O texto de V, 1, 8 das Enéadas dá o tom da interpretação plotiniana do Parmênides e enuncia a posição de Plotino como exegeta das doutrinas antigas — cujo caráter platônico é o fundamento de toda a metafísica neoplatônica.
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Plotino em V, 1, 8: “Nossas teorias não têm nada de novo… Não somos hoje senão os exegetas dessas velhas doutrinas cuja antiguidade nos é atestada pelos escritos de
Platão”
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O
Parmênides desempenha em
Plotino um papel considerável — quem quer que aborde as
Enéadas por qualquer lado encontra quase sempre uma citação ou alusão a esse diálogo platônico
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E. R. Dodds foi o primeiro entre os modernos a ter plena consciência desse fato; seu artigo sobre “O
Parmênides de
Platão e a origem do Uno neoplatônico” quase inaugurou uma época para o conhecimento do
neoplatonismo
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Dodds identificou o
Parmênides como origem de certos textos de
Plotino: “não há nas obras filosóficas gregas anteriores à época de
Plotino senão uma passagem — tanto quanto se saiba — onde essas ideias encontram expressão de tal coerência: a saber, a primeira e a segunda hipóteses do
Parmênides”
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Plotino lê no Parmênides a doutrina platônica dos três Unos, identificando-os com as três primeiras hipóteses do diálogo, examinadas sob o ângulo especial do Uno e do múltiplo.
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O Uno que é uno (primeira hipótese)
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O Uno que é (segunda hipótese)
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O Uno que é e que não é (terceira hipótese)
O primeiro Uno — o Uno-em-si — é absolutamente incompatível com o múltiplo e transcende qualquer número ou quantidade, sendo o princípio superior por excelência.
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Parmênides 137a: “O Uno não é múltiplo. A Unidade é, por natureza, incompatível, contraditória mesmo, com o múltiplo”
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Parmênides 137d e 140b: o Uno não é mensurável nem pertence à ordem do quantitativo
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Parmênides 141e: em rigor, o Uno não é… nem mesmo um
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Plotino: “É preciso saltar até o Uno e não mais lhe acrescentar nada… O Uno recusa-se a fazer número com qualquer outra coisa… De modo geral, ele não é um número”
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Plotino distingue dois planos: o superior — o Uno puro e verdadeiro (to ontos hen), que não é tal por simples participação — e o inferior, dos outros unos, princípios de segundo grau que são além disso múltiplos
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O Uno é designado nas
Enéadas como: primeiro (to proton hen, V, 1, 1; V, 4, 1), primitivo (protos hen, VI, 2, 9), essencial (ontos hen, V, 5, 4; III, 8, 9), em si (to auto hen, V, 3, 12; V, 3, 15), absoluto (to pantos hen, VI, 6, 11; VI, 2, 9)
O segundo Uno — a unidade múltipla — é o Uno-que-é da segunda hipótese do Parmênides, onde o múltiplo coexiste com o Uno e dele literalmente jorra.
O terceiro Uno — uno e múltiplo — corresponde à terceira hipótese do Parmênides, centrada no instante como mediador instável entre os dois contrários, e é na Alma que Plotino vê as condições dessa evanescência.
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Parmênides 156b: “Uno portanto e Múltiplo, nascendo e perecendo — o nascimento como Uno não é sua morte como Múltiplo?”
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No terceiro Uno, o Uno e o Múltiplo já não cooperam como na segunda hipótese, mas apenas coexistem, podendo sobreviver um ao outro
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Plotino em VI, 3, 6: “A alma é una e ela é múltipla; ela é tudo o que se mostra em sua unidade; una por si mesma, é múltipla em sua relação com as outras almas; ela é um ser Uno que se multiplica por uma espécie de movimento; ela é uma totalidade una que, tentando contemplar a si mesma, é de certa forma múltipla”
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O grau de dispersão e multiplicação é maior do que no ser — tem-se não mais o Uno-múltiplo, mas o Uno e o múltiplo
Os três modos do Uno não são simplesmente o mesmo Uno com três funções diferentes, mas três “unos” que diferem essencialmente por sua natureza — e essa é a tese da exegese plotiniana do Parmênides.
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Na primeira hipótese: o Uno não-múltiplo de modo algum — unidade em si ou absoluta
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Na segunda hipótese: o Uno-múltiplo — o múltiplo contido interiormente, combinação no seio da unidade assumida pelo Uno
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Na terceira hipótese: o Uno e o múltiplo — associação mais distante, onde a forma se afasta ainda mais da unidade pura
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Plotino em V, 1, 8: “Ele (
Platão) está assim de acordo com a teoria das três naturezas” — não o mesmo Uno, mas três unos com naturezas distintas
A relação de Plotino com o filósofo Parmênides de Eleia é explicitamente evocada em V, 1, 8, onde Plotino situa a doutrina eleática como antecedente necessário e imperfeito do Parmênides platônico.
A exegese plotiniana do Parmênides identifica os três Unos com as três hipóstases — o Uno, o Intelecto, a Alma —, o que pode suscitar a suspeita de que Plotino projeta suas próprias ideias sobre o texto de Platão.
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Plotino em V, 1 (Sobre as três hipóstases): “Há primeiro o que está além do ser, a saber o Uno… há logo depois o ser e a inteligência, e em terceiro lugar a natureza da alma”
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A doutrina das três hipóstases plotinianas encontra-se também nos “três reis” da enigmática Carta II (312e, 1-4), de onde o texto de V, 1, 8 parte
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Plotino situa a primeira hipóstase no Bem da
República (509b) e no “Pai da causa” da Carta VI (323d), associado ao Intelecto-demiurgo da Alma no
Timeu (34b)
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A objeção:
Plotino buscaria justificativas em
Platão, cuja autoridade — pelo simples fato de ser citada — funciona como garantia numa época em que a originalidade não é valorizada
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A resposta: o texto de V, 1, 8 é uma recapitulação que mantém contato rigoroso com
Platão ao longo de toda a elaboração das ideias sobre o Uno, fazendo de
Platão a fonte permanente
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Os pontos de acordo essenciais: o Uno-em-si que não é número e permanece transcendente; o segundo Uno situado no ser identificado com o Uno-que-é; o ser ou o pensamento gerando o número dois e a gênese dos números evocada por
Platão
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Conclusão: a exegese plotiniana do
Parmênides repousa em doutrinas verdadeiramente platônicas, apresenta uma louvável tentativa de recurso ao
Parmênides real e histórico em sua relação com o diálogo platônico, e demonstra
Plotino “de acordo” com
Platão em numerosos pontos — realizando, como proclama, uma autêntica exegese do
Parmênides