterno.

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