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Bréhier: Jâmblico
Bréhier, História da Filosofia
- Figura proeminente do neoplatonismo tardio, ativo durante os reinados de Diocleciano e Constantino, combinando rigor filosófico com o papel de mistagogo religioso.
- Estabelecimento de um cânone pedagógico para o estudo sistemático de Platão, organizando dez diálogos como um guia progressivo para a vida espiritual.
- Sequência inicia com Alcibíades I, focado no autoconhecimento, prossegue com Górgias, sobre virtudes políticas, e culmina no Parmênides, tratando do princípio supremo.
- Doutrina da alma desenvolvida em fragmentos de caráter histórico, preservados por Estobeu, enfatizando a distinção entre tradição platônica pura e acréscimos posteriores.
- Rejeição da visão de Numênio, de influência estoica, que identifica a alma com a essência da realidade superior, tratando-a como fragmento da inteligência divina.
- Defesa da doutrina genuína de Platão, Aristóteles e Pitágoras, que postula a alma como substância distinta, dotada de características próprias e irredutíveis.
- Traço distintivo do neoplatonismo jambliqueano: tendência à multiplicação e hierarquização rigorosa dos termos da realidade suprassensível.
- Este método, seguido por Proclo, substitui a tripla hipóstase plotiniana (Uno-Bem, Inteligência, Alma) por uma complexa série de ternários (triádicas) sobrepostos.
- Esta abordagem não constitui mera continuação ou refinamento do projeto plotiniano, mas uma reação consciente contra seu espírito filosófico.
- Crítica jambliqueana (via Proclo) à suposta confusão plotiniana entre Inteligência (nous) e Eternidade (aion).
- Proclo acusa Plotino de, ao admitir apenas a Inteligência entre a Alma e o Bem, ser forçado a identificar Inteligência e Eternidade.
- Esta crítica revela um mal-entendido fundamental: Plotino não hipostasia a Eternidade como termo separado, mas a encontra no movimento dinâmico de retorno (epistrophe) da Inteligência ao Uno.
- O método de Jâmblico e Proclo preferiu fixar e hipostasiar esses momentos dinâmicos em entidades ontológicas estáticas.
- Objetivo metodológico fundamental de Jâmblico: síntese entre classificação conceitual aristotélica (do geral ao particular) e dialética platônica.
- Aplicação desta metodologia para deduzir e sistematizar, dentro do mundo inteligível, toda a pluralidade de formas religiosas do paganismo (deuses, demônios, heróis).
- Resultado: um vasto sistema classificatório, visto como esvaziado da vida espiritual dinâmica que animava as Enéadas de Plotino, em favor de uma teologia aplicada e de uma prática teúrgica.
- Transformação radical da estrutura metafísica: da triada plotiniana ao ternário (triádica) jambliqueano.
- Análise do processo plotiniano de produção hipostática: de um princípio emana uma processão (proodos); esta cessação, e o procedente, convertendo-se (epistrophe) para contemplar sua origem, constitui uma nova hipóstase, enquanto algo do princípio permanece (menein).
- Jâmblico hipostasia estas três condições dinâmicas em princípios ontológicos fixos: to menon (o que permanece), to proion (o que procede), to epistrephon (o que se converte).
- Cada ternário forma um sistema (diacosmos) completo, contendo em si os princípios de unidade, diversificação e reunificação.
- A realidade total é uma hierarquia de tais sistemas ternários, cada inferior sendo uma especificação ou concretização do superior.
- Exemplo da estrutura ternária matemático-ontológica.
- Primeiro ternário: Unidade (princípio de identidade), Díade (princípio de processão e distinção), Tríade (princípio de conversão e unificação).
- Segundo ternário: composto por três tétrades, cada uma exemplificando um dos três princípios sob forma aritmética (subsistência como 2², processão como 2×2, conversão como soma 1+2+3+4=10).
- Terceiro ternário: princípio de semelhança (participação na identidade), princípio de expansão anímica, princípio de retorno às origens.
- Substituição da triada dinâmica plotiniana (Uno, Inteligência, Alma) pela triada estática Ser (on), Vida (zoe), Inteligência (nous).
- Inversão da ordem hierárquica: a Inteligência é posterior à Vida, que é posterior ao Ser, refletindo a sequência observável no devir (ser, viver, inteligir).
- A Inteligência corresponde ao momento da conversão (epistrophe): sua função não é produzir, mas ordenar e organizar o que foi produzido pela Vida, que por sua vez procedeu do Ser.
- Mudança do ritmo metafísico: do progresso contínuo rumo à divisão e expansão (Plotino) para o ciclo de expansão (processão) e retorno sobre si (conversão) dentro de cada sistema ternário.
- Consequência geral: o sistema de Jâmblico representa uma formalização, rigidificação e multiplicação hierárquica da dinâmica espiritual plotiniana, transformando processos vivos em estruturas ontológicas fixas para fundamentar uma teologia sistemática e a prática ritual da teurgia.
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