- Rocha Pereira
- Francis Wolff
- Eggers Lan
- Jowett
- Luc Brisson
Rocha Pereira
Excertos da Introdução de Maria Helena da Rocha Pereira, à sua tradução da “República”
Seria o Livro I independente a princípio, e só mais tarde retocado para servir de proémio à República?
Justamente a palavra «proémio» aparece na primeira frase do Livro II, para classificar a conversa anterior. Esta forma um conjunto ordenado e completo, comparável aos chamados diálogos aporéticos, que se atribuem à primeira fase da obra do filósofo, e cujo esquema é fundamentalmente o mesmo: propõe-se uma definição de uma virtude, que vai sendo substituída por outras, à medida que Sócrates demonstra a sua insuficiência; de modo que, quando termina a discussão, a conclusão é negativa. Assim, o Lísis falha em definir a amizade, o Cármides a temperança (sophrosyne), o Laques a coragem, o Êutifron a piedade. A coragem, a temperança, a piedade formavam com a justiça o grupo das virtudes cardiais, já esboçado desde Ésquilo e Píndaro, pelo menos1. Ora, definir a justiça é o que tenta fazer, sem o conseguir, o Livro I da República. Seria esse o livro que faltava, para completar o conjunto, pois não era de supor que Platão, que, durante o período dos diálogos aporéticos, investigou todas as outras virtudes, omitisse esta. O argumento é de um dos melhores especialistas, Paul Friedländer, e de uma obra recente, a última que escreveu2. Mas desde 1891 que Dümmler3 havia notado as relações deste livro com os primeiros diálogos e o denominou Trasímaco, do nome do Sofista que é o principal interlocutor de Sócrates4. A hipótese de Dümmler continua a ter defensores, salvo quanto à suposição, que também formulou, de o livro se completar originàriamente com o mito terminal da obra — o que inutilizaria o argumento da antiguidade baseada no final apor ético5. Aceita-a como provável um dos mais recentes e mais autorizados ensaios sobre a República6. De qualquer modo, as diferenças de estilo7 e de vocabulário em relação ao resto da obra são suficientes para levar os partidários da tese unitária a analisar a estrutura do «pretenso Trasímaco» junto com a dós primeiros diálogos8. Mas temos de reconhecer que o Livro I desempenha admiràvelmente as funções de pórtico de um tão extenso tratado e que as potencialidades de dramaturgo, aqui tão exuberantemente reveladas, não o afastam das outras três obras-primas que, como já referimos, é costume considerar como compostas no mesmo período: o Banquete, o Fédon e o Fedro9).
Em qualquer caso, o Livro I corresponde a uma parte da obra que, além de ter a finalidade de apresentar as figuras e situar a discussão, fornece o tema da mesma — o que é a justiça — e refuta as definições propostas, a de Céfalo («dizer a verdade e restituir o que se tomou» — 331b), a de Polemarco («dar a cada um o que se lhe deve», segundo Simónides — 331e) e a de Trasímaco («o que está no interesse do mais forte» — 338c).
