Espírito da Escola Neoplatônica

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Período de 270 a 529 d.C. é considerado por Zeller e Ritter como carente de filosofia, se por filosofia se entende uma concepção racional dotada de espírito novo e força criadora original.

Seria uma injustiça e um insulto considerar este período como filosoficamente vazio e seus esforços como desprezíveis para o progresso da ciência e da psicologia.

A escola neoplatônica, após Plotino, dedicou-se à obra de difusão e penetração externa com desinteresse, abnegação, coragem e energia admiráveis.

A juventude cristã, como reconheceu com tristeza Gregório de Nissa, fazia todos os seus estudos em escolas pagãs, onde estava concentrada toda a vida intelectual.

Quase todos os escritos e o ensino oral da filosofia assumiam a forma de leitura comentada, tendo como objetos principais Platão e Aristóteles.

Gottfried Wilhelm Leibniz foi citado por ter ficado impressionado com um novo sistema que parecia aliar diferentes correntes filosóficas.

O sistema de Plotino continha a doutrina do ser perfeito, imóvel e imutável dos Eleatas.

O sistema de Plotino também continha o ato de Aristóteles oposto à potência, como motor imóvel do universo.

Plotino partia do indivíduo, à maneira de Aristóteles, e suprimia nele a multiplicidade material para encontrar seu princípio e sua verdadeira natureza.

Os neoplatônicos, sucessores e discípulos, conservaram a doutrina de Plotino quase intacta, mantendo seu princípio de intelectualismo absoluto e seu caráter profundamente psicológico e puramente grego.

O sistema da unidade absoluta era tão perfeita e poderosamente uno em si mesmo que salvava a unidade do sistema, não se podendo tocar nele sem o destruir.

Os caracteres específicos da essência da alma são, de um lado, a inteligibilidade, a imaterialidade e a eternidade; de outro, a unidade e a potência geradora.

O movimento da pensamento implica a ideia de um fim imóvel ao qual ele tende e onde aspira a repousar.

Esse Uno primeiro se comunicará, por sua própria perfeição, sem perder nada de sua imutabilidade e unidade.

O procedimento de exposição que difere entre os neoplatônicos faz aparecer cada vez mais o procedimento rígido, mecânico e uniforme do método silogístico e geométrico.

Seria injusto e inexato considerar a obra e os escritos dos neoplatônicos como estéreis ou mesmo insignificantes.

Os neoplatônicos têm o defeito de subtilizar, refinar, dividir a matéria ao infinito e abusar da interpretação alegórica.

A cadeia ininterrupta de filósofos da Escola de Platão era considerada pelos neoplatônicos como a cadeia de ouro de Platão ou a cadeia hermética.

Asclepius distinguiu dois grandes grupos entre os neoplatônicos: a raça de ouro dos exegetas (Alexandre de Afrodísias a Simplicius) e a raça de ferro (escritores sem autoridade e sem valor).

Proclo propôs uma classificação baseada no grau de afinidade com a filosofia de Platão, estabelecendo três graus de iniciação nos mistérios platônicos.

Creuzer dividiu toda a sucessão dos neoplatônicos em três grandes grupos chamados escolas: a escola Alexandrino-Romana (Amônio Sacas e Plotino), a escola Síria (Jâmblico) e a escola de Atenas (Plutarco e Proclo).

Zeller aceitou a divisão ternária de Creuzer, modificando-a ligeiramente, e caracterizou a escola de Alexandria e Roma por se manter predominantemente no terreno científico.

Para Zeller, Jâmblico, discípulo de Porfírio, é o fundador e chefe da escola da Síria, caracterizada pela tendência a confundir filosofia com teurgia e por uma tentativa de restauração do helenismo religioso.

A escola de Atenas, na classificação de Zeller, seria aquela para onde os filósofos se refugiaram após o édito de Justiniano, e incluiria Plutarco de Atenas, Siriano, Proclo, Marino, Isidoro e Damáscio.

A classificação em escolas de Roma/Alexandria, Síria e Atenas, baseada em centros geográficos de ensino, perde o sentido devido à dispersão e instabilidade dos professores.

A classificação em escolas precisa atribuir ao termo “escola” um significado de caráter, espírito, princípios e doutrinas com diferenças fortes e profundas para justificar a separação.

Zeller, partindo da hipótese de que a filosofia é filha da história, quer que o neoplatonismo e o cristianismo tenham nascido de uma mesma necessidade moral de crenças e vida religiosa.

Não se acredita que o neoplatonismo tenha nascido do mesmo princípio psicológico que o cristianismo, nem que o traço comum a todos os neoplatônicos fosse o esforço de restaurar o helenismo.

Acredita-se que há apenas uma escola neoplatônica, desde Plotino até Damáscio e Olimpiodoro, na qual o caráter filosófico, científico e racional é predominante.

Proclo, que pessoalmente se ocupava com ardor de ritos mágicos, não faz praticamente nenhuma parte a esses elementos em sua obra filosófica.

O que os neoplatônicos chamam de fé é, para eles, o resultado da ciência, seu último termo ao qual a alma não pode chegar sem ser preparada pela filosofia.

Kirchner contou apenas duas escolas: a de Plotino e seus sucessores imediatos, e a de Jâmblico, na qual ele fez Proclo e todos os últimos neoplatônicos se enquadrarem.

A afirmação de Kirchner é contestável e exagerada, pois os gregos sempre buscaram analogias entre sua mitologia e seus pensamentos mais abstratos.

O maior ou menor gosto e discrição no emprego da interpretação alegórica não pode servir de caráter racional para distinguir escolas filosóficas que reconhecem tantos princípios comuns.

Não se vê nada que justifique a divisão da escola neoplatônica em três ou mesmo duas escolas distintas.

A história da psicologia dos neoplatônicos sucessores de Plotino será reduzida aos pontos onde eles se afastam ou parecem se afastar do ensino de seu mestre comum.