autores:ivanka:platonismo-cristao
O “platonismo cristão”: uma expressão ambígua
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Definição e Âmbito Histórico do Platonismo Cristão
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Caracterização do platonismo cristão como fenômeno que marca todo o primeiro milênio do pensamento teológico cristão.
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Sobrevivência apenas episódica posteriormente na teologia ocidental, em contraste com sua permanência como linha dominante na teologia oriental.
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Definição do fenômeno: utilização da filosofia platônica como forma de expressão teológica e como estrutura da imagem do mundo na qual verdades reveladas se reinserem.
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Advertência sobre a multiplicidade de significados sob a fórmula aparentemente inequívoca filosofia platônica a serviço do pensamento cristão.
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Primeira Expressão: Orígenes e a Doutrina da Queda Responsável
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Nomeação como platonismo cristão da apropriação, por Orígenes, da doutrina platônica da queda da alma.
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Redução de todas as diferenças entre seres ao distanciamento culpável de cada um da unidade originária dos seres espirituais em Deus.
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Referência ao princípio da República (X, 617 e): a responsabilidade é de quem escolhe, Deus é isento de culpa.
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Esquecimento de que esta referência ao platonismo antigo é dirigida contra duas doutrinas contemporâneas:
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Doutrina gnóstica do rapto das almas, submetidas a queda não culpável em mundo mau por princípio.
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Doutrina do platonismo da época, que pregava uma emanação necessária e graduada do Todo a partir da divindade originária, atribuindo a cada coisa seu lugar ontológico por necessidade interna do processo.
Ensino origeniano: seres espirituais criados todos iguais pelo Criador justo, adquirindo diferentes graus ontológicos por sua própria culpa.-
Segunda Expressão: O Princípio de Emanação na Doutrina da Trindade
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Nomeação como platonismo cristão da introdução do princípio de emanação na doutrina trinitária, com risco de deformação do conteúdo da fé.
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Interpretação subordinacionista das pessoas da Trindade à maneira da doutrina neoplatônica das hipóstases.
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Concepção das pessoas como irradiações progressivamente obscurecidas da essência divina originária.
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Formulação em termos de energias (energeia) da substância (ousia) divina, que, como atos (ergon) da potência originária, se constituem por sua vez como substâncias com sua própria energia.
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Terceira Expressão: Combate ao Arianismo com Instrumentos Neoplatônicos
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Nomeação como platonismo cristão da luta de Basílio e Gregório de Nissa contra a doutrina ariana da subordinação e da agennèsia (não-gerado) como formulação adequada da essência de Deus.
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Utilização de doutrinas neoplatônicas, especialmente do conceito plotiniano do Infinito, para afirmar a incomparabilidade e incognoscibilidade absoluta do Absoluto.
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Consequência: impossibilidade de conceito ou enunciado conceitual adequado à essência divina.
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Uso similar, por Cirilo de Alexandria, do pensamento originário de Plotino contra a doutrina de emanação do imperador Juliano, influenciado pelo neoplatonismo mitologizante de Jâmblico e Proclo.
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Quarta Expressão: Pseudo-Dionísio e a Hierarquia Procliana
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Nomeação como platonismo cristão da apropriação, pelo Pseudo-Dionísio, da visão hierárquica do mundo de Proclo.
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Caráter predominantemente terminológico, metafórico e de revestimento externo, com menor adesão à ontologia emanativa procliana do que frequentemente se afirma.
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Quinta Expressão: Contrastes na Mística e na Gnosiologia
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Abordagem de Gregório de Nissa: ligação à mística do infinito de Plotino, com ideias cristãs orquestradas por motivos platônicos.
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Abandono das Ideias como esfera intermediária e da dialética ascendente platônica, em favor de busca amorosa e desintelectualizada do Absoluto.
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Abordagem de Santo Agostinho: incorporação essencial da doutrina platônica do conhecimento nas razões eternas (rationes aeternae) e na doutrina da iluminação.
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Constatação de que o motivo da busca amorosa, cristianizado, aparece em ambos, Agostinho e Gregório.
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Demonstração da vagueza do vínculo entre o legado platônico na iluminação agostiniana e os motivos de pensamento comuns a ambos autores.
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Legitimidade em chamar a doutrina agostiniana da iluminação de platonismo cristão.
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Sexta Expressão: Princípio do Entrelaçamento e a Liturgia Cósmica em Máximo, o Confessor
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Apropriação do princípio platônico do entrelaçamento universal do mundo das Ideias.
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Transformação do princípio (particularização na descensão, unificação na ascensão) em esquema ontológico fundamental.
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Transposição, em nível ontológico, da ideia governante da história da salvação: recondução de todos os seres à união com Deus.
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Confluência inseparável do ontológico e do histórico-salvífico em uma única liturgia cósmica.
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Sétima Expressão: A Alma entre Dois Domínios (Esquema Dinâmico)
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Utilização precoce da tradição platônica para conceber a alma como realidade viva e móvel, situada entre domínio espiritual-eterno e domínio material-devir.
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Capacidade da alma de assimilar-se a um ou outro domínio conforme sua livre escolha (capaz de ambos segundo a escolha).
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Parentesco natural da alma com o domínio superior.
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Necessidade, para superar o estado de queda, de sair de si mesma, superar-se a si mesma e evadir-se (ekstasis) não apenas do mundo, mas também de seu próprio estado temporal e finito.
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Oitava Expressão: A Alma como Núcleo Ontológico Divino (Esquema Introstático)
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Representação alternativa da alma, também apoiada em elementos platônicos.
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Conceituação da essência da alma como núcleo ontológico eterno, imutável, essencialmente semelhante a Deus.
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Conservação desse núcleo divino mesmo quando recoberto pelas propriedades da esfera inferior (divisibilidade, existência sensível, materialidade).
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Identificação desse núcleo como verdadeiro eu da alma.
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Necessidade de a alma recolher-se em si mesma, retirando-se das camadas periféricas para reencontrar sua profundidade e estado originário, essencialmente idêntico ou próximo a Deus.
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Tensão entre os Dois Esquemas Fundamentais sobre a Alma
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Oposição entre os dois esquemas: um exigindo saída de si (extase) para elevação ao divino; outro exigindo retorno a si para revelação do núcleo divino interior.
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Ambos os esquemas reivindicam, com igual legitimidade, a tradição platônica ou dela derivam imagens e temas, muitas vezes inconscientemente.
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Possibilidade de contraposição entre os esquemas: ênfase na saída de si como necessário porque a participação no divino não é dada na essência da alma, mas conquistada pelo amor, contra a concepção de uma centelha divina inamissível no fundo da alma.
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