Francis Wolff
Eggers Lan
Jowett
Luc Brisson
- República I 327a-331d: Sócrates e Céfalo
- República I 331e-336a: Crítica das definições correntes da justiça
- República I 336b-350c: Exposição e crítica da tese sofística: a justiça é o interesse do mais forte
- República I 350c-354c: A noção do justo
- República Preâmbulo (L1): Crítica das ideias admitidas sobre a justiça
Respectivamente, viii.a Ode Istmica 24-253 e Os Sete contra Tebas 610. Vide infra, n. 16 ao Livro IV. ↩
Plato, 3, p. 63, onde retoma o que dissera no volume anterior (Plato, 2, p. 50), ao estudar o Livro I entre os diálogos do primeiro período (pp. 50-66). Note-se que, nesse mesmo vol. 2, p. 50, Friedländer tomou como base a sistematização de virtudes do Protágoras, que abrange, além daquelas quatro, a sabedoria (sophia), que, em seu entender, não poderia servir de tema para um diálogo aporético no primeiro período de Platão. A pergunta ficaria para o Teeteto… ↩
«Zur Komposition des platonischen Staates», Kleine Schriften, 1, 7, pp. 229 seqq. Dümmler teve, aliás, precursores, como Schleiermacher e sobretudo Hermann, conforme observa P. Friedländer, Plato, 2, p. 305, n. 1. ↩
Assim se criaria um paralelo com os outros grandes Sofistas, que dão, cada um, o título a um diálogo (Protágoras, Górgias, Hípias — este, com dois, o «Maior» e o «Menor»-, Crítias). A hipótese teria certo poder convincente, se existisse também um Pródico — tanto mais que Sócrates se declara discípulo ou ouvinte deste último (Ménon 96d) e o denomina seu companheiro (Hípias Maior 282c). Cf. ainda Teeteto 151b. Note-se também que no Protágoras estão presentes tantos desses mestres que E. R. Dodds pôde falar ironicamente de um «Congresso de Sofistas» nesse diálogo (na sua edição do Górgias, Oxford, 1959, p. 7). ↩
A história do debate, que nalguns casos se alarga à teoria de que o Livro 1 retrata o Sócrates real, foi feita por G. Giannantoni, «II primo libro della Reppubblica di Platone», Rivista Critica di Storia della Filosofia 12 (1957), 125-145 (citado por H. Cherniss, no vol. 4 (1959) de Eustrum, pp. 33-34 e 162). ↩
R. C. Cross and A. D. Woozley, Plato’s Republic. A. Philosophical Commentary, p. 42. ↩
Inclusivamente o tratamento das figuras, que, como já notou Wilamowitz (Platon, Berlin, 1929, p. 445), se esfumam progressivamente, a partir do Livro II. ↩
Assim faz, e. g., V. Goldschmidt, Les Dialogues de Platon, que o estuda entre os aporéticos. O mesmo autor chama a atenção (p. 135) para uma diferença subtil: os diálogos daquele tipo terminam por uma nota de esperança, apesar de não se ter conseguido a definição. Mas, neste, «a aporia final não é definitiva. Isso não o disse Sócrates. É Gláucon que o diz por ele. Significando assim que o diálogo precedente não forma senão um prelúdio, o «primeiro» livro da República». D. J. Allan (Plato: Republic Book 1, p. viii) notara também uma particularidade: nenhum dos diálogos mais antigos era tão negativo como este, se tomado isoladamente. Este mesmo especialista apresenta um argumento de economia dramática que não pode menosprezar-se: o silêncio, durante a discussão, dos irmãos de Platão (salvo em 347a), certamente porque os aguardava um papel maior (pp. vii-viii). ↩
P. Shorey, What Plato Said, conclui negativamente: «É impossível provar que o Livro I se destinava a ser publicado separadamente. A reconstituição feita por Dümmler de um Trasímaco anterior em data ao Górgias permanece, simplesmente, uma engenhosa conjectura» (pp. 214-215). A. Diès, na introdução à edição Budé da República, vai mais longe ainda na destruição do paralelo, ao notar que, se o Górgias acabasse com a discussão entre Sócrates e Polo, ninguém suspeitaria que o diálogo tinha uma segunda parte (p. xix).
(Entre os comentadores mais recentes, pensa do mesmo modo N. P. White, A Companion to Plato’s Republic, pp. 61 e 69, que entende não ser possível que este livro tivesse sido escrito como um diálogo separado, pois contém muitas indicações e conceitos que reaparecerão nos outros. Porém Julia Annas, An Introduction to Plato’s Republic, aceita como provável a hipótese, com base na comparação com o Clitofonte (que considera autêntico); não lhe parece, contudo, relevante para a interpretação global da obra, uma vez que “forma uma introdução perfeitamente adequada à discussão principal” (p. 17). ↩