Damáscio
* O filósofo Damáscio inicia sua obra intitulada Problemas e Soluções submetendo a um escrutínio rigoroso a derivação de todas as coisas a partir do Um proposta por Proclo, o qual fundamentava tal doutrina na premissa estabelecida na proposição sétima de seus Elementos de Teologia de que toda causa propriamente dita transcende seu efeito, de sorte que Damáscio estabelece uma crítica à teoria da causalidade procliana no que tange ao Inefável e propõe um relato positivo do Um que busca elucidar a investigação inicial de Plotino sobre as razões pelas quais o Um, desprovido de todos os atributos, emana como a totalidade do que existe. * Na distinção estabelecida entre o Um enquanto causa de todas as coisas e o Inefável como o fundamento último da realidade, cuja transcendência não pode ser atenuada por qualquer vínculo causal, Damáscio recorre às bases teóricas de Jâmblico para indagar se existem dois princípios primordiais antes da tríade inteligível inicial, sendo um deles inteiramente inefável e o outro independente dessa tríade, contrastando tal posição com a maioria de seus sucessores que situava a tríade imediatamente após o princípio causal único e com a hipótese de Porfírio, que identificava o Pai da tríade inteligível como o princípio monárquico universal. * A investigação do Inefável como princípio primeiro conduz Damáscio à discussão sobre a racionalidade do discurso metafísico e as bases para o conhecimento do fundamento primordial, temas que a recepção neoplatônica considera implícitos no Parmenides de Platão e que tocam na natureza da causalidade e na possibilidade de o Um transcendente ser conhecido, envolvendo uma avaliação sobre o status da filosofia enquanto disciplina que busca descrever a realidade mesmo quando esta se furta à descrição e sobre a relação entre a linguagem e a totalidade do ser, visto que qualquer determinação semântica sobre o que é ex hypothese insuscetível de afirmações parece incorrer em contradição. * A análise da transcendência e da causalidade do Um retoma as inquietações de Plotino sobre a fecundidade do princípio supremo, a qual permanecia explicada em grande parte por meio de metáforas de generosidade infinita, enquanto Proclo enfrentava dificuldades para explicar a participação da multiplicidade na unidade, propondo uma solução de compromisso baseada nos princípios do limite, ou peras, e do ilimitado, ou apeiron, que resultariam na produção do domínio do Ser como uma síntese do poder infinito e da unidade absoluta. * A insatisfação de Damáscio com a solução procliana motiva uma discussão exaustiva sobre o reino do Um, termo que para ele abarca a totalidade das coisas por sua própria natureza, sendo articulado através de três aspectos ou nomes que apresentam a unidade como o Um, o Um-tudo e o Unificado, termos por vezes referidos como henades que representam as facetas da unidade em sua relação intrínseca com o todo, indicando que o Um inclui todas as coisas por sua própria essência. * A metafísica de Damáscio contrapõe a interpretação de Jâmblico à opinião de Proclo acerca do limite e do ilimitado, conceitos derivados de uma leitura pitagórica do Filebo de Platão sobre a emergência da multiplicidade a partir do Um absoluto, de sorte que a díade constitui uma manifestação da potência latente do Um, relação que Proclo descreve por meio do neologismo ekphansis, ou manifestação, indicando que a natureza do Um é revelada nas henades enquanto Proclo sustenta que o mundo do Ser é gerado e, portanto, inferior à manifestação pura do par primordial, funcionando o limite e o ilimitado como forma e matéria em um composto que constitui o Ser. * A estratégia crítica de Damáscio consiste em utilizar as teses de Jâmblico para demonstrar que o Unificado permanece no âmbito da unidade e que o inteligível não é algo produzido ou exterior, mas uma face do próprio Um, opondo-se à visão de Proclo de que a pluralidade é distinta do princípio original e propondo uma visão de causalidade na qual o Um inclui todas as coisas e o Ser é concebido como incipiente dentro do reino da unidade, atuando como o poder do Um de ser a totalidade dos entes. * Damáscio mantém uma postura aporética superior à de Proclo ao questionar se há de fato uma processão do Um para o que lhe é subsequente ou se o princípio não compartilha sua natureza, argumentando que a processão implica necessariamente distinção e multiplicidade, o que seria incompatível com a natureza do Um que é anterior a qualquer diferenciação, de sorte que, se o Um não dá parte de si aos seus produtos, torna-se problemático como produziu algo tão dessemelhante de sua própria natureza. * Embora Proclo proponha um modelo circular de causalidade no qual o efeito permanece na causa, procede dela e sobre ela reverte, Damáscio identifica falácias nessa estrutura ao apontar que a noção de permanecer na causa pode se tornar uma tautologia trivial e que a reversão possui funções ambíguas, oscilando entre a conquista da própria definição e o retorno à fonte causal, paradoxo que Dodds interpreta como a tentativa necessária de reconciliar transcendência e imanência sem fragmentar a dignidade do superior pela multiplicidade do inferior, garantindo que o inferior nunca seja cortado do superior enquanto o superior permanece não infectado pela pluralidade. * O projeto exegético da Academia de Atenas tardia, que funde a teurgia com o escolasticismo e concebe a filosofia como um rito sagrado, interpreta a manifestação do Um na multiplicidade como a própria jornada da alma em busca de seu despertar no princípio supremo, cumprindo a missão cósmica de reintegrar o múltiplo na fonte, conforme as palavras de Porfírio sobre o esforço de levar o Um interior de volta ao Um absoluto e a tese de Jâmblico de que não é o pensamento teórico, mas a potência de símbolos inefáveis que estabelece a união divina, visto que o pensar não conecta os teurgistas com os seres divinos, mas sim o poder das marcas inefáveis compreendidas apenas pelos deuses.
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