I. A “alma” (psychê) é tematizada no corpus platonicum como alma do mundo (“boa”/“ordenada-ordenadora” ou “má”/“desordenada”; Tim. 34b; Fil. 30a; Leis 896d-898c), alma dos deuses (Eutid. 302d-e; Fedro 246a; Fil. 30b; Tim. 34a-b, 39e; ver DEUS/DEUSES), alma dos astros (Tim. 38e s., 40b, 41d; Leis 898c ss.), alma dos demônios (Fedro 246e; Banq. 202d; Epín. 984d; ver demônio), alma da terra (Fedro 247a; Tim. 40b-c) e, finalmente, como alma dos homens, dos animais (Tim. 90e passim) e das plantas (Tim. 77a-c).
II. O conceito platônico de alma tem vários aspectos, que se juntam nela formando uma unidade (mia idea, ver IDEIA): o ser “indivisível” ou “divisível” (ver Ser e participação), o “mesmo” “indivisível” ou “divisível” (tauton, ver identidade), o diferente indivisível ou divisível (heteron, ver diferença) e o automovimento circular, numericamente determinado (ver pensamento e movimento; Tim. 34b ss.; cf. CORNFORD 1952, p. 59 SS.; KARFIK 2004, p. 204-206; Perger 1997, p. 86 ss., 123 s.; RADKE 2003, p. 488-496). Ela é chamada de “o que se move a si mesmo” (to auto hauto kinun), “o sempre movido” (to aei-kinêton), “fonte e início do movimento” (pêgê kai archê kinêseôs) “para tudo que é movido”, “primeira causa do devir e do perecimento” e da “modificação” (próton geneseôs kai phthoras aition; alloiôsis), princípio “da vida inteligente incessante” (zôê, to zên, apaustos kai emphrôn bios) (Féd. 71c, 105c-d; Fedro 245c; Crát. 399d-400b; Teet. 181b-d; Parm. 138b-c; Tim. 36e, 37a-b ss., 77b; Leis 891e, 893b-896b; cf. Brisson 1998c; Karfik 2004, p. 149 ss., 214-216, 221-241; PERGER 1997, p. 123 s., 149 ss.; PlETSCH 2003). Por isso, como vínculo entre o “ser eterno” (do inteligível, nus) e as “coisas em devir” e “em perecimento” (coisas perceptíveis, ver devir/geração e matéria), ele tem no Timeu, por ação do criador do cosmo (ver demiurgo), uma participação nas duas esferas, as quais, por meio da alma, são constituídas como ordem inteligível do cosmo perceptível (Tim. 30a-c, 69a ss., Leis 899b), que, enquanto ser vivo (zôon), encerra em si todas as criaturas vivas, tal como um todo encerra em si suas partes, e está em processo de incessante rotação. Com ela surge simultaneamente o tempo, a “cópia eterna numericamente progressiva da eternidade, que permanece na unidade” (ver tempo; Tim. 27d-39e; cf. Perger 1997, p. 82 ss.; Karfik 2004, p. 174 ss.). Portanto, na medida em que a alma, na hierarquia da ordem do ser (ver graus do ser), não assume o grau primário, em relação às coisas em devir e em perecimento, das quais é causa, mas também não o último, ela é, de um lado, por agência “da melhor das coisas inteligíveis e eternamente existentes”, a “mais excelente das coisas geradas” (Tim. 36e-37a; cf. Cornford 1952, p. 94; Karfik 2004, p. 130 ss.; 185-201), e de outro, como algo não perceptível (Féd. 79a-c; Tim. 36e, 46d; Leis 898d-e) e primário em relação ao corpo, isto é, como algo que é “antes” do ou “anterior” ao corpo (proteron, emprosthen-, Féd. 72e-77b; Tim. 34b-35a, 46d-e; Leis 891e-892c, 896b-d, 899b), ela é aparentada (syngenés) com o “divino, imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel e mesmo, o idêntico a si próprio” (theion, athanaton, noêton, monoeides, adialyton, aei hôsautôs kata tauta echon heautô), e por isso é descrita como “não-gerada” (agenêtos), “imutável” (adiaphthoros, anôlethoros) e “imortal” (athanatos; ver imortalidade) (Féd. 69e ss., especialmente 105b-107a; Fedro 245c-246a; Rep. 608c-611a; Fim. 36e; Leis 894b-898c). (SCHÄFER